Vocabulário de Foucault_EDGARDO CASTRO

September 14, 2018 | Author: Jéssica Nogueira | Category: Michel Foucault, Thought, Monarchy, State (Polity), Hospital
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Vocabulârio de

FOUCAULT Um percurso pelos seus temas, conceitos e autores 8^.la,l"^t

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Tradução

lngrid Müller Xavier Revisão técnica

Walter Omar Kohan Alfredo Veiga-Neto

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Vocabu lário de

FOUCAULT Um percurso pelos seus temas, conceitos e autores

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Tradução

lngrid Müller Xavier Revisão técnica

Walter Omar Kohan Alfredo Veiga-Neto

autêntica

Copyright @ 2004 Edgardo Castro

- -..O

ORIG NAL

Ei Vocabulario de Michel TiÀD

Foucault

Un recorrido alfabético

por

sus temas, conceptos

u(Áo

lngrid Müller Xavier tEV 5Ào TÉCNICA

Alfredo Veiga-Neto Walter Omar Kohan CAPA E SOBRÊCAPA

Diogo Droschi (Sobre imagem de Raymond DepardonlMagnum Photos) EDIÍORAÇÃO ELETRÔNICA

Tales Leon de Marco

Waldênia Alvarenqa Santos Ataíde REVJSÃO

Ana Carolina Lins Brandão Cecília Martins Vera Lúcia Simoni De Castro CONFECÇÃO DOS íNDICES

Arlindo Picoli Walter Omar Kohan EDIToRA RESPoNSÁVEL

Rejane Dias Revisado conforme o Novo Acordo OrtográÍico.

Todos os direitos reservados pela Autêntica Editora. Nenhuma parte desta publicação poderá ser reproduzida,

seja por meios mecânicos, eletrônicos, seja via cópia xerográfica, sem a autorizaÇão prévia da Editora. AUTÊNTICA EDITORA Rua Aimorés, 981, 8" andar. Funcionários 30140-07L Eelo Horizonre. MG Tel: (ss 3 1 ) 3222 68 19 Trrrvexo,qs: 0800 283 1 3 22

wvwv.autenticaeditora.com. br

Dados lnternacionais de Catalogação na Publicação (ClP) (Câmara Brasileira do Livro)

t-

Castro, Edgardo Vocabulário de Foucault Um percurso pelos seus ternas, conceitos e autores/ Edgardo Castro; traduEão lngrid Müller Xavier; revisão técnica AlÍredo Veiga-Neto e Walter Omar Kohan. Belo Horizonte : Autêntica Editora, 2009.

TÍtulo or ginal: El vocabulario de Mrchel Foucau alfabético por sus temas, conceptos y autores

t : un recorrido

lsBN 978-85-7526-402 7 L

1 . Filosofia - Dicionários 2. Foucault, Mlchel, 1926-'1 984 - Dicionários Veiqa-Neto, AlÍredo. ll. Kohan, Walter Omar. lll. Título.

09-047 1 6

índice para catálogo sistemático 1. Filosofia : Dicionários 103

y autores

SU

MARIO

VrRerrrs PnoLoco n rotçÃo

BRASTLETRA

11

Pnrrncto

13

lnrnoouçÃo

15

lrusrnuÇôrs PARA

VocRsuLRnto

o

uso

or FoucnuLr

1i 21

As osnas E AS PAGINAS

431

ÍNorcr

461

DE TERMOS ESTRANGETROS

Íruorcr oNOMASTIco

ioB

Íruorcr DE oBRAS

415

VERBETES

A

Barbárie (Barbarie)

A priori historico (A priori historique)

2l

Absolutismo (Ab s oluti sm e) Abstinência (Ab st in e n ce) Acontecimento (Év énement)

2t

.4.mulatio

28 28

23 24

Afeminado (Üfféminé) Agostinho, Santo

28

Alcibíades

29

Alienação (Ali é n ati o n) Althusser, Louis Anachóresis

29 30 30 30

Analítica da finitude (Analytique debfinitude) Analogia (Analogie)

31

Amicitia

Animalidade (Animalité) Anomaiia (Anomalie) Anormal (Anormal) Antiguidade (Antíquité) Antipsiquiatria (Ant ip sy chi atr

31

31

32

J4 34

50 50

Barbln, Herculine Barroco (Baroque)

51

5I

Barthes, Roland Basaglia, Franco Bataille, Georges Baudeiaire, Charles Beccaria, Cessare B

ehaviorismo

(B éh av

5l

i

o

r i sme)

Benjamin, Walter Bentham, leremy Bergson, Henri, Bergsonismo (Bergsonisme) Bichat, François Xavier Binswanger, Ludwig Bio-história (B i o -hi st o ire) Biologia (Biologie)

Biopoder (Bio-pouvoir) Biopolítica (Bi op olitiqu e) Bissexualidade (Bisexualité) Blanchot, Maurice Bloch, Marc Bopp, Franz Borges, Jorge Luis Botero, Giovanni

e)

35

mit i sm e ) Antropologia (AnthroP ologie)

35 36

Aphrodísia

37

Arendt, Hannah Ariês, Philippe

38 39 39

Boulainvilliers, Henry de

39

Brown, Peter

40

Burguesia

Antissemitism o (Anti



Aristófanes Aristóteles

Arqueologia (Ar ch é olo gi e) Arquitetura (Ar chit ectur e)

Arquivo (Archive) Ars erotica

Artaud, Antonin

Artemidoro Ascese (Áscàse)

Asilo (Aslle) Atualidade (Actu alit é) AuJkliirung Ausência (Absence)

Aotor (Auteur)

i

(B

o

urge oi si e)

54 54 54 55

55 57 59 60

60 61

62 62 62 62 63 63 63

64

42

43c

44 44 4! 45 46 46 46 46 47

B Bachelard, Gaston Bacon, Francis

Boulez, Pierre Braudel, Fernand

52 52 52 53 53 53

49 49

Cabanis, Pierre fean George Cadáver (Cadavre)

Canguilhem, Georges Capitalismo(Capitalisme) Carne (Chair)

66 66 66 67 68

Cassiano, loão Castel, Robert

7l

Castigo (Chôtiment, punition) Cervantes Saavedra, Miguel de Chemnitz, Bogislaus Philipp von

71

71

Choms§, Noam Avram

72 73 73

Cícero Ciências humanas (Sciences humaines)

74

/3

7

Clausewitz, Carl von Clausura (Renfermement) Clemente de Alexandria

Clinica (Clinique) Cogito

Comentário (Commentaire) Comunismo (Communisme) Condillac, Étienne Bonnot Confi ssão (Aveu,

co

nfession)

Contrato (Contrat) Controle (Contrôle) Convenientia Conversão (Epistrophé, conversion) Corpo (Corys)

Cristianismo (Chr i st i ani s m e) Cuidado de si (Epiméleia, souci) Cuvier, Georges

74 Epiméleia 74 Episteme (Épistémà) 74 Episteme clássica (Épistémà classique) 75 Episteme moderna 80 Epistemerenascentista 81 Epistrophé 82 Epiteto 82 Epithymía 82 Época clássica (Époque classique) 84 Eros 85 Erotica(Erotique) 86 Escola(École) 86 Escola dos anais (Ecole des anales) 87 Estética da existência (Esthétique de 9l lbxistence) 92 Estratégia(Stratégie) 96 Estruturalismo (Structuralisme) Ethos

D Darwin, Charles

97

Degeneração ( D ége né res Deleuze, Gilles

ce n c e)

Democracia (D ém o cr at i e) Derrida, Jacques Descartes, René

Descontinuida de (D i s co nt inui t é) Desejo (Désir) Despsiquiatriz açáo (D ép sy chi at r i s at i o n) Diagnosticar (D iagno stiquer)

Dialética (D i ale ct i qu e) Dietética (Diététique) Disciplina (D i s cipline) Discurso (Discours) Dispositivo (D i sp o s itifl Dispositivo de aliança (Dispositif dhlliance) Dispositivo de sexualidade (Dispositif de sexualité)

Divinatio Documento (Document) Dogmatismo (Dogmatisme) Dominação (Domination) Dom Quixote Doutrina (Doctrine) Dumézil, Georges Durkheim, Émile

97 98 101

Experiência (Exp érience)

103

Fâbrla (Fable)

104 106 107

Família (Famille) Fascismo (Fascisme) Fausto (Faasf)

108

Febvre, lucien

109

Fenomenologia (Phénoménologie) Feudalismo (Féodalisme, Féodalité, Féodal) Ficçáo (Fiction) Filodemo de Gádara Filosofia (Philosophie) Flaubert, Gustave Formaçáo discursiva (Formation discursive) Formalização (Formalisation) Freud, Sigmund

110 117 123

t25

125 125 125

(É co n omi

tlue)

Educação (Éducation)

Enciclopédia

(En cy cl op

Enkrateia

Enunciado (Enoncé) Epicuro

é

die)

t44 144 145

t45 146 147

t47 147

149

r49 150 151

152

t54 155 157 160 160 161

125

126 G 127 Galeno 128 Genealogia(Généalogie) 129 Gênio (Génie) 129 Gnosticismo (Gnosis,Gnosticisme)

131 133 134 135

r64 164 166 167 167 167 170

17t t72 t72 176 177 180 181

Goethe, Wolfgang Governo, governar, governamentalidade

Édipo

B

Exomologêsis

139 140

r02 r02 F

E Econômica

Étíca (Éthique) Exame (Examen) Existencialism o (Exi st e nt i ali s m e)

138

184 184 187

t87 188

(Gouvernement, Gouverneri Gouvernamentalité)

Gterra (Guerre) Gulag(Goulag)

135 H 136 Habermas, fürgen 138 Hadot, Pierre

188 193

t96 197 198

Hegel, Georg

Wilhelm Friedrich

Hegelianismo (Hé géli ani sme) Heidegger, Martin Hermafroditism o (Herm aphr o di sm e) Hermenêutica (Her m en éutique) História (Histoire) Historicismo (Historicisme)

Hitler, Adolf Hobbes, Thomas

Hôlderlin, Johann Christian Friedrich Homem (Homme) Homossexualid ade ( Ho m o s e xu alit é ) Humanismo (Humanisme) Husserl, Edmund Hypomnémata

1e8

M

lii

ilxlilffi',§::,tr

;i.; ::: :Y: i:: iH ;;, ;iZ

i)i

221

222

Hlppolite, |ean

I

Marx, Karl Marxjsmo(Marxisme) Masturbação (Masturbation) Materialismo (Matérialisme) Medicalização (Médicalisation)

Modernidade (Modernité) Monstro (Monstre\ Montaigne, Michel de

223

i o n) Inconsciente (ln c o n s ci ent) Individualizaçã o (In div i du ali s ati o n) Intelectual (lnt ell e ct uel) Interioridade (Int é r i o r it é) Interpretação (Int e r pr ét ati on) Investigação (Enquête, Inquisitio)

22s

Imaginaçáo (Im agin at

I |arry, Alfred )usti, |ohann Heinrich Gottlob von

223 224

L

Liberalismo (Lib

ér ali sm e)

Liberdade (Liberté)

Libertinagem (Lib

er

tinage)

Libido

Limite (Limite) Linguagem (Langage) Linguística (Lingui st i que)

Literatura (Littérature) Lombroso, Cesare Louqra (Folie) Lrta (Lutte)

294

298 298 299 301 303 303

304 Nazismo (Nazisme) 305 Nietzsche,Friedrich Norma (Norme, Normalisation, Normalité) 309 (Nos

o

-p olitique)

311

o (Obédience)

227 227 228

P

229 230 232

236 236 237 237 23g

Lacan, Jacques Lamarck, |ean-BaPtiste Lei (Loi) Lepra (Làpre)

292

312 Obediência Ontologia do presente, Ontologia histórica (Ontologie du présent, Ontologie historique) 312

K KaÍka, Franz Kant, Immanuel Klossowski, Pierre

29t

N

Nosopolítica

Iatriké Ideologia (Idéologie) Ilegalidade (lllégalkme)

291

241

Panóptico (Panoptique, Panoptisme)

3t4

Parresía

316

Pascal, Blaise Pedagogia (Pédagogie)

318

Pinel, Philippe Pitagorismo (Pythagorisme)

320

Platão Platonismo (Platonisme) Plutarco Poder (Pouvoir) Poder pastoral (Pouvoir pastoral)

319 320 321 322

1).) 323 554

Polícia, Ciência dapolicia (Police, Polizeiwissenschaft) População (PoPulation)

334

Positividade(Positivité)

JJO

241 Práttca(Pratique) 242 Prisáo (Prison) 242 Psicagogia (Psychagogie) 243 Psicanálise (PsychanalYse) 245 Psicologia(Psychologie) 249 Psiquiatria (Psychiatrie)

336

339 344 344 347 349

250

2so R 751

Raca (Race)

373

255 256 258 258 288

Racionalidade(Rationalité)

373

Racismo (Racisme) Razão de estado (Raison détat)

376

Reich,

Wilhelm

Religiáo(Religion)

i/ó 381 381

9

Repressão (Répression)

384

Resistência (Résistance) Revolução (Rév olution)

387 387

Roussel, Raymond

392

S Saber (Savolr) Sade,

393

Donatien-Alphonse-François

Marques de Saúde, salvaçáo (Salut, Santé)

Sexualidade Shakespeare,

(S

exu

alit é)

William

Soberania (S o uv erain et é ) Subjetivação (Subj e ctiv ation) Subjetividade (Subj ectivité) Sujeito (Suleú)

395 396 398 403 403 407 409 409

T Tâtica(Tactique)

411 Técnica, tecnologia (Technique,Technologie) 412

(Téléologie) (Territoire) Therapeutiké Totalidade (Totalrtô Tradição (Tradition) Tianscendental (Transcendental) Transgressão (Transgression) Teleologia

Território

414 474 415 415

416 417 417

U Ubuesco (Ubuesque) Ussel, los van Utopra (Utopie)

419 419 419

V Verdade, jogo de verdade, vontade de verdade (Vérité; leu de vérité, Volonté de vérité)

421

w Weber, Max

426

x Xenofonte

428

Z Zen

10

429

PRoLoGo

n rolçÃo

BRASTLETRA

Michel Foucault é um dos pensadores franceses contemporâneos mais potentes, não apenas pela sua produção teórica, mas, sobretudo, pelo seu modo de conceber e afirmar uma posição para o intelectual. Nesse sentido, Foucault faz do pensamento uma práticaativa de problematizar as questões do seu tempo. Produziu teoria, rnuita teoria; mas também ajudou a pensar que há formas diversas de se relacionar com a teoria. Na esteira de Nietzsche, chamou a teoria de'taixa de ferramentas"; com isso, Foucault sugeria que nenhuma teoria tem valor em si própria, para além dos usos que lhe são orriorgudor. Trata-se, então, de uma pragmática - não utilitária - do pensamento: dizme o que fazes com o pensamento e te direi o valor desses pensares"' poucos escritos sobre Foucault merecem tanto o nome de "caixa de ferramentas" como o livro que estamos apresentando em versão em língua portuguesa: Vocabulário de Foucault, de Edgardo Castro. Produto de um rigoroso e exaustivo estudo, não hesitamos em afirmar que se trata de um instrumento de trabalho precioso, fundamental, utilíssimo para os interessados em pensar com e a partir do filósofo. Com efeito, o leitor tem em máos um sofisticado mapa de suas principais temáticas e questões. Cada verbete não apenas "faz referência a onde, nos escritos de Foucault, aparece cada termo, mas quer, ademais, oferecer uma indicação (às vezes sucinta, às vezes extensa) de seus usos e contextos'i Algo assim como o mais completo "motor de busca" para visitar os caminhos de seu pensamento.

Na Introdução do autor, o leitor encontrará subsídios muito claros para adentrar na presente versão em português. Há que se ter sempre à mão as "Instruções para o uso" (p. 17-19). Todos os critérios da edição em língua espanhola foram respeitados na presente edição, com leves intervenções no texto para atualizar as referências bibliográficas aos cursos publicados posteriormente à data da edição original do Iivro na Argentina, em 2004. Dentro dos verbetes, mantivemos no idioma original o título das obras em francês por dois motivos: são facilmente compreensíveis para o leitor de língua portuguesa e nem sempre os títulos em francês coincidem com os das traduções. As referências remetem às edições francesas dos textos de Foucault. Embora não seja o ideal, preferimos essa alternativa, dada a existência de diversas traduções ao

II

Português para alguns textos e a inexistência de traduções para outros. Como também em francês não existe uma única edição francesa dos textos de Foucault e a numeração das páginas não é a mesma em todas as reedições, ao final d,o Vocabulárlo a seção 'As obras e as páginas" relaciona as páginas que correspondem aos capítulos ou às seções das ediçoes em francês utilizadas dos textos de Foucault. Para os Dits et écrits,acrescentamos o título do texto (verbete, entrevista, intervenção) e, para os cursos no Collêge de France, a data da aula. Todos os títulos dessa seção estão em francês e em português. As traduções dos textos em francês citados nos verbetes foram feitas cotejando a versão em espanhol com o original francês. Na presente edição acrescentamos um índice onomástico e

outro de obras. Os termos em grego foram transliterados segundo as normas de Henrique

Murachco. Língua Grega.Yol.I. São Paulo: Discurso Editorial; Vozes, 2001, p.40-42. De resto, o texto segue fielmente o original.

Ao leitor, boas viagensl Ingrid Müller Xavier, Walter Omar Kohan, Alfredo Veiga-Neto

L2

PREFAC!O

Guardadas as diferenças, poderíamos começar como Foucault no prefácio a Les mots et les choses e dizer que este livro nasceu de um texto de Borges. Foucault refere-se àquela enciclopédia chinesa onde aparece uma inquietante classificação dos animais: "(a) pertencentes ao Imperador, (b) embalsamados, (c) domesticados, (d) leitões, (e) sereias, (f) fabulosos, (g) cães em liberdade, (h) incluídos na presente classificação, (i) que se agitam como loucos, (j) inumeráveis, (k) desenhados com um pincel muito fino de pelo de camelo, (l) et cetera, (m) que acabam de quebrar a bilha, (n) que de longe parecem moscas" (Jorge Luis Borges, "El idioma analítico de lohn Wilkins'l in Obras

completas 1923-1972, Buenos Aires, Emecé,1974, p. 708). Sempre, segundo Foucault, essa classificação provoca riso. Não pelo que nos pode sugerir o conteúdo de cada um de seus itens, mas pelo fato de que eles tenham sido ordenados alfabeticamente. O que nos faz rir é que no não lugar da linguagem se tenha podldo justapor, como em um espaço comum, o que efetivamente carece de lugar comum. Provoca riso e inquietude a heterotopia que domina essa classificação (cf. MC, 9). Supondo que os "inumeráveis'l os "fabulosos" ou os"et cetera" existam, na classificação de Borges, trata-se de ordenar "seres"; no Vocabulário de Foucault - Um percurso por seus temas, conceitos e autores,de ordenar'tonceitos'l Mas, ainda que pareça que os "conceitos" estejam mais próximos das palavras e facilitem a operação, apesar disso, o perigo não e menor. De fato, esle Vocabulário pode produzir o mesmo efeito que a classificação dos animais da enciclopédia chinesa; Porque, claramente, tal como ela, poderia ser apenas o esforço para encontrar um lugar comum para o que parece não tê-lo. O

próprio Foucault, com certa frequência, assinalou o caráter fragmentário

e

hipotético

de seu trabalho, sua recusa em elaborar teorias acabadas, seu horror à totalidade. Seria, então, somente a pretensão de querer pôr ordem e limites a seu pensamento, recorrendo

simplicidade e finitude alfabéticas. Mais ainda, tentando ser simultaneamente breve e extenso, analítico, mas exaustivo, encerrando o universo do pensamento foucaultiano na enclausurada gramática de um dicionário, este Vocabulário náo só provocaria o mesmo à

efeito que essa estranha classificação de animais, mas correria o risco de converter-se ele mesmo em uma enciclopédia chinesa. Porque, "notoriamente não há classificação do universo que não seja arbitrária e conjetural" (J.-L. Borges, op. cit., p. 708). E nada

t3

nos assegura que, com o afã de ordenar, não venhamos a cair nessas autoimplicações (classificar os conteúdos mesmos da classificação; como Borges, "(h) incluídos na presente classificação") que só os labirintos da linguagem permitem construir. E, finalmente, no e, no melhor, também inquietude.

pior dos casos, provocar somente riso,

- Mas e se esse espaço comum existisse?

- Ah, bom, então, apresentar este Vocabulário se reduziria a dizer, de novo como Foucault: "Eu não escrevo para um público, escrevo para usuários, não para leitores" (D82, s24).

Edgardo Castro

l4

TNTR0DUÇÃ0

Nossa ideia inicial foi elaborar um índice completo da totalidade dos textos publicados de Foucault: os livros editados em vida, a recopilaçâo intitulada Dits et écrits e os

cursos no Collêge de France que apareceram ate o momento. A intenção era dispor de um instrumento de trabalho em estado "bruto I sem nenhum tipo de seleção ou filtro dos dados. Dada a sua extensão e à espera de encontrar o modo mais adequado para

publicar este material, com base nele elaboramos este vocabulário.

O presente trabalho difere da nossa ideia original por vários motivos. Por um lado, não se trata de um índice, mas, mais exatamente, de um vocabulário. Não só faz referência a onde, nos escritos de Foucault, aparece cada termo, mas quer, ademais, oferecer uma indicação (às vezes sucinta, às vezes extensa) de seus usos e contextos. Por outro lado, está constituído por uma seleção arbitrária de termos. os únicos criterios que nos guiaram, no momento de escolher o que incluir

e o que importância que reconhecíamos em alguns termos valendo-nos da nossa leitura da obra de Foucault (o que poderíamos denominar sua "representatiüdade"), nosso interesse pessoal ou, simplesmente, uma suposta utilidade para o leitor. Por exemplo, no caso das expressóes e dos termos gregos, frequentes nos últimos escritos, quisemos incluir o maior número possível. Alguns autores foram incluídos não pela frequência com que são citados; mas, por serem autores menos conhecidos para o público em geral e, por isso, pareceu-nos útil situá-los na obra de Foucault e também na história. Por exemplo, os autores estudados a propósito da análise da "Razão de Estado I

deixar de fora, foram:

a

As limitaçÕes que, necessariamente, surgem dessas opçoes só poderiam ser sanadas com um trabalho de equipe, no qual os critérios de seleção se multipliquem e sejam discutidos. Além do mais, ate que sejam publicados todos os cursos de Foucault no Collêge de France, torna-se impossível colocar um ponto final na tarefa de elaborar um vocabulário foucaultiano. Por outro lado, este deveria estar acompanhado de uma bibliografia secundária que pudesse ser sugerida a propósito de cada termo. Outra tarefa arealizar seria estabelecer "a biblioteca de Foucault'l a lista de obras citadas, segundo a cronologia e a frequência. Por todas essas razões, este trabalho deveria ser tomado como o ponto de partida para uma obra coletiva, necessariamente mais abrangente e

mais rica. O convite está feito. Não

trata, pois, de uma exposição do pensamento de Foucault, mas de um instrumento de trabalho. Na redação dos verbetes, tentamos abster-nos o mais possível de nossa se

I5

interpretação pessoal. A propósito de cada termo, só quisemos mostrar como e onde ele aparece. Sobretudo, pretendemos exibir seus sentidos mais releyantes. Por isso, porque nào se

trata de uma exposição sistemática, mas apenas de uma apresentação do conteúdo, mul-

tiplicamos as referências

e

mantivemos algumas repetiçoes. Muitos termos talvez pudessem

ter sido reunidos dentro de outro. Mas nem sempre os agrupamos. Algumas vezes o fizemos, a hm de náo nos estender demasiado; outras, os mantivemos separados para facilitar a

consulta por termos, e não por temas. Também para controlar a extensão da exposição

eritar demasiadas duplicaçôes,

às vezes

e

remetemos de um verbete para outro.

Em certo sentido, quisemos conservar a dispersão que caracteriza o trabalho de Foucault. Por isso, na medida em que os textos o permitiram, em alguns verbetes se encontrará uma exposição mais ordenada; em outros, já não (sobretudo quando o nraterial corresponde à recompilação editada como Dlús et écrits; aqui a dispersão está quase imposta). Por outro lado, alem de apresentar os contextos mais relevantes do termo abordado, às vezes citamos diretamente algumas expressôes de Foucault, sobretudo quando nos pareceram particuiarmente relevantes, esclarecedoras, simplesmente provocativas ou também apenas divertidas. Mantivemos no idioma original o título das obras em francês por dois motivos: são facilmente compreensíveis para o leitor e nem sempre os títulos em francês coincidem com o das traduçóes. Por exemplo, os textos que integram a compilação Dits et écrits estão parciahnente publicados em português com outra ordenação e formato. Na elaboração deste Vocabulário, tivemos presente o interessante trabalho de Judith Revel, le vocabulaire de Foucqult (Paris, 2002) [em portuguê s, Michel Foucault: conceitos essenciais. São Carlos: Claraluz,2005]. Nosso objetivo, em todo caso, foi diferente.

Várias pessoas me acompanharam, com suas sugestões, suas críticas e, sobretudo, seu entusiasmo na realização deste vocabulário. Alfabeticamente, Ariel Yoguel, Bilrbara Steinman,

Gerardo Fittipaldi, Guido Deufemia, Leiser Madanes, Marcelo Boeri, María Luisa Femenías, Oscar Conde, Pablo Pavesi e Yves Roussel. Com María Giannoni e Paula Fleisner, ademais,

discutimos alguns dos verbetes mais complexos. Mariana Sanjurjo teve

a amabilidade de ler sugerir-me as correções necessárias, para que a leitura fosse mais fluida e a expressão mais correta desde o ponto de vista da lingua. É dificil distinglir o que pertence

todo o texto

e

a cada um deles; mas impossível não agradecer-lhes. Nos departamentos de fiiosofia da

Universidade de Buenos Aires, da Universidade Nacional de La Plata e da Universidade Nacional de Rosário, ministrei vários cursos e seminários sobre o pensamento de Michel Foucault. Sem o trabalho de discussão com os que participaram deles, este vocabulário nunca teria vindo à luz. Tambem a todos eles o meu reconhecimento. E por fim, gostaria de agradecer especialmente aos Profs. Walter Omar Kohan e

Al-

tiedo Veiga-Neto pelo interesse que mostraram desde o primeiro momento, em realizar a traduçáo brasileira desta obra. Esse interesse foi acompanhado, ademais, peio trabalho de revisão e de adaptação necessário. Um rnerecido reconhecimento de minha parte vai também para Ingrid Müller Xavier. É impossível expressar em poucas palavras o esforço realizado por ela. Uma parte importante desta obra lhes pertence. 16

TNSTRUÇoES PARA

0

USo

1) Estrutura dos yerbetes. Seguimos um duplo modelo na organização dos verbetes. Todas as "entradas" do vocabulário estão assinaladas em maiúsculas, negritos e caracteres um ponto maior que o resto do verbete. Por exemplo: "EPISTEME". Para os verbetes que abordam um tema extenso e com numerosas relações a outros temas, diferenciamos os contextos indicando-os com termos em negrito, e a letra inicial em maiúscula seguidos de um ponto; por exemplo: "Saber'l Algumas vezes, tivemos que introduzir distinções dentro de cada contexto. Nesse caso, utilizamos, além de negrito e a letra e parênteses. Por exemplo:

"l)

Discurso'l

inicial em maiúscula, números distinguir três níveis em

Desse modo, é possível

um verbete: EPISTEME (título do verbete), Saber (contexto), f ) Discurso (subcontexto). Ademais, quando é necessário dar conta das relações entre os diferentes contextos, o verbete começa com uma breve introdução, para indicá-las. Para os outros verbetes, no entanto, onde não era necessário distinguir contextos de uso, simplesmente utilizamos asteriscos (*) para estabelecer algumas divisÕes no texto. Em três verbetes (Clínica, Loucura e Psiquiatria) nâo tivemos outra alternativa a não ser expor de maneira esquemática, mas analítica, o conteúdo de alguns

livros de Foucault.

conceitos É possível distinguir três categorias de verbetes: verbetes que se ocupam de que verbetes priori histórico); A (por Episteme, exemplo, foucaultianos

.rp..ifi.u..rte

abordam temas tratados por Foucault (por exempl o, História, Poder)

e

verbetes que tratam

de autores que aparecem na sua obra.

2) Referências cruzadas. Para formar uma ideia precisa de alguns temas abordados por Foucault, especialmente aqueles de maior relevância, será necessário consultar vários verbetes. Isso é inevitável. Para indicar o percurso a ser seguido, indicamos em itálico o verbete ao qual se remeter,

por exemplo: "Yer: Epistemd'.

3) Índice de ocorrências e "loci". Ao flnal da exposição dos usos e contextos de cada termo do vocabulário, encontram-se as referências acerca de onde aparece esse termo nos textos de Foucault. Ali indicamos: 1) o termo em francês, 2) entre colchetes, [], a quantidade de vezes que aparece, 3) as referências bibliográficas abreviadas da seguinte maneira:

AN AS

Les anormaux

/

Os anormais

lhrchéologie du savoir / A arqueologia do saber 17

DEI

Dits et écrits I / Ditos e escritos

I

*

DE2 Dits et écrits II / Ditos e escritos II * DE3 DiÍs et écrits III / Ditos e escritos III * DE4 Dits et écrits IV / Ditos e escritos IV *

HF HS

Histoire de la folie à lkge classique / História da loucura Lherméneutique du sujet / A hermenêutica do sujeito

HSI Lhistoire

de la sexualité 1. La volonté de savoir / História da sexualidade I. A vontade de saber

HS2 Lhistoire

de la sexualité 2. Ilusage des plaisirs

sexualidade IL

HS3 Lhistoire

de la sexualité 3. Le souci de soi

sexualidade

IIL

/ História da

O uso dos prazeres

/ História da

O cuidado de si

IDS

"Il faut défendre la société" / Em defesa da sociedade

MC

Les mots et les choses

MMPE Maladie mentale

et

/ As palavras

e as coisas

Personnalité / Doença mental

e

MMPS Maladie mentale et psychologie / Doença mental

NC OD PP RR SP

La naissance de la clinique

/

personalidade e

psicologia

O nascimento da clínica

lhrdre du discours / A ordem do discurso Le pouvoir psychiatrique

/

O poder

psitluiátrico

Raymond Roussel/ Raymond Roussel Surveiller et punir

/

Vigiar e punir

* Referências segundo ediçáo francesa de Dlrs a et écrits, que segue uma ordem cronológica e

não temática como a tradução ao português.

Na deflnição do corpus

apartir do qual foi gerada

seguimos os seguintes critérios:

I)a

a

frequência de aparecimento dos termos,

totalidade dos livros, exceto títulos

e

índices; 2) para Dits

et écrits, não incluímos, alem dos índices, a cronologia contida no vol. I; 3) para os cursos do Collêge de France, deixamos de lado os resumos, que já se encontram em Dits et écrits, e a

"Situation des cours'l redigida pelos editores; mas incluímos as notas. Há uma diferença entre os termos no verbete e no índiçe. Em cada verbete, apresentamos os contextos de uso de um termo que consideramos relevante desde o ponto de vista foucaultiano. No índice, de cada verbete, figuram todas as aparições do termo; não só as que nos interessam. As referências remetem às edições francesas dos textos de Foucault. Isso apresenta várias

dificuldades. A primeira delas é que não existe uma única edição francesa dos textos de Foucault, e a numeração das páginas não é a mesma em todas as reedições. Para facilitar

a

localização aproximada das referências nas diferentes edições e em suas correspondentes 1S

traduções, ao final do vocabulário haverão de se encontrar, relacionadas por ordem alfabética: l) para os livros de Foucault publicados antes de sua morte, os capítulos ou as seções correspondentes à numeração das páginas que utilizamos; 2) para os volumes de Dits et écrits,o título do texto (verbete, entrevista, intervenção) utilizado;3) para os cursos no Collêge de France, a data da aula. Ainda que náo deixe de ser um inconveniente, não encontramos una solução melhor. As edições francesas que utilizamos são as seguintes (os anos correspondem à data da edição utilizada): Les anormaux, Paris, Seuil-Gallimard, 1999.

Ihrchéologie du savoir, Paris, Gallimard, 1984. Dits et écrits I, Paris, Gallimard,1994. Dits et écrits II, Paris, Gallimard,1994. Dits et écrits

IlI,

Paris, Gallimard,1994.

Dits et écrits IV, Paris, Gallimard,1994.

Histoire de la folie à lkge classique,Paris, Gallimard, 1999.

t h erméneutique su suj et, Paris, Seuil-Gallimard, Lhistoire de la sexualité

1.

200

I'

La volonté de savoir, Paris, Gallimard, 1986'

Iihistoire de la sexualité 2, Ilusage

des

plaisirs, Paris, Gallimard, 1984.

Ilhistoire de la sexualité 3. Le souci de sol, Paris, Gallimard, 1984' "Il faut défendre la société", Paris, Gallimard-Seuil, 1997' Les mots et les choses, Paris, Gallimard, 1986.

personnalité,Paris, PUF, 1954'

Maladie mentale

et

Maladie mentale

et psychologie, Paris, PUF, 1997'

La naissance de la clinique, Paris, Gallimard, Ihrdre du discours, Paris, Gallimard, Le

1988.

1986.

pouvoir psychiatrique, Paris, Gallimard-Seuil, 2003.

Raymond Roussel, Paris, Gallimard, 1992. Surveiller et punir, Paris, Gallimatd,1987.

I9

1

A

PRIOR HISTORICO (A priori historique)

Foucault utiliza a expressão "a priori histórico" para determinar o objeto da descriçáo arqueológica. Ainda que várias vezes ele tenha assinalado a herança kantiana de seu trabalho filosófico (D84,632,687-688), o adjetivo "histórico" quer marcar as diferenças com respeito ao " a priori" kantiano. O " a priorihistórico I efetivamente, não designa a condição de validade dos juízos, nem busca estabelecer o que torna legítima uma asserçáo, mas sim as condições históricas dos enunciados, suas condições de emergência, a lei de sua coexistência corn outros, sua forma

específica de ser, os princípios segundo os quais se substituem, transformam-se e desaparecem.

'A priori não de verdades que nunca poderiam ser ditas nem realmente dadas na experiência, mas de uma história já dada, porque é a história das coisas efetivamente ditas" (AS, 167). Trata-se

definitivamente da regularidade que torna historicamente possível os enuncíados.O eo

histórico não são do mesmo nível nern da mesma natureza (AS,

também a expressâo" a priorl concreto'l Em Histoire de

a

priorl formal

165-169). * Foucault

utiliza

folie à lhge classique, por exemplo, a iclentificaçáo do soclus com o sujeito de direito constitui o "a priori concreto" da psicopatologia com pretensão científica (HF, 176). * Em um de seus primeiros textos, "La recherche scientifique la

etla psychologie'(em Morêre), Des chercheursfrançais s'ínterrogent. Orientation et organisation du travail scientiJ)que en Franca Toulouse, Privat, Collection "Nouvelle Recherche'l n. 13, 1957,p. 173-201, reeditado em histórico"

(DEl, 155-i58).

corresponde ao atribuído ao"a Apriorihistorique

DEl,

137 -168), encontramos a expressão

"

a

priori

conceitual e

O sentido dessas duas expressões que acabamos de mencionar não

priori histórico'

[17]: AS, 166 167,169,269.

em lhrchéologie du savoir.

DEI,661. DE4,632. MC, t3,15,171,287,329,35s,361.NC,

197.

; ABSOLUTISMO (Absolutisme) Com o termo " ab solutismo", Foucault refere-se principalmente

à forma de organização do poder do rei e da burguesia na França, durante os séculos XVII e XVIII; exercício administrativamente

A

PRIORI HISTÔRICO (A

priorí historique)

2t

centralizado

e pessoal do poder que se adquire hereditariamente. Criação do hospital geral. À fundaçào do Hospital Geral de Paris data de 1656. À primeira vista, tratâ-se de uma reorga-

nização atraves da qual se uniÍicam administrativamente várias instituições já existentes, entre

ls quais se encontram e

a Salpêtriêre e a Bicêtre, que então foram destinadas a receber, alojar alimentar os "pobres de Paris'l tanto os que se apresentavam por si mesmos quanto aqueles

para lá enr-iados pela autoridade judicial. Ao diretor-geral, nomeado por toda a vida, era-lhe conterido o poder de autoridade, direção, administração, comércio, polícia, jurisdição, correção castigo sobre todos os pobres de Paris que se encontrassem dentro ou fora dos edifícios destinados ao hospital. "O Hospital geral é um estranho poder que o rei estabelece entre a polícia e

limites da lei:

terceira ordem da repressão [...]. Em seu funcionamento ou em vinculado a nenhuma ideia médica; é uma instância de ordem, de ordem monárquica e burguesa que se organiza nesta época na França" (HF, 73). Criados por éditos do rei, na organizaçao e no funcionamento dos hospitais gerais, mesclam-se e a iustiça, nos

a

seu propósito, o Hospital geral não está

os privilégios da Igreja quanto à assistência aos pobres e a preocupação burguesa por ordenar o mundo da miséria (assistência, repressão). A nova instituição se estenderá rapidamente por

todo o reino

e chegará a ser, para além da França, um fenômeno europeu. No entanto, na França, constituição da monarquia absoluta e o renascimento católico na época da contrarreforma lhe darão um caráter particular, de cumplicidade e concorrência entre o poder e a Igreja (HF,

a

77).Yer: Loucura. Direito de castigar. Até o século XVIII, o suplício como castigo não funcionava de modo a ser uma reparação moral, mas como cerimônia política. O delito era considerado uma ofensa e um desafio à soberania do rei, ao corpo do rei. O carâter aterrador e excessivo do suplício, como o de Damiens que Foucault descreye no começo de Surveiller et punir, tinha como finalidade reconstruir a soberania desafiada. Um espetáculo que, em seu excesso, queria mostrar a supremacia do monarca e que, enquanto espetáculo, buscava

(D82, 726).lJmavtneança tanto pessoal quanto pública. Nesse sentido, o direito de castigar que o monarca detém pode ser considerado como uma prolongação do 'direito da espada'l direito de vida e de morte inerente à soberania (SP, 52). Polícia. Entre as seu reconhecimento

transformações das práticas disciplinares durante a época clássica, Foucault assinala a estatização dos mecanismos disciplinares. Enquanto na Inglaterra,

por essa mesma época, grupos privados de inspiração religiosa asseguravam o controle social, na França, a função disciplinar era geralmente assumida pela polícia. Contudo, apesar de que a organizaçáo centralizada do aparato policial possa ser vista como uma expressão do absolutismo monárquico, isto é, de que constitua um aparato de Estado, a função de polícia é coextensiva ao corpo social, ela deve chegar até seus limites extremos, até os mínimos detalhes. Nesse sentido, o objeto da polícia não é o Estado ou o reino como corpo visível do monarca, mas "tudo o que acontece'] "as coisas de cada instante" (sP, 213-215). saber governamental. o século XIX marca o

fim do absolutismo e, com ele, de sua forma de exercício do poder. o poder começa a ser exercido com a intervenção de certo saber governamental que engloba o conhecimento dos processos econômicos, sociais e demográficos. Durante a primeira metade do século XIX, esse saber governamental se estruturou em torno do conhecimento da economia; mas os efeitos da reorganizaçáo da economia sobre a vida dos indivíduos tornarão necessário outro tipo de fim de corrigir esses efeitos, adaptando os indivíduos às novas formas do desenvol-

saberes, a

vimento econômico (a medicina, 22

ABSOLUTISMO (Absoluti sme)

a

psiquiatria,

a

psicologia). O poder político adquire desse

modo uma forma terapêutica (D82, 433-434). Lettres de cachet. Ainda que a utilização das lettres de cachet (umacarta do rei, com seu selo, contendo uma ordem de prisão) tenha sido um episódio temporalmente circunscrito, apenas pouco mais que um século, não por isso resulta insignificante desde o ponto de vista da história do poder. Na opinião de Foucault, essa prática não deve ser vista como a irrupção da arbitrariedade do poder real na cotidianidade da vida. Antes, articula-se, segundo circuitos complexos e um jogo combinado de solicitações e respostas. Todos

podiam servir-se delas segundo seus interesses. Podem ser vistas, por isso,

como uma forma de distribuição da soberania absoluta (D83,247). Discurso histórico. Podemos considerar "Il faut défendre la société" como uma genealogia do discurso histórico moderno. Foucault opõe o que denomina a história jupiteriana ao discurso da guerra de

raças. Aprimeira, tal como a praticavam os romanos e também

a

Idade Média, era concebida

como um ritual de fortalecimento da soberania. Por um lado, narrando a história dos reis, dos potentes e de suas vitórias, liga juridicamente os homens ao poder pela continuidade da lei; por

outro lado, narrando exemplos e proezas, fascina e atrai. Dupla função da história jupiteriana, relato do direito do poder e intensificação de sua glória. Discurso do Estado sobre o Estado, do poder sobre o poder. Em relação à história jupiteriana, o discurso da guerra de raças pode ser visto como uma contra-história; ela rompe a unidade da soberania e, sobretudo, obscurece

sua glória. A história dos soberanos já não incluirá a história dos súditos, a história de uns não é a história dos outros. Os relatos de proezas e façanhas não são senão a transformação,

por parte dos vencedores, das lutas de dominação, de conquista, de opressão. Aparece, então, um noyo sujeito da história: a nação, a raça (IDS, 57-63). Essa nova forma da história foi utilizada tanto pelos defensores do absolutismo quanto por seus opositores. Por exemplo, na Inglaterra, por James I e os parlamentares que se lhe opunham (IDS' 88-89). O discurso da guerra de raças teve como objetivo, na França com H. de Boulainvilliers e como parte da reação nobiliária, desestruturar o discurso que ligava a administração ao absolutismo, isto é, de outro modo' o discurso jurídico e o discurso econômico-administrativo. Para expressá-lo

discurso que a nobreza tratou de desconectar a vontade absoluta do soberano guerra de raças e a absoluta docilidade da administração. Como na Inglaterra, o discurso da foi utilizado por todas as posiçoes políticas, de direita ou de esquerda. O absolutismo, por sua é através desse

vez, também se apropriou dele (IDS, 101-120). 119Absolutisme [46]:DE2,433,465,726.D83,247,323. HF,74. IDS, 87'89,92-94,103, 105-106' 108, 113-114, 120, 125, 127, 128- 130, 136, 157, 180- 183, 207. sP, 82, 2 14.

3. ABSTI N ÊNCIA

(Ábstrnence)

Seria fácil mostrar, segundo Foucault, que a história da sexualidade não pode ser dividida em uma etapa de permissáo e outra de restrições que corresponderiam, respectivamente, ao paganismo e ao cristianismo. O primeiro grande livro cristão dedicado à prática sexual (cap.

X, livro II do Pedagogo, de Clemente de Alexandria) se apoia tanto na Escritura como em preceitos e disposições tomados diretamente da filosofia antiga. Tanto no paganismo como no cristianismo (ainda que, como o próprio Foucault ressalta, trata-se de categorias pouco ABSTTNÊNclA (Abstí nence\

23

precisas), a problematizaçáo do prazer sexual e, consequentemente, a abstinência foram uma parte fundamental da ascese do indivíduo, ainda que com um valor e uma situação diferentes. * A Antiguidade clássica honrou as figuras dos heróis virtuosos, como Apolônio de Tiano,

quem, tendo feito voto de castidade, passou sua vida sem manter relações sexuais. Porém, para além desse caso extremo, como ascese, ou seja, como exercício do indivíduo sobre si mesmo, aparece vinculada a dois temas importantes, o domínio sobre si mesmo e o conheci-

mento de si, isto é, ao governo e à verdade. Aqui encontramos, respectivamente, Agesilao de Xenofonte

eo

Sócrates de Platão (HS2, 20-31). * Nos epicuristas, o exercício da abstinência

servia para marcar o limite a partir do qual a privação se convertia em sofrimento; para os estoicos, por sua vez, consistia em uma preparaçáo para eventuais privaçoes (HS3, 75). -

No marco geral da evolução da ascese antiga, a relação entre abstinência e conhecimento tende a ocupar o primeiro lugar, acima da relação entre ascese e governo. Abstinence [48]: 20-21, 27,

d.

l0l,

DE

135-1 36, 187.

,

362-363,547,552,671,80 L HF,

HS3, 7 5, 77, 85, t44-

6I

9. HS, 279, 395, 3gg, 403, 40s-412, 414, 4rg,435. HS2,

116. 272.

ACONTECIM ENTO (Even em ent)

Foucault se serve do conceito de acontecimento para caracterizar histórica da arqueologia é

e

a

modalidade de análise

também sua concepção geral da atividade filosóflca. A arqueologia

uma descrição dos acontecimentos discursivos. A tarefa da filosofia consiste em diagnosticar

lhrdre du discours, trata-se de una categoria paradoxal, que coloca problemas "temíyeis" e que loi "raramente levada em corlsideração pelos fllósofos" (oD, 59). Em um primeiro momento, podem-se distinguir dois o que acontece, a atualidade. Como ele mesmo observa, em

sentidos desse termo: o acontecimento como novidade ou diferença e o acontecimento como

prática histórica. No primeiro sentido, Foucault fala de "acontecimento arqueológico"; no segundo, por exemplo, de "acontecimento discursivo'i O primeiro quer dar conta da novidade histórica; o segundo, da regularidade histórica das práticas (objeto da descrição arqueológica). Existe claramente uma relação entre esses dois sentidos: as novidades instauram novas formas de regularidade. Assim, por exemplo, em Les mots

et les choses,o "acontecimento" da passagem de uma episteme a outra instaura novos acontecimentos discursivos. É necessário aclarar que, acerca dessa relação entre novidade e regularidade, entre surgimento e funcionamento das práticas, tarnbérn se pode

distinguir duas posições de Foucault. Em les mots et les choses, por um lado, o acontecimento arqueológico e pensado, como veremos em seguida, como uma ruptura radical, só manif'esta por seus efeitos. A regularidade que essa ruptura instaura, por outro lado,

e pensada,

aqui, em termos somente discursivos (ver: Episteme). A medida que Foucault estenda o domínio de análise ao não discursivo (dispositivos, práticas em geral), o surgimento de outras práticas (acontecimentos no segundo sentido que distinguimos, ainda que já não só discursivos) deixará de ser pensado em termos de ruptura radical, de um acontecimento em certo sentido oculto. Com efeito, já não se trata tanto de afirmar o "aparecimento" de outras práticas, porém, mais propriamente, de analisar sua formação. Assim, em Les

mots et les choses, a biologia, por exemplo, em sua regularidade, não é uma transformação 24

ACONTECI MENT O (Événeme

nt\

da

História Natural, mas surge ali onde não havia um

saber sobre a vida. Contudo, mais

tarde, quando Foucault encara a história da sexualidade, a'genealogia do homem de desejo' é pensada como a história das sucessivas transformações de práticas que, desde a Antiguidade, chegaram até nós. Nessa perspectiva, há certa primazia do acontecimento como regularidade. A novidade já náo é um acontecimento oculto do qual as práticas seriam as manifestações; as práticas definem agora o campo das transformações, da novidade. Pois bem, tocamos

aqui em um ponto nevrálgico do pensamento de Foucault: como pensar a relação entre novidade e regularidade sem fazer danovidade uma espécie de "abertura' ("a la Heidegger") nem converter as práticas em uma espécie de "a priori" da história, do acontecimento como novidade? Como pensar, ao mesmo tempo, a transformação e a descontinuidade? Por isso, Foucault deve encontrar um

equilíbrio entre o acontecimento como novidade e o acontecimento como

regularidade que não seja uma recaída nos velhos conceitos da "tradição'nem no novo conceito de "estruturai Ou seja, sem reintroduzir nenhuma instância de ordem transcendental. Trata-se, enfim, de pensar essa relaçáo assumindo a descontinuidade dessas regularidades, o acaso de suas transformaçoes, a materialidade de suas condições de existência

(OD,61). Para

isso, Foucault haverá de se servir dos conceitos de "luta'l "táticas'l "estratégias'l O termo "acon-

tecimento" adquire, então, um terceiro sentido: o acontecimento como relação de forças (em que se percebe a presença de Nietzsche). 'As forças que estão em jogo na história não obedecem nem a um destino nem a uma mecânica, mas antes, ao acaso da luta' (DE2, 148). As lutas, na história, levam-se a cabo através das práticas de que se dispoe, mas, nesse uso, elas se transformam para inserirem-se em novas táticas e estratégias da luta. Aqui, Foucault náo só se serve do conceito de luta, mas também atribui um sentido ao conceito de liberdade.

Todavia não como oposto à causalidade histórica, mas como experiência do limite (Yer: Liberdade,IuÍa). Nesse terceiro sentido, o conceito de acontecimento se entrelaça com o conceito de atualidade (Yer: Diagnosticar)."Dito de outra maneira, nós estamos atravessados por processos, movimentos, de forças; nós não os conhecemos, e o papel do filósofo é ser, sem àúuidu, o diagnosticador destas forças, de diagnosticar a realidade" (D83, 573). A partir daqui, aparece um quarto sentido do termo "acontecimento'] aquele que se encontranoverbo"évé-

nementialiser'l "acontecimentalizar'l como método de trabalho histórico. Resumindo, podemos distinguir, no total, quatro sentidos do termo "acontecimento": ruptura histórica, regularidade histórica, atualidade, trabalho de acontecimentalizaçao. Acontecimento

arqueológico. A mutação de uma episteme

a

outra

é

pensada como o acontecimento radical

que estabelece uma nova ordem do saber; desse acontecimento só é possível seguir os signos, os efeitos (o surgimento do homem como acontecimento epistêmico, por exemplo). Por isso, a arqueologia deve percorrer o acontecimento em sua disposição manifesta

(MC,229-230).

O acontecimento que produz a mutação de uma episteme é pensado em termos de abertura (MC,232).Nesse sentido, pode-se falar de acontecimento arqueológico (MC,307,318). Ver:

Episteme. Acontecimento discursivo. A arqueologia descreve os enunciados como acontecimentos (AS, 40). Foucault opõe a análise discursiva em termos de acontecimento às análises que descrevem o discursivo desde o ponto de vista da língua ou do sentido, da estrutura ou do sujeito. A descrição em termos de acontecimento, em lugar das condições gramaticais ou das condições de significação, leva em consideração as condições de existência que determinam a materialidade própria do enunciado (AS, 40, 137-138). Ocupamo-nos delas ACONTECIMENT O (Événe men t\

25

e Formaçao discursiva. História, série. A noção de acontecimencriação (OD, 56).'As noções fundamentais que se impõem agora [na descrição arqueológical não são mais aquelas da consciência e da continuidade (com os problemas que thes são correlatos, da liberdade e da causalidade), não são tampouco aquelas do

nos verbetes:

to

Enunciado

se opõe à noção de

signo e da estrutura; sáo o acontecimento e a série, com o jogo de noções que thes estão ligadas: regularidade, aleatoriedade, descontinuidade, dependência, transformação" (OD, 58-59). Discursivo - não discursivo. "Porém se se isola a instância do acontecimento enunciativo, com respeito à língua ou ao pensamento, não é para tratá-la, a ela mesma, como se fosse independente, solitária, soberana. Ao contrário, é para captar como tais enunciados, enquanto acontecimentos e em sua especif,cidade tão estranha, podem articular-se com acontecimentos que não são de natureza discursiva, mas que podem ser de ordem técnica, prática, econômica, social, política , eÍc.Fazer aparecer em sua pureza o espaço onde se dispersam os acontecimentos discursivos não é tentar estabelecê-lo como uma ruptura que nada poderia superar, não é

encerrá-lo nele mesmo, nem, com ainda mais razão, abri-lo a uma transcendência; ao contrário, é tomar a liberdade de descrever entre ele e os outros sistemas, exteriores com respeito a e1e, um jogo de relações. Essas relações devem estabelecer-se no campo dos acontecimentos, sem passar pela forma geral da língua nem pela consciência singular dos sujeitos falantes"

(DEr,707). História efetiva (wirkliche Historie). A história efetiva, como

a entende

Nietzsche, faz ressurgir o acontecimento (as relações de força) no que ele pode ter de único e agudo. Desse modo, opõe-se à história tradicional que o dissolve no movimento teleológico ou no encadeamento natural (DE2, 148). Deleuze. Foucault, em sua resenha de Logique du sel,s, ocupa-se da noção de acontecimento na obra de Deleuze.

Yer Deleuze. "Acontecimen-

talizaçíd' ("Evénementialisation"). Com esse neologismo, Foucault faz referência a uma forma de proceder na análise histórica que se caracteriza, emprimeiro lugar, por uma ruptura: fazer surgir a singularidade ali onde se está tentado fazer referência a uma constante histórica, a um caráter antropológico ou a uma evidência que se impõe mais ou menos a todos. Mostrar, por exemplo, que não há que tomar como evidente que os loucos sejam reconhecidos como doentes mentais. Em segundo lugar, caracteriza-se também por encontrar as conexões, os encontros, os apoios, os bloqueios, os jogos de força, as estratégias que permitiram formar, em um momento dado, o que depois se apresentará como evidente. Segundo Foucault, isso

implica uma multiplicação causal: 1) analisar os acontecimentos segundo os processos múltiplos que os constituem (por exemplo, no caso do presídio, os processos de penalização da clausura, a constituição de espaços pedagógicos fechados, o funcionamento da recompensa e da punição); 2) analisar o acontecimento como um polígono de inteligibilidade, sem que se possa definir de antemão o número de lados; 3) um polimorfismo crescente dos elementos que entram em relação, das relações descritas, dos domínios de referência (D84,24-25)."Há

já bastante tempo, os historiadores náo amam muito os acontecimentos e fazem da 'desacontecimentalizaçao'o princípio de inteligibilidade histórica. E o fazem referindo o objeto de sua análise a um mecanismo ou a uma estrutura, que deve ser o mais unitária possível, o mais necessária, o mais inevitável possível, enfim, o mais exterior possível à história. Um mecanismo econômico, uma estrutura antropológica, um processo demográfico como ponto culminante da análise. Eis aqui a história desacontecimentalizada. (Certamente, só indico e de maneira grosseira uma tendência.) É evidente que, com respeito

26

AcoNTEctMENTo (Évenement)

a esse

eixo de

análise, no que eu proponho, há demasiado e demasiado pouco. Demasiadas relações diferentes, derr-rasiadas linhas de análise. E, ao mesmo tempo, pouca necessidade unitária. Pletora do lado das inteligibilidades. Déficit do lado da necessidade. Porém, isso é para mim a aposta comum da análise histórica e da crítica política. Náo estamos e não tenros que nos situar sob o signo da necessidade única" (D84,25). Revolução, Iluminismo. A propósito da célebre resposta de Kant à questão "O que é o iluminismo?'l encontramos outro sentido do termo "acontecimento" nos textos de Foucault. Esse tem a ver com o que Kant

considera um signo "rememoratívurn, demonstrativunt, pronosticum", ou seja, um signo que mostre que as coisas sempre foram assim, acontecem tanbént atualmente assim e acontecerão sempre assim. Um signo com essas características é o que permite determinar se existe ou não um progresso na história da humanidade. Para Kant, o acontecimento da Revolução Francesa reúne essas condições. O que constitui o valor de acontecimento (de signo rememorativo, demonstrativo e prognóstico) não é a Revolução mesma, nem seu êxito ou seu fracasso, mas o entusiasrno pela revolução que, segundo Kant, põe de manifesto uma disposição moral da humanidade (D84, 684-685). Foucault estende essas considerações acerca da Revolução ao Iluminismo em geral, como acontecimento que inaugura a

Modernidade europeia. "O que e o iluminismo?" e'b que e a revolução?" são as duas questões que definem a interrogação filosófica kantiana acerca da atualidade. Se, com as Críticas, Kant fundou uma das linhas fundamentais da filosofia moderna, a analítica da verdade que pergunta pelas condições do conhecimento verdadeiro, com essas duas perguntas, Kant

se

inaugurou se

a outra grande tradição, a ontologia do presente, uma ontologia do presente que pergunta pela signif,caçâo filosófica da atualidade (DE4,686-637). "Não são os restos da

Auftkirung

que se deve preservar, é a questão mesma desse acontecimento e de seu senti-

do histórico (a questão da historicidade do pensamento universal) que é necessário ter presente e conservar no espirito como o que deve ser pensado" (D84, 687). Por isso, poderse-ia considerar como uma filosofia do acontecimento nâo só a arqueologia dos discursos, mas também a ontologia do presente, na qual o próprio Foucault se situa, isto é, a genealogia e a ética. Governo, Verdade. "Para dizer as coisas claramente. Meu problema é saber como os homens se governam (a si mesmos e aos outros) através da produção de verdade (repito-o uma vez mâis, por produção da verdade não entendo a produçáo de enunciados verdadeiros, mas o ajuste de domínios onde a prática do verdadeiro e do falso pode ser, ao mesmo tempo, regrada e pertinente). Acontecimentalizar (événementialiser) os conjuntos singulares de práticas, para fazê-Ios aparecer como regimes diferentes de

jurisdição

e

veridicidade, eis

aqui, em termos extremamente bárbaros, o que eu queria fazer. Vocês veem que não é nern uma história dos conhecimentos, nem uma análise da racionalidade crescente que domina nossa sociedade, nem uma antropologia das codificações que regem nosso comportamento sem que o saibamos. Eu queria, definitivamente, ressituar o regime de produçâo do verdadeiro e do falso no coração da análise histórica e da crítica política" (D8 4, 27). Éverrenent[593]:4S,36-37,40-41,44,83,133 134,137,140,143,159,\62-163,169,170,185,187,215,218,224,230-23t, 246.

DEl,85,

155,

i74 t76, t9t-]192, 199,202-203,2t3-2r4,235,248,258,265,277,284,286,352.

520,598,607,673,675,704

-170,

38r,424,430,456, 504,51 t,

707,768,770,793,796,798.D82,77,81-89,92,94,t48,226,237-238,213,273,275-278,283,292,295,

393,400,407,466,484, s03, ss l, s94-s9s,607,633,6s8,677,693-697,712,7t3-7ts,751.D83,10, 48, 80-82, 98-100. 1 16, 144- 145, 162,190,244,279-280, 302, 314, 385, ,t17,467 -468,480,481,524, s38,551,573 574,579,581,600,604,622,627,676,686,7]f',726,

ACONIECIMENTO (Évé ne me nt\

27

,- 15.746,783,788-789,807.Dr/.,23-24,37,76,80,112-113, r33,179,231,249,360,382,390,424,441,454,463,467,468-469,47t1;2,474,479,483,490-492,494,497,503,522,562-564,571 572,577,615,680-684,686-687,697,800-801, 803, 815. HF '9' 10'70, l, 604, 659. HS, 1 1, 23, 84, 128, 174' 175' 177 05, 108, 133, 2 10, 226,238,243,261,279 281,368,371,409,455,505,553,562,580-58

'

1

)vn,)03,212,214,244,255,286,301,308-3

t,

3

12, 346,

430,450-452,454,457 -458.

HSl,

86, 88.

HS2,

149.

HS3, 17,22,23,24,25,

-19, 32, 39, 44, 83, r23,225.1D5,7,20, 88, 141, 144,221. MC,95,141,166,229,230,232,249-251,255,259,261-262,264,274,

r9l-291. 30;,

i0, r33,

109,

1

RR,

1.1, 53,

3

18, 328, 333, 340, 3s6, 362, 382, 388, 398.

139, 147, 155, 157.

OD,

1

1,

MMPE,

17, 29.

MMPS,

27, 29, 88, 94.

NC, xI, XV 24,

28, 61,

85'97,104'

23, 28, 53, 56-60. PP, 12,35,49,222-233,237-241,245-246,248,256,262,292'318-320.

69, 72, 76, 109, 120. SP, 18,4s, 143, 190,218.

Événementialisation l8l: DEA

5,

10,

23, 25 -26, 30.

ÃMULATIO Uma das flguras da semelhança.Yer: Episteme renascentista. Aemulatio

[6 ] : DEl, 482, 484, 489;

MC,

3

4, 3 6, 40.

*. AFEM I NADO (Effem i n e)

Na Antiguidade, a linha de separação entre um homem

viril

e

um afeminado não coincide

com nossa oposição entre hétero e homossexualidade; tampouco se reduz à oposição entre e passiva. Marca, antes, uma diferença de atitude em relação aos pra-

homossexualidade ativa

zeres. Os signos do afeminado serão: a preguiça, a indolência, a recusa às atividades pesadas, o

gosto pelos perfumes, os adornos. "O que constitui, aos olhos dos gregos, a negatividade ética

por excelência não é evidentemente amar os dois sexos, tampouco preferir o próprio sexo ao outro, é ser passivo com respeito aos prazeres" (HS2, 99). Efféminé [ 9 ] : DE4,

3

1

3, s48. HS, 327 .

}lS2, 2r,

98-

99, 22

l. HS3, 22t, 233.

r. AGOSTINHO, Santo (3s4-430)

As referências de Foucault às obras de S. Agostinho articulam-se principalmente em

torno à ideia de carne e ao célebre livro XIV da Cidade de Deus. Agostinho nos oferece ali uma descrição do ato sexual como uma espécie de espasmo: o desejo apodera-se de todo o homem, sacode-o, sobressalta-o, mescla as paixoes da alma com os apetites carnais... Trata-se de uma transcrição da descrição já presente no Hortensio, de Cícero. Pois bem, Agostinho admite a possibilidade da existência de relações sexuais no Paraíso, ou seja, antes da queda, mas, aqui, não teria essa forma quase epiléptica. Sua forma atual, definida pelo caráter involuntário e excessivo do desejo, é uma consequência da queda

original,

do pecado

original. Segundo Agostinho,

esse

teria consistido na desobediên-

cia da vontade humana com respeito à vontade divina. O efeito dessa desobediência foi a desobediência interna do homem. Santo Agostinho denomina "libido" o princípio do 28

EMULATIO

movimento autônomo, desobediente, dos órgãos sexuais; desse modo, sua força, sua origem e seus efeitos se convertem no principal problema da vontade. O conceito de carne faz referência ao corpo conquistado pela libido. Posto que esse desejo, certamente não em sua dinâmica atual, provém de Deus, à diferença de Platão, nossa luta espiritual não consistirá em dirigir nosso olhar para o alto, mas para dentro, para baixo, a fim de decifrar os movimentos da alma (D84,174-177). Saint Augustin [47]:DFL,295. DE3,555. DE4,174-177,300,308, 389,394,563,614,619,793,805. HS,28,

180,

184, 315, 44i. HS2, 49, 155, 27 8, 280. HS3, 168.

S.

ALCIBIADES

Alcibiades I, o diálogo que a Antiguidade não tem dúvidas quanto

O é

a

atribuí-lo

a Platão,

considerado por Foucault como o ponto de partida da tradição da epiméleia heautoú, do

cuidado de si mesmo, a primeira grande emergência teórica do cuidado (HS, 46). Nele, a questão do cuidado de si mesmo aparece em relação com outras três: a política, a pedagogia e o conhecimento de si (DE4,213-218,355, 789). O curso no Collàge de France dos anos 19811982,

L'herméneutique du sujet, está amplamente dedicado

ao

Alcibiades. Após anaiisar esse

diálogo (HS, p. 27-77), Foucault se ocupa da evolução do tema do cuidado de si mesmo até o helenismo.

Yer Cuidado.

Alcibiade [339]: AN,

25;

DEl,

414; DE4. 177,213,329, -355'357, 385, 390, 398, 407, 552,615,

71

3, 721,786,789-

792,795-796_I{S, 10,27 ,32-43,45-46, 49-50, 52-54,57 -58,62-67 ,69-7 \,73,7s-77 ,79-81 ,84, 86, 88, 90

9

r, 93, l 04, 108,

I 14. 123, 156, 163-169,179-180,182, 191, 197-198,212,215,237,244,256,330-331,395,397,400-401,414,421,42e-430,

435-437,438,441, 454. HS2, 27,53,81,85, 102, 208, 264-265,283. HS3, 58-59, 251,259' 278.

*. ALIENAç AO (Al ienation)

No verbete Loucura, ocupamo-nos largamente do conceito de alienação em Foucault. Em linhas gerais, Foucault passa de uma concepção, na qual se combinam

histórico, sociológico

e

e se

confundern os registros

psicológico, para uma concepção mais complexa, mas mais estrllturada,

com base nas práticas de saber

e

poder. Desse modo, em Maladie mentale et personalité, aalie-

nação aparece como um produto das alienaçôes históricas da sociedade. No entanÍo, em

Histoire

de lafolie, a alienação mental é produto das práticas que alienam não o espírito, a mente, mas

a

pessoa, a liberdade daqueles que sáo reconhecidos como doentes mentais. Nesse sentido, a raiz da doença mental não é a alienação, mas a discriminação histórica entre o normal e o patológico

que constrói as formas de alienação: "Náo há verdade para a psicologia que náo seja, ao mesmo tempo, alienação para o homeni'(HF, 548). Yer; Loucura, Psiquiatria. Aliénation [217]: AN,45,100. 56, 59.

DEl,

93,

125, 128, 130-132, 134, 136, 1,18, 154, 1s6,260.266,271,285-287,291

tt9, 195,232,270, 480, 54 1, 657, 825 .D82,213,359,445,807 ,821,824. DE3,

451, 453, 472, 808. DE4, 52, 62,74, 186,226,500-501, 5l 7, 594, 665.

HF, I l2-

1I

1

7

292,301. AS,

I, 308, 337, 445 446, 448,

3, I 15- l 16, 139, l4l,145, 147, 152, 158,

166.168,171 178,r82,184 185,211,269,281,297,307.333,380,44]1,4O.,165,171-474,486

488.490491,494,539,5,]J.

ALIENAçÂO (Alienation)

29

5+, r18,55+,559,564,566,570,575,579,584,588,590-591,595-597,599-600,606,610,612-614,623,626,631,651 654. IDS, i6. IÍC, 273,27s,325,388. MMPE, 16,76,77,80 83, r02-108. MMPS, 15,89. NC,40. PP, 18,31,37-38, 100-101, 109-110,rr8-119k,120-122,139-140,166-168,189,192 193,195,210,212,223-224,254,263265,280,291-295,329.

:=. ALTHUSSER,

Louis (1918

1990)

A diferença de Althusser, Foucault não afirma nenhuma ruptura epistemológica a propósito de Marx (DEl, 587).* Interrogado acerca da categoria de estruturalismo, Foucault separa-se de Althusser afirmando que, enquanto esse busca o sistema em relação com a ideologia, ele, por sua vez, busca-o em relação com o conhecimento (DEl, 653). Há poucas coisas em comum entre os chamados estruturalistas (o próprio Foucault, Althusser, * Lacan, Lévi-strauss) (DEl, 653, 665). Althusser liberou o marxismo de seu componente * humanista (D82,272). Têm em comum (Althusser, Lacan e Foucault) problematizar a filosofia do sujeito (D84,52). Louis Althusser [52J: AS 429, 590, 609. DE4,

11.

5

1

12.

-s3, 65-66,

7

DEr,

5

16, 587, 653, 658, 665, 8 I 3.

DE2, 170,272,406,621,736,772.DF3,33'34,313,

4, s29. PP, 20.

AMICITIA

Uma das figuras da semelhança.Yer Episteme renascentista. Amicitia [3]: DEf ,480. HS,

12.

160.

MC,32.

ANACHÓnrStS

O

Alcibiades 1, atribuído a Platão, é considerado por Foucault como a primeira grande

emergência teórica do cuidado de si mesmo. Esse texto se inscreve, no entanto, em uma velha

tradição de práticas de si mesmo, de exercícios do sujeito sobre si mesmo. Entre essas, encontramos o "retiro ] a anachóresis. O termo " anachóresis" tem dois sentidos na linguagem corrente: a retirada do exército diante do

inimigo e a fuga de um escravo que deixa a chóra (HS, 204);

mas, no contexto das práticas de si mesmo, significa um ausentar-se do mundo no qual alguém se

encontra imerso, interromper o contato com o mundo exterior, não sentir sensações, não

preocupar com o que passa

à nossa

volta, fazer como se não

se

se

visse o que acontece. Uma ausência

visível aos outros (HS, 47). * Reelaborada filosoficamente, a encontramos no Fédon de Platão

(HS, 49). * Marco Aurélio (Pensamentos, IV 3) consagra uma extensa passagem à descrição dessa técnica (HS3, 66; HS, 50). x A escritura de si mesmo aparece nos textos da Antiguidade como uma técnica complementar da anachóresls (DE4, 416). Ver: Hypomnémafa. * A ascese partir do desenvolvimento do cenobitismo, levou a cabo uma forte crítica do que pode haver de individualista na prática do anacoretismo (HS3, 57). cristã, especialmente

30

a

AITHUSSER, Iouis

Anachoràse [5]: DE4, 416. HS, 47, 50. HS3, 57, 66. Anakhôrêsis

I

I 3 ] : DE 4, 362, 7 99. HS, 47, 49-50, 88, 97, 204, 256.

:3. ANALíTICA DA FINITUDE

(Analytique de la finitude)

A analítica da finitude, junto com as Ciências Humanas, define

a

disposição antropológica

da episteme moderna. Yer: Homem. Analytique de la finituile [15]: MC,

323, 326,328-329,349, 350, 362,365,373,384-385,393.

i4 ANALOGlA (Ana|ogie) Figura de semelhança. Yer: Episteme renascentista.

Analogia [1]:D81,489. Analogie [196]: AN,4l, 121,288. AS, 18,68,88, 187, 190. DEl, 188,241,257,282,345,358,363-365,368-369,373, 390,397,407,484-485,488,491,492,494,566,594,63t',644,649,749,752,769-770,807,

375-376,378-379,381-382,388

840,846.D82,39,41,17t,439-440,643.D83,166,169,439,468.D84,64,416,435,47t472,474,484,755,810811. IJF,279,306,348,421,641. If9,93,179,256, 441. HS2, t91.,232,236.H53,27 -29,31-32,45, t32-t33,274. IDS, 1 i, 14, 88. MC, 36, 37 , 40, 42-44, 46, 52-53, 63, ).2t-122, 130, 70, t77 ,2t4, 230, 247 ,284,392. NC, XIII, 5-6, 9 1, 99- 101, 133, 1

135, 144, 1 51, 210. PP,

:

27

6, 284, 294-295, 334. RR, 1 10, r 75. SP, 32, 89, 106, 166.

: ANIMALIDADE

(Animalite)

Os bestiários medievais eram bestiários morais (os animais expressavam simbolicamente os valores da humanidade); durante o Renascimento, no entanto, as relações

Loucura.

entre a animalidade e a humanidade se inverteram (os animais fantásticos representaYam os segredos da natureza do homem). O classicismo, por sua yez, mostrou um pudor extremo ante

inumano (justificando

prática da clausura), exceto a respeito da loucura. No asilo encontramos assim a desrazão que se oculta, e a loucura que se mostra, adquire a f,gura do monstruoso. É, mais precisamente, sua violência o que foi objeto de espetáculo. Ela é encerrada a todo o

a

em razão de sua periculosidade social; no entanto,

é

mostrada pela liberdade animal que ela

manifesta. Com efeito, na sem-razão, essa animalidade não será a manifestação do diabólico, nem das potências infernais; mas da relação imediata do homem com sua animalidade

(HF, 198-199).

Os animais impossíveis, que surgem da imaginação da loucura, revelarão ao homem os segredos de sua natureza (HF, 36-37). * Sem perseguir a finalidade de castigar ou de corrigir, os loucos, cuja violência animal era difícil de dominar, foram objeto de práticas

extremas de sujeiçáo (atados aos muros, às camas, grilhões nas pernas, nos pulsos, pescoço, etc.). Através dessa violência sem medida, a imagem da animalidade atormenta o mundo do asilo. Posteriormente, em uma perspectiva evolucionista, essa animalidade será considerada ANIMALIDAOE (Animalite)

31

como a essência da enfermidade; porém, para a época clássica, ao contrário, é signo de que o louco não está doente. A animalidade, com efeito, protege-o das debilidades que provoca a loucura. Essa animalidade feroz exigia ser domada, domesticada. Através da animalidade, a loucura não encontrará as leis danatureza,mas as mil formas de um bestiário em que o mal já não tem lugar. Entre a experiência da animalidade como manifestação das potências do mal

e

nossa

experiência positiva, evolucionista, situa-se a experiência clássica, uma experiência negativa da

animalidade. Na loucura, com efeito, a relação com a animalidade suprime a natureza humana (HF , 197 -212). * Por volta do final do século XVIII, a tranquilidade do animal constitui uma característica própria da bondade da natureza. Agora, será afastando-se da vida imediata do - isto é, com o surgimento do meio - que surge a possibilidade da loucura. O meio

animal

desempenhará agora o papel que antes desempenhara a animalidade (HF, 465-467). * A lenda do encontro entre Pinel e Couthon conta a história de uma purificação: o louco purificado de sua animalidade violenta e selvagem; cabe-lhe agora uma animalidade dócil, que não responde violentamente à coerção e ao adestramento (HF, 592-593). Biologia. Para o saber da vida do século XIX, a animalidade representa noyos poderes fantásticos. Nela se percebe melhor

o enigma da vida (MC,289-291).

Politicidade.

milênios foi, como para Aristóteles, um animal e, além disso, capaz de uma existência política. O homem moderno, no entanto, é um animal, em cuja vida política sua própria animalidade é objeto de questionamento (HSl, 188). Ver também: Biologia, Biopoder. O homem durante

Animalité [66]: Al{,283.DEt,234.D82,17.H.F,36-37,197-209,212,256,465,467,475,529,543,552,592-594,603,609, 6,10.

HS3, 247. MC,

120,

289 290. RR, 90.

:+ ANOMALIA(Anoma\ie) Alienação. A patologia clássica sustenta que primeiro é o anormal em estado puro: o anormal cristaliza ao seu redor condutas patológicas que constituem a doença mental, e a aiteração da personalidade que dela se segue produz a alienação mental. Segundo à análise de Maladie mentale et personnalité,haveriaqne inverter os termos: partir da alienação para

definir em último lugar o anormal (MMPE, 103, 105). Genealogia do anormal. o campo da anomalia, tal como funciona no século XIX, foi constituído a partir de três elementos, ou melhor, de três figuras que pouco a pouco o dominaram: o monstro humano, o indivíduo a corrigir e o masturbador. * O lugar de aparecimento do monstro é o jurídico-biológico; ele representa, com efeito, uma violação das leis dos homens e da natureza. uma figura ambígua: transgride a lei, mas não se pode responder à sua violência por meio da lei; surge a partir das

leis da natureza, mas se manifesta como uma contranatureza. A monstruosidade representa o desdobramento, mediante o jogo da natureza, de todas as irreguiaridades possíveis. Nesse sentido, o monstro se apresenta como o princípio de inteligibilidade de toda anomalia possivel; e necessário buscar o que há de monstruoso mesmo nas pequenas irregularidades. O anormal será um monstro cotidiano, pálido, banalizado. * O espaço do indivíduo a corrigir é

muito mais restrito do que o do monstro: não é a lei e a natureza, mas simplesmente a família e as instituiçoes vinculadas a ela (a escola, a paróquia, o bairro, a rua). Mas é muito mais 32

ANOMALIA \Anomaiie)

frequente. É também uma figura ambígua. Com efeito, o indivíduo a corrigir aparece como tal na medida em que é incorrigível, na medida em que a família e as instituições, com suas regras e métodos, fracassaram. O anormal será não apenas um monstro empalidecido, mas também um incorrigível que terá de ser colocado em um meio de correção apropriado. * O espaço do masturbador é ainda mais restrito: o quarto; mas sua frequência é muito maior, quase universal (um segredo que todos compartilham, mas ninguém comunica). Na patologia

do século XVIII, a masturbação representará um princípio de explicação quase universal; toda

enfermidade terá uma etiologia sexual. "O indivíduo anormal do século XIX estará marcado - e muito tardiamente, na prática médica, na prática judicial, no saber e nas instituições que o rodeiam

- por

essa espécie de

monstruosidade cada vez mais diminuída e diáfana, por

incorrigibilidade retificável e cadavez mais rodeada de aparatos de retificação. E, enfim, marcado por esse segredo comum e singular, que é a etiologia geral e universal das piores singularidades. Consequentemente, a genealogia do indivíduo normal nos remete a estas três figuras: o monstro, o incorrigível, o onanista" (AN, 56). Sexualidade e psiquiatria. Com base na figura do monstro, o campo do anormal, tal como vai sendo configurado na psiquiatria essa

do século XIX, estará dominado pela noção de instinto. Esse mesmo campo se encontrará atravessado pela sexualidade, pela natureza sexual do instinto. Por um lado, porque serão aplicadas a esse campo as noções provenientes dos fenômenos da herança e da degeneração. Por outro, porque, nesse campo, prontamente se estabelecerão as desordens de caráter sexual.

Entre 1880 e 1890,

a

sexualidade aparecerá como o princípio etiológico de toda anomalia (AN,

155-156).Asaulas delge26defevereiro delgT5deLesanormauxestâodedicadasaomodo como o tema da sexualidade ingressa no campo da psiquiatria: partindo da prática cristã da conflssão, ou seja, do surgimento do corpo do prazer e do desejo nas práticas penitenciais,

* até a medicalização das conulsões como modelo neurológico da doença mental. Por esse caminho, abre-se a possibilidade de incorporar a problemática da masturbação como objeto da psiquiatria e, contemporaneamente, da medicalização da família e do surgimento da família celular. O nexo entre anomalia e instinto aparecerá precocemente, na infância. 'A' psiquiatria,

tal como eu a descrevi, passou de uma análise da doença mental como delírio à análise da * anomalia como desordem do instinto" (AN, 208). "O indivíduo'anormall do qual, desde o final do século XIX, tantas instituições, discursos e saberes se encarregaram, deriva tanto da exceção jurídico-natural do monstro, da multidão de incorrigíveis dos institutos de correção, quanto do universal segredo das sexualidades infantis. Na verdade, as três figuras do monstro, do incorrigível e do onanista não vão exatamente se confundir. Cada uma se inscreverá em sistemas autônomos de referência científica. 1) O monstro, em uma teratologia e uma embriologia que encontraram, em Geofrroy Saint-Hilaire, sua primeira grande coerência científica; o incorrigível, em uma psicopatologia das sensações, da motricidade e das aptidões; o onanista, em uma teoria da sexualidade que se elabora lentamente a partir d a Psychopathia sexualis de Kaan. Mas a especificidade dessas referências não deve deixar esquecer três fenômenos essenciais, que em parte a anulam ou, pelo menos, a modificam: a construção de uma teoria geral da degeneração que, baseando-se no livro de Morel (ver: Degeneraçao),var servir, durante mais de meio século, ao mesmo tempo, de marco teórico e de justificação social e moral, para todas

interr.enção sobre os anormais; a organizaçào de uma rede institucional complexa que, nos confinamentos da medicina e da justiça, serve as técnicas de localização, de classiflcação e de

ANOMALIA (Anomalie)

JJ

tanto de estrutura de 'recepção' para os anormais como de instrumento para a defesa da sociedade; finalmente, o movimento pelo qual o elemento que aparece mais recentemente na história (o problema da sexualidade infantil) vai recobrir os outros dois, para converter-se, no século XIX, no princípio de explicação mais fecundo de todas as anomalias" (D82, 827 -828). Yer : D egeneraçao,

Norma.

Anomalie I75l: AN, 23,51,52,53,55-58, 68,70,97,101,122,15i, 296,298. AS, 56. DE2, i09, 131, 446,814. DE3, 49, 161,257 , 437, 441, MMPE,56. MMPS,56. PP,

':?.

155-156, 180-181,208, 265-266,290 291,293, 495, 624. DEA, 82,772,774. HS, 32s.

IDS,

5.

116, 124, 199,208,218-221,274,292.5P,25,258-259,304,307.

ANORM AL(Anormal)

Yer: Anomalia. Anormal 1rI6l: AN, 38-39,52-56,85,

101-102,

t22 124,127,155,239,249,258,265,275'283,290'294'300,307'

309310.AS,57,188.D81,122,150,624.D82,233,396,417,454,539,823,825,827.D83,50,374,378.DE4,38i,532. HF. 123, t74.322.lts,51,10. HS2,44. IDS,228. MMPE,56,68,75, 103, 10s. MMPS, s6,68,7s. NC, \02'1s7't96.PP' 57, 83, r l5- 1 16, 124, 188, 208, 218-220. sP, 28, 104, 185, 20r, 217, 307,

: s"

3ll.

ANTIGU IDADE (Antiq u ite)

Até a Histoire de la sexualifé, Foucault se havia ocupado fundamentalmente do que ele denomina "época clássica" e da "Modernidade'l em outros termos, do período que vai de Descartes até nós. A expressão "época clássical com efeito, como no título de Histoire de la folie, não fazia refeftrcia, como para nós, à Antiguidade grega, mas aos séculos XVII e XVIII. A partir de Histoire de la sexualifé, Foucault vai dirigir seu olhar para a Antiguidade. No começo de llusage des plaisirs, explica essa mudança dizendo que, após ter se ocupado dos

jogos de verdade nas ciências empíricas dos séculos XVII e XVIII, dos jogos de verdade nas relações de poder (nas práticas punitivas), era necessário ocupar-se dos jogos de verdade na relação do sujeito consigo mesmo, na constituição de si mesmo como sujeito, do que se poderia

denominar uma "história do homem de desejo'l Essa genealogia exigia dirigir a análise para a Antiguidade clássica (HS2, 12). Aqui se situam os dois últimos tomos de Histoire de la

sexualité

eo

curso dos anos 1981-1982, I-iHerméneutique du sujet.* Segundo tais declara-

çôes de Foucault, seu interesse pelos antigos seria fundamentalmente um interesse ético, ou seja, pela problemática da constituição de si mesmo. E, com efeito, esse é o domínio em que se

movem os textos citados anteriormente. No entanto, mais amplamente, podemos dizer que

Foucault não só se interessa pela ética dos antigos, mas também pela sua política(pelo Político de Platão, por exemplo). Não só pelas relações do sujeito consigo mesmo, mas também com os outros. Nesse sentido, seria a questão do'governo'l de si e dos outros (ética e política), o

elxo em torno do qual se articula o interesse de Foucault pela Antiguidade clássica, helenista e romana. * Porem não se trata de nostalgia histórica: "Tentar repensar os gregos hoje não consiste em fazer valer a moral grega como o domínio moral por excelência, do qual se teria

34

ANORMAI- \Anormal)

necessidade para pensar-se a si mesmo, mas em fazer demodo tal que o pensamento europeu partir do pensamento grego como experiência uma vez dada a respeito da qual se pode ser totalmente livre" (D84, 702).

po§§a recomeçar a

Antiquité [220]: AN, 64, 70, 1 90. DEl, 85, 295 296,307,497 . DE2,220,222,52t, A10-8 1 1. DE3, 69, 162,278.394, 5t5,538,558,,560,563,635. DE4, 116, 128, 139, 143, 160,291,308,312,328,353,385,396,402,404,407,440,462,478, 486,511,544-547,551-553,559-560,584,610,615,622-623,625,628,650,653_654,657,660,668

673,681,698,699,70t_

702.705 706,712,731 733,744,759, r-86,789,792,803,81.1. HF, 198, 261,396,403,108. HS,4, l8-19,60, 98, l2t, 139. 1 4 l , 1 65, r 75, 1 83, 196, 200, 208 ,2t2,235,240,246,280-281,296,299, 305, 3 1 3, 325, 3 27,338,340,346 347, 373, 383, 390,

4t6-417,445. HS2,12-13, r5, 17, 18,20-21.26,28,29,37.38,95, 106, tr5,166,216, 220,274.HS3, 16,36,48,163, 222,271.IDS, 6, 58, 59-60, 62, 65-66, 156. MC, 48. MMPE, 76. NC, 88, 125. OD, 34. pp, 257, 261. Sp, 218.

181,

:e ANTIPSIQUIATRIA (Antipsychiatrie) Apesar de Foucault desconhecer a existência do movimento da antipsiquiatria, durante

a

composição de Hístoire de la J'olíe, essa obra Íbi vinculada ao movimento (D82,522). O movimento antipsiquiátrico, na Inglaterra e nos Estados Unidos (T. S. Szasz), foi por ele abraçado

utilizado em seus trabalhos (DF.2,523). * O curso dos anos 1973-1974 no Collêge de France (cujo resumo encontra-se em DE2, 675-686), esteve dedicado ao poder psiquiátrico). Em te PoLtvoir psychiatrique, Foucault aborda a questão da antipsiquiatria e da despsiquiatrização. O que caracteriza a antipsiquiatria, à diferença da despsiquiatrizaçâo (ver o verbete), é a luta contra a instituição asilar e as íormas de poder na relação médico-paciente. Esquirol dava e

cinco razões para

livrar

a

existência do asilo: promover a segurança pessoal do enfermo e da famíiia,

os enfermos das influências externas, vencer suas resistências pessoais, submetê-los a

urn regime médico, impor-lhes novos hábitos intelectuais e morais. "Vê-se que tudo é questão de poder,

dominar o poder do louco, neutralizar os poderes exteriores que possam exercer-se

sobre ele, estabelecer sobre ele um poder terapêutico e um endireitar de brtopedial Pois bem,

é

a instituição (como lugar, fonna de distribuição e mecanismo destas relações de poder) o que

a

antipsiquiatria ataci' (DF-2,684). * É necessário prestar atenção

a

que

a

oposição da antipsiquiatria

ao asilo não acabe sendo uma multiplicação da psiquiatria fora do asílo Antipsychiatrie [55]:DEl,77 1.DE2,209,232,433,522

(D82,232).

523, 640, ó8 l, 683- 686,773,776.D83,52,76,162.,1 68, 235, 330,

332,337,314,348,377,4'14,633,808.D84,22,45,46,58,60-61,81,386,536,537.IDS,7,12.PP,15,18,137,253,265.

2a ANTISSEMITISMO

(Antisem itisme)

O antigo antissemitismo de caráter religioso foi utilizado pelo racismo de Estado somente

partir do século XIX; desde o momento em que aprreza da raça e sua integridade se converteram em uma questão de Estado (IDS,76-77). Foucault situa esse momento como uma a

etapa no desenvolvimento da noção de guerra de raças que analisa em

"Il faut défendre la

société". Yer Biopoder, Guerra. Antisémitisme

I I 6] :

DE3, 280, 325, 502, 7 53. DE4, I I 5. lDS,

7 s -7 7

.

ANÍlSSEMlTlSMO (Anti

sém i

tisme)

2e

?i. ANTROPOLOG lA (Anth ropol og i e)

Foucault apresentou retrospectivamente seu trabalho como uma análise histórica dos diferentes

modos de subjetivação (D84,222-223). Nesse sentido, o sujeito foi o eixo de todo seu percurso histórico-f,losófico. No entanto, tal projeto não constitui, de nenhuma maneira, uma antropologia,

nem no sentido filosófico nem no sentido das Ciências Humanas. Desde a extensa introdução edição francesa da obra de L. Binswanger,

I

e rêve et

à

et les choses e as obras

lbxistence,aÍé Les mots

posteriores, pode-se descobrir seu progressivo afastamento da antropologia, tal como era praticada

no contexto intelectual onde se formou Foucault. A via real da antropologia. "Na antropologia contemporânea, a obra de Binswanger nos parece seguir a üa real. Ele tomou de viés' o problema da ontologia e da antropologia, indo diretamente à existência concreta, seus desenvolvimentos e seus conteúdos históricos" (DEl,67).Binswangervai evem das formas antropológicas às condições ontológicas da existência. Não

se

trata, contudo, de uma aplicação dos métodos da filosofia da análise

existencial (Heidegger) aos dados da experiência, nesse caso, clínica; mas de alcançar o ponto em que se articulam as formas e as condições da existência, ou seja, o indivíduo. Desse modo, a antropologia de Binswanger eüta uma distinção a priori entre ontologia e antropologia ou dividir esta em filosofia e psicologia. Além dessa atração pelo texto e pelo procedimento de Binswanger, Foucault promete uma obra posterior na qual situaria a análise existencial no desenvolvimento da reflexão contemporânea sobre o homem. Nela, mostraria a inflexão da fenomenologia sobre a antropologia, os fundamentos propostos à reflexão concreta sobre o homem. Uma antropologia que se opõe a todo positivismo psicológico e a situa em um contexto ontológico (DEf , 65-66). Essa obra nunca veio à luz. O sonho antropológico. 'A antropologia constitui, Íalvez, a disposição fundamental que dirige que

a

e

conduz o pensamento filosóÊco desde Kant até nós" (MC, 353). Desde o momento em

representação perdeu o poder de determinar por si só o jogo da aniílise

e da síntese,

isto

é,

com

o desaparecimento da episteme clássica, a antropologia, como analítica da finitude, converteu-se nessa disposição fundamental. Apareceu, assim, essa forma de reflexão mista, em que os conteúdos

empíricos (do homem vivente, trabalhador até a presunção do transcendental. Nessa

e

falante) são subsumidos em um discurso que se eleva

Dobra do empírico

e

do transcendental,

a

filosofia entrou

no sonho antropológico: todo conhecimento empírico, se concerne ao homem, vale como campo filosófico possível, em que se pode descobrir o fundamento do conhecimento, a definição de seus

limites

ea

verdade (MC, 352). Essa dobra delimita o terreno em que germinaram as Ciências Hu-

manas (psicologia, sociologia, aniílise dos mitos e da literatura). O surgimento das Contraciências Humanas (a etnologia,

a

psicanálise, a linguística) nos anuncia que o homem está por desaparecer.

Mas Foucault vê, sobretudo em Nietzsche, o primeiro esforço para desenraizar o pensamento da antropologia, para despertar o pensamento de seu sonho antropológico. "Nietzsche encontrou o ponto em que o homem

e

Deus

se

do desaparecimento do primeiro,

pertencem mutuamente, em que

a

morte do segundo

é

sinônima

e onde a promessa do super-homem significa, primeiramente

antes de tudo, a iminência da morte do

homem' (MC, 353). Filosofia da história

A diferença das filosoÍias da história,

descrição arqueológica dos enunciados

a

se

e

e

arqueologia.

propõe multiplicar

na análise as instâncias da diferença, da multiplicidade, da descontinuidade. Não se trata, para ela, de recorrer a um sujeito único (a consciência, a razâo, a humanidade) como suporte de uma

história contínua, na qual o passado encontra no presente a sua verdade, e na qual esse, em forma de promessa, antecipa

36

um futuro mais pleno. Antes, o contrário: multiplicar as rupturas, evitar

ANTROPOLOGIA (Anthropologie\

as

visadas retrospectivas, renunciar à pletora do sentido ou à tirania do signiÍrcante. Nesse sentido, a

arqueologia rompe com essa solidariedade constitutiva entre antropologia e filosofia da história. "Na medida em que se trata de definir um método de análise histórica que esteja liberado do tema antropológico, vemos que a teoria que esboçaremos agora lemlhrchéologie du savoirl se encontra em uma dupla relação com as investigações anteriores. Ela trata de formular, em termos gerais (e não sem muitas retificaçoes, não sem muitas elaborações), os instrumentos que essas investigações

utilizaram enquanto se

se

encaminhavam ou forjaram segundo

as necessidades. Mas,

por outro lado, ela

fortalece com os resultados obtidos então para definir um método de anrílise que esteja puriÍrcado

de todo antropologismo" (AS, 26). Ver também'.

Homem,Ilumanismo, Sujeito.

Anthropologie [140]: AN,26,49,70,95-96,143,153. A5,22,26,

182.

DEl, 65 68, 87, 96,

105, 109, 1 13, 1 17, 1 19,

,452,541,553,608,821.D82,220. DE3, 80, 96, 144,208,454-4s5,457 ,458 459, 60, 102. HS3, 283. IDS, 174, 235. 461-462,579,622.D84,27,58,170,184,579,729.}IF,203,307,412,440,646,652.}l5,

t36,239,248,288-293,436,439,446-447

MC, 15,238,261, 269,271,273-27s,350-353,388,390.

MMPE,89. MMPS,

101.

PP,218, 294,326-327.5P,24.

;}.. APHRODíSIA

Ética. Em grande medida, os segundo e terceiro volumes da Histoire de la sexualité estão dedicados ao tema dos aphrodísia; partiaiarmente o segundo volume, cujo título, O uso dos prazeres, tradtz a expressão grega chrêsis aphrodisiôn. Trata-se de um adjetivo substantivado que os latinos traduziram pot "venerea" e que o Suda propõe como significado para as 'toisas" ou os "atos de Afrodite" (atos queridos pela natureza, aos que associa um prazer intenso e aos que conduz por uma força sempre suscetível de excesso e revolta)

(HS2, 105). * À diferença da noção cristã de'tarne"

moderna noção de "sexualidade'l os aphrodísia não foram objeto nem de classificação nem de deciframento. A problematizaçáo etica dos aphrodísia ou, para utilizar o vocabulário foucaultiano, a modalidade em que se converteram em substância ética, responde a uma forma de interrogação diferente da e da

cristã e da moderna. Por um lado, mais do que a morfologia do ato, o que está em primeiro plano é a sua dinâmica, isto é, a sequência desejo-ato-prazer, que liga esses três elementos de modo tal que formem um conjunto inseparável. A interrogaçáo cristã e moderna, por sua yez, estruturou-se baseando-se na sua separação (entre ato eprazeL entre desejo eprazer). Por outro lado, quanto ao objeto de interrogação ética, a problematização dos gregos se articula em torno de duas questões: a quantidade e a polaridade; com relação à quantidade, a

intensidade dos atos e sua frequência. Desse modo, os aphrodísia caem dentro do campo

da virtude da continência e do vício da incontinência. Quanto à polaridade, isto é, quanto aos papéis ativo ou passivo que podem ser desempenhados nas relações sexuais, a preocupação dos gregos passa por certo isomorfismo com a situação que, "por natureza', se ocupa na sociedade: a atividade é própria do homem e, mais ainda, do cidadão; a passividade, por

própria das mulheres e dos escravos. Novamente, à diferença da noção moderna, não nos encontramos aqui com a sexualidade concebida como algo comum a homens e mulheres. * Na classificação dos prazeres, os aphrodísia aparecem como inferiores. Essa sua vez, é

inferioridade, no entanto, à diferença da noção cristã de carne, não depende do estado de natureza caída, do pecado das origens, mas do fato de que são prazeres comuns ao homem APHRODiSIA

27

e ao

animal. Porém, apesar dessa inferioridade, a intensidade do desejo sexual, pelo qual

a

natureza assegura a continuidade da espécie, faz deles uma preocupação ética maior. Nesse sentido, desde o ponto de vista dos prazeres, a analogia entre os aphrodísia e os prazeres da mesa (a bebida e a comida) foi uma das constantes do pensamento grego. * Brevemente, a

interrogação ética dos gregos acerca dos aphrodísla se resume à pergunta: como usá-los? Não se trata, pois, de uma problematização do desejo ou do prazer, mas do exercício, da chrêsis. Nessa perspectiva, encontramo-nos com três âmbitos fundamentais de preocupação:

com relação à saúde, a dietética; com relação à casa (oikos), a econômica; e flnalmente com relação à pederastia, a erótica (H52,47-62). Helenismo. Enquanto, como dissemos, no segundo volume da Histoire de la sexualitá, Foucault aborda a questão dos aphrodísia nos

autores clássicos e em relação ao conceito de chrêsis, no terceiro, Le souci de soi, estende o período de análise e se situa na perspectiva do "cuidado", epiméleia. A análise começa por A chave dos sonhos, de Artemidoro, e se estende até Sêneca, Galeno, Epiteto, Plutarco e Marco Aurélio, ou seja, até o helenismo. Ainda que a problematização moral da experiência dos aphrodísiapermaneça dentro do marco definido na época clássica, encontramos, no entanto,

modificações significativas: uma preocupação maior pela conduta sexual (os médicos, atentos aos efeitos da prática sexual, recomendam a abstinência e declaram

preferir

a

virgindade ao

uso dos prazeres), maior importância conferida ao matrimônio (os filósofos condenam toda relação que pudesse ter lugar fora do matrimônio e prescrevem uma fidelidade mais rigorosa

entre os esposos), menor valor conferido ao amor aos mancebos, até alcançar sua desqualificação doutrinal. Em poucas palavras, um estilo mais rigoroso em que se modifica a maneira de definir a relação entre o sujeito e sua atividade sexual (HS3, 50,269). Os autores cristãos

moral sexual do helenismo. * Foucault aborda a questão dos aphrodísia nessa cultura do cuidado de si mesmo (novo contexto político marcado pela crise da pólis clássica e o aparecimento de uma nova forma de individualismo) com relação se apropriaram amplamente da

ao corpo, à esposa e aos mancebos.

Cristianismo.

Como vemos, a continuidade dos códigos

éticos da conduta sexual entre a Antiguidade e o cristianismo (HS2, 21 e ss.) é somente uma

continuidade relativa. Na moral cristã, a problematizaçào da carne já nào será uma questão de "uso'l mas de deciframento dos arcanos do desejo, pelas formas e funções de um conjunto de atos cuidadosamente definidos (HS2, 106), dando lugar assim a uma hermenêutica do desejo e a uma hermenêutica do si mesmo. Yer Carne, Sexualidade. Aphrodisia[143]:DF.4,21.5-216,218,302,394,397-399,481.,487,619,621,661662.HS,4,21,41.HS2,41,43, 44-45,47-59,61,63,67,77,79,92,105-106,112,

tts,t23-r24,126-127,t30,133-135,142 143,153,156,236,242,251,

257,264,274-275.}I53,15,42,49,53,127,129,132-133,139,146,

148, 151-152, 154, 156, 158, 162 164,168,197,199,

201 -202, 206, 210, 214, 216, 222, 229 -230, 233, 237 -238, 242, 245, 253, 261.

r:. ARENDT, Hannah

(1906-197s)

Nos textos publicados até o momentol, encontramos uma única referência do próprio Foucault a Hannah Arendt; as outras aparecem em perguntas que the foram formuladas. Nessa Da publicação em castelhano,2004. (N.T.).

3

8

ARENDT, Hannah

única referência, precisamente respondendo a uma pergunta, Foucault assinala que não se pode tazer, diferentemente de Arendt, uma distinçâo taxativa entre "relação de dominaçâo" e "relação de poder" (DE4, 589). Hannah Arendt [5/: DE4, 588-589.

:.; ARIÊS,Philippe O

(1s14-1sB4)

encontro entre Foucault eAriês remonta àépocadapublicaçáodeHistoire delafolie.Quando

ninguém queria pubiicar essa obra, foi precisamente ArÍês, consultor da editora P/on, o impulsor de seu aparecimento (DE4, 649). * Foucault considerou Philippe Ariàs como o inventor da história das mentalidades,

a

história que relata o que o homem faz de si mesmo como espécie úvente (DE3, 503).

Mais tarde, no artigo publicado pela ocasião de seu falecimento, considera os trabalhos históricos de Ariês, mais do que uma "história das mentalidades'l como uma "história das práticas" da "estilização da existência'] isto é, das formas pelas quais o homem se manifesta, se inventa, se esquece ou se nega

em sua fatalidade de ser vivente e mortal (DE4, 648). Essa história das práticas toma por objeto as condutas que coucernem

à

vida

situa os próprios trabalhos de Philippe Artàs [ 46 ] : DE1



morte, o modo pelo qual

"história'na linha teórica

a

vida

de Ariês

se

converte em história. * Foucault

(DEa,650).

192, 503 - 505. DEr', 29 5, 646-6s3, 65s. HF, 686. SP, t 43.

2: ARISTOFANES (-445--3Bo

AC)

Quatro comédias de Aristófanes são citadas emLusage des plaisirs: Assembléia de mulheres, as tesmoforiantes, os cqvaleiros e os acarnensex Foucault faz referência a elas, principalmente, emrazão das descrições desqualificadoras dos efeminados e da prática da pederastia (Agatão,

principalmente) (H52, 26,211,241-242,255.DF4,551-552). x Encontramos também várias referências à figura literária de Aristófanes no Banquete, de Platão (H52,255-256). Aristophane [20]:D84,551,552. HS,

376.

H52,26 27,57,210,240,242,254-256,266,279.

2ç ARISTOTELES (-386 *322 a.C)

Ética dos prazeres. Foucault

se ocupa de Aristóteles a propósito de numerosos temas

vinculados à ética dos prazeres: a desqualificação moral das relações extraconjugais (HS2, 24); anoçâo de intemperança que, para Aristóteles, concerne aos prazeres do corpo (excluindo

olfato) (HSz,49-50); com relação aos prazeres naturais, em que (HS2, 54-55); sobre a passividade da mulher (HS2, 56); acerca da relação entre desejo e razão (HS2,60);sobre os da visão, da audição e do

as únicas faltas que podem ser cometidas são da ordem da quantidade

o nexo entre prazeres da mesa e prazeres do amor (HS2,61-64); acerca da distinção entre ARtsTóTELES

39

e enkráteia (H52,75-82); da liberdade e da escravidão na cidade e no indivíduo (com respeito ao governo dos prazeres) (H52,92-99);sobre os perigos para a saúde pelo abuso dos prazeres sexuais (HS2, 134-138); acerca da reprodução (HS2, 148-150); sobre a relação

sophrosine

entre atividade sexual e morte (HS2, 152); as políticas da temperança (HS2, 193-200). As categorias. Sobre a teoria clássica do signo e sua crítica à doutrina das categorias de Aristóteles, cf DEl, 643-644. Vontade de saber. Segundo o resumo dos cursos do anuário do Collêge de France, o correspondente aos anos 1970-1971 foi dedicado à "vontade de saber'i

Dois modelos teóricos foram levados em consideração, Aristóteles e Nietzsche. "O desejo de saber, que as primeiras línhas da Metafísica colocam tanto como universal quanto natural, se funda nesse pertencimento primeiro que já é manifesto pela sensação" (D82, 243). Trata-se do mútuo pertencimento entre conhecimento e prazer, e, ao mesmo tempo, a independência desse nexo em relação à utilidade

vital do conhecimento.

Aristote [238]: AS,187. DEl, 85,170-171,361,374,381,451, 453,457,742-644,768,770,796,804,818. DE2, 45,65,76,91,106,242-243,403,571. DE3,395,538. DE4, 140,387,399,550, 613,673,699-701. HF,202,333. HS, 26,28, 56,72, 139, 178, 1 82- 1 83, 365,

37

1,376-377 . HS

l,

1

88.

}{52,24,

19,

15, 48,56, 58-64, 68-69, 75-78,81 -82,86, 88, 92,

94-95,97 101,103,118,126,131,134-135,138-140,148-152,161,165,184-185,191,1.93-1.97,200-202,214,224,226, 238, 252, 279-280, 284. HS3, 55, 108,

1

3

1, 148, 167, 173-174, 180, 187, 189, 203, 208, 215, 27 1-272, 275-27 6, 284.

MC,

52,70, 108. RR,82.

Aristotle

:;.

II

] : tISz, 28L

ARQU EOLOG

lA (Archeo log i e) les choses tem por subtítulo "Uma arqueologia das ciências humanas'l

Ordem. Les mots et

O pref,ício, com efeito, apresenta a obra, mais do que como uma história no sentido

tradicional do

termo, como uma arqueologia cujos problemas de método serão estudados em uma obra posterior

(qteserálhrchéologie du savoir) (MC, 13). láemHistoire delafolie àl'âge classique, Foucault concebia sua prática da história como uma arqueologia do saber (HF, 314). A arqueologia não se ocupa dos conhecimentos descritos segundo seu progresso em direção a uma objetividade, que encontraria sua expressão no presente da ciência, mas da episteme, em que os conhecimentos são abordados sem se referir ao seu valor racional ou à sua objetividade. A arqueologia é uma história das condiçÕes históricas de possibilidade do saber. Essas dependeriam da "experiência desnuda da ordem e de seus modos de ser" (MC, l3). Existe, para Foucault, entre os'tódigos fundamentais de uma culturd' e as teorias científicas e filosóficas que explicam por que há uma ordem, uma "regiáo

intermediária' ("anterior

às palavras, às percepções e aos gestos que

devem traduzi-la com maior

ou menor exatidão [...]; mais sólida, mais arcaica, menos duvidosa, sempre mais verdadeira do que as

teorias" [MC, l2]) que Íixa, como experiência da ordem, as condições históricas de possibilidade se propõe analisar, precisamente, esta "experiência desnuda" da ordem.

dos saberes. A arqueologia

A esse nível, o trabalho de I es mots et les choses não nos mostra o movimento quase ininterrupto

daratio europeia, mas sim duas grandes descontinuidades: a que separa o Renascimento da época clássica e a que distancia essa da Modernidade (MC, 13 14). História, monumento, documento. A arqueologia do saber

se

tória redeÍine sua posição

40

situa nessa transformação (nem recente nem acabada) pela qual a hisrespeito dos documentos. A tarefa primeira da história já não consiste

a

ARQUEOL0GIA Arch"ologte) t

em interpretar o documento, determinar se diz a verdade ou seu valor expressivo, mas, antes, em trabalhá-lo desde o interior: "Ela o organiza, o divide, o distribui, o ordena, o reparte em níveis, estabelece séries, distingue o que é pertinente e o que não é, assinala elementos, deflne unidades, descreve relaçoes" (AS, 14). Em outros termos, em lugar de tratar os monurnentos como documentos

(lugar da memória do passado), agora os trata como monumentos. Não busca neles os rastros que os homens tenham podido deixar, mas desdobra um conjunto de elementos, isola-os, agrupa-os, estabelece relaçoes, reúne-os segundo níveis de pertinência. Os efeitos de superfície dessa mudança de posição da história a respeito do estatuto do documento foram, em primeiro lugar, no campo da história das ideias, a multiplicação das rupturas, e, na história propriamente dita, o surgimento

(AS, l5). Outras consequências dessa rnudança de posição foram: a nova importância da noção de descontinuidade (AS, 16-17), a possibilidade de uma história geral, não de uma história global (AS, 17-19), novos problemas metodológicos (a constituiçâo deumcorpus dos grandes períodos

coerente, a determinação do principio de seleção, a definiçáo do nível de análise, a delimitação dos

conjuntos afticulados, o estabelecimento das relações entre eles) (AS, 19-20). História das ideias. Como resposta a esses novos problernas metodológicos, Foucault elaborou uma série de noções (formaçoes discursivas, positividade, arquivo) e definiu um domínio de análise (enunciados, campo enunciativo, práticas discursivas). 'A arqueologia descreve os discursos como práticas específicas no elemento do arquivo' (AS, 174). Nesse sentido, a arqueologia se distingue da história das ideias. Os grandes ternas da história das ideias são

filosofia

à

filosofia, da não çientificidade

a gênese, a à

continuidade, a totalizaçào; a passagem da não

ciência, da não literatura

à

obra. A arqueologia não

é

uma

disciplina interpretativa, nâo trata os documentos como signos de outra çoisa, mas os descreve como práticas. Não busca, com isso, estabelecer que o precede a

e ao

a

transição contínua e insensível que une todo discurso ao

que o segue, mas sua especilicidade. Não está ordenada

expressão da individualidade ou da sociedade,

a

à

obra (para encontrar ali

instância do sujeito criador; não

nem sociologia); deline práticas discursivas que atravessam

as

é

nem psicologia

obras. Finalmente, tampouco pretende

estabelecer o que foi dito em sua identidade (o que os homens no momento em que protêriram seus díscursos pensaram, quiserarn, tentaram ou desejaram dizer), mas é uma reescritura dos discursos ao nível de sua exterioridade

(AS, 182-183). Entre uma e outra, encontramos quatro grandes

diferenças: 1) Com respeito a outorgar a novidade. A arqueologia não está em busca das invenções ou do momento em que algo Íbi dito pela primeira vez, mas da regularidade dos enunciados. 2) Da análise das contradiçoes. As formações discursivas, objeto da descrição arqueológica, não são

um texto ideal, contínuo. A descrição arqueológica quer manter suas múltiplas asperezas. 3) Das descriçoes comparativas. Suspendendo a primazia do sujeito e, por isso, não reduzindo o discurso interior deumcogito,a arqueologia não pretende tampouco ser uma análise causal dos enunciados que permitiria relacionar ponto por ponto um descobrintento à expressão de algo que sucede no

e a

um 1àto, um conceito e uma estrutura social. Ela se inscreve na história gerai; quer mostrar conlo história (as instituiçoes, os processos econômicos, as relações sociais) pode dar lugar a tipos

definidos de discurso. 4) Do estabelecimento das transformaçoes. A contemporaneidade de várias transformaçoes não significa uma exata coincidência cronológica. Entre elas, numerosas relações são possíveis. A ruptura é o nome que recebem as transtbrmações que afetam o regime geral de uma ou de várias formações discursivas. Por isso, a época nao é unidade de base. Se a arqueologia fala de época, o faz a propósito de práticas discursivas deternrinadas. Foucault aborda cada um desses temas em AS, lB4-231 . Formalização e a

ARQUEOLOGIA (Archeologie)

À1 +l

interpretação. A arqueologiadeflne uma metodologia de análise formalista nem interpretativa (AS, 177). Enquanto

a

dos discursos que não é nem

unidade de trabalho das metodologias

formalistaséaproposição-significanteeaunidadedainterpretaçaoéafrase-significado,a arqueologia se ocupa de enunciados eformações díscursivas (Ver os respectivos verbetes). Outras arqueologias. Até o momento da publicação de Larchéologie du savoir (1969), a episteme era uma modalidade de interrogação dos saberes. Nesse sentido, tratava-se de arqueologias orientadas à episteme. De todo modo, Foucault pensa na possibilidade de outras descrições arqueológicas, náo orientadas à episteme: uma arqueologia da sexualidade, da

pintura, da política (AS,25l-254). Geologia, genealogia. "Meu objeto não é a linguagem, mas o arquivo, quer dizer, a existência acumulada de discursos. A arqueologia, como eu a entendo, não é parente da geologia (como análise do subsolo) nem da genealogia (como des-

crição dos começos e das sucessões),

éa

análise do discurso em sua modalidade de arquivo'

595). Kant. Utilizou o termo "arqueologia'para referir-se à história do que torna necessária uma forma de pensamento. O texto de Kant é: "Fortschritte der Metaphysik i in

(DEl,

Gesammelte Schriften, Berlin, Walter de Gruyter, t.XX, 1942,p.341. Esse é o terreno da arqueologia; e não o de Freud, como pensa Steiner (D82,221). (Ver também Enunciado, Episteme, Formação discursiva, Filosofia, Saber) Archéologie [260]: AN,24,55,98,100. AS, 15, 27,173,177-178,182-183, 189-190,192,194,199-200,206-209, 212-213,2ts-2t6,21.8 223,225,227 -228,230-233,235,239,244,251-252,255,265,268-27 L DEr, 1 60, 296, 498, 499-500, 543, 575,587, 589, 595, 599, 602, 606, 663, 676,68 1

l,

696, 708,730,77

07, 1 57- 1 58, t66-r67 , 173, 182, 192,207,221,239,242,405-406,

37,39,88, t67,235,300,399,404 405,419,

468, 582, 585, 678.

I

772,776-778,786-787 ,832, 843-844. DE2, I 04,

521 522,643-645,752,7 59,790, 808,

8

1

3.

DE3, 28

3 1,

DE4,42,57,71-72,196,283,393, 437,443,451,457,530,

599,6t8,632,652,730. HF,113,144,314. HS,468. HS1,172. HS2,19. IDS, 11,20,167,191. MC,13-15,64,142,214, 220-221,229 230,274,281,290,3t8,377,398. MMPE, 26. MMPS, 26.PP,14,20,89,92,197,238'239,256-2s8.

is

ARQUITETURA (Architectu re)

O tema da arquitetura está estreitamente ligado à questão do poder. Foucault distingue,

com efeito, uma arquitetura do espetáculo e outra da vigilância cuja forma paradigmática é o panóptico de Bentham (DE2, 608). Essa relação entre arquitetura e poder passa pelo modo como a organização do espaço distribui o movimento do olhar, determina avisibilidade. "Tradi-

cionalmente o poder

é o que se vê, o que se

mostra, o que

se

manifesta e, de maneira paradoxal,

encontra o princípio de sua força no movimento pelo qual se desdobra. Aqueles sobre os quais se exerce o poder podem Íicar na sombra. Eles recebem luz somente desta parte de poder que lhes é concedida ou do reflexo que por um instante os alcança. O poder disciplinar se exerce

tornando-se invisível. Como contrapartida, impõe àqueles que ele submete um princípio de visibilidade obrigatória. Na disciplina, são os sujeitos os que devem ser vistos" (SP, 189). A arquitetura dos templos, dos palácios, dos teatros responde ao jogo da visibilidade no exercício

tradicional do poder (SP, 218);

a

correspondente ao poder disciplinar será a arquitetura das

prisões, dos hospitais, das escolas. Yer: Panóptico. Architecture [ 158/: AN,

I

28. AS, 49,52,62,7

5-76,80,82,129,152,196,242,263.D81,148,212-214,225,240,411,

125, 505, 507, 550, 620,622,675,7t4,716,766,782,794,843.

42

ARQUITETURA \ArCh itectu re)

DE2,76,96,293,

437, 439,594, 608, 613, 686, 812. DE3,

24,34, l9o,192 t93, 404,5 19, 576, 698, 725,736. D84,220,270-271,274'276,278-285,351,431,673,752.}{F,62,253' 573. HS3, 124.

MC, 52,242,244,250,252,283,293,298,303. MMPS,

15-16, 44,7 4,99, 160, 192. SP, 35, tt7 ,

t4t,

145, 170, 174-175,

I

79.

NC,

114, 120,201. PP, 92,104,1.27,179. RR,

88, 190, 204, 208,

2 I

8, 241,252.

âs ARQUIVO (Archive)

Em Foucault, o termo "arquivo" nao faz referência, como na linguagem corrente, nem ao conjunto de documentos que uma cultura guarda como memória e testemunho de seu passado, nem à instituição encarregada de conservá-los. "O arquivo é, antes de tudo, a lei do que pode ser dito, o sistema que rege o surgimento dos enunciados como acontecimentos singulares" (AS, I 70). O arquivo é, em outras palavras, o sistema das condições históricas de possibilidade dos enunciados. Com efeito, os enunciados, considerados como acontecimentos discursivos, náo são nem a mera transcrição do pensamento em discurso, nem apenas o jogo das circunstâncias. Os enunciados como acontecimentos possuem uma regularidade que lhes é própria, que rege sua formação e suas transformações. Por isso, o arquivo determina também, desse modo, que os enunciados não se acumulem em uma multidão amorfa ou se inscrevam simplesmente em uma linearidade sem ruptura. As regras do arquivo definem: os limites e as formas da decibilidade (do que é possível falar, o que foi constituído como

domínio discursivo, que tipo de discursividade possui esse domínio), os limites e as formas de conservaçao (que enunciados estão destinados a ingressar na memória dos homens, pela recitação, a pedagogia, o ensino; que enunciados podem ser reutilizados), os limites e as formas da memória tal como aparece em cada formação discursiva (que enunciados reconhece como válidos, discutíveis ou inválidos; que enunciados reconhece como próprios

limites e as formas dareativaçao (que enunciados anteriores ou de outra cultura retém, valoriza ou reconstitui; a que transformações, comentários, exegeses e análise os submete ), os limites e as formas da apropriaçao (qte indivíduos ou

e quais como estranhos), os

§

tfl

grupos têm direito a determinada classe de enunciados, como define a relação do discurso com o seu autor; como se desenvolve entre as classes, as nações ou as coletividades a luta * para encarregar-se dos enunciados) (AS, 169-171, DEl, 681-682). "Entendo por arquivo

conjunto dos discursos efetivamente pronunciados. Esse conjunto é considerado não apenas como um conjunto de acontecimentos que tiveram lugar uma vez por todas e ficaram em suspenso, no limbo ou no purgatório da história, mas também como um conjunto que continua funcionando, se transforma através da história, da possibilidade de aparecer de outros discursos" (DEl, 772).* Não se pode descrever exaustivamente o arquivo de uma * sociedade ou de uma civilizaçâo (AS, 171). O umbral de existência do arquivo está fixado o

pelo que separa nossos discursos do que já não podemos dizer. Por isso, o arquivo concerne

a

*'A arqueologia algo que é nosso, mas náo à nossa atualidade (AS, 172).

descreve discursos como práticas específicas no elemento do arquivo" (AS, 173). 'A arqueologia é, em sentido

estrito, a ciência desse arquivo" (DE1, 499). Archive [51]: AS, DE2, 658,

7

40.

DE3,

103, 166, 169-173,177,269-270.D81,299,499,530,595,681,688,708

468- 469. DEA, 35 1, 7 59.

HSl,

709,733,772,786-787.

85. SP, 167, 19 l.

ARQUIVO (Archive)

43

3ü.

ARs EROTICA

Segundo Foucault, historicamente existem dois procedimentos para produzir a verdade do sexo: a qrs erotica e a scientia sexualis. Na ars erotica, a verdade do sexo se extrai do

prazer mesmo, tomado como prática e reunido como experiência. A China, o Japão, a Índia, as sociedades árabe-muçulmanas dotaram-se de uma ars erotica (HSl, 77). Na scientia sexualis, a verdade do sexo, por sua vez, é da ordem do discurso. * Ainda que nossa civrlizaçao tenha dado lugar a uma scientia sexualis, apesar disso, a ars erotica não desapareceu; ela subsiste na direção de consciência, na busca da união espiritual, to prazeÍ da verdade, por exemplo

(HSl, 94-95). * "Um dos numerosos pontos onde cometi um erro nesse livro [la

volonté de savoir) foi o que eu disse d esla ars erotica. Eu a opunha à scientia sexualis. Porém, mais preciso. Os gregos e os romanos não tinham nenhuma ars erotica em

é necessário ser

comparação com a ars erotica dos chineses (ou digamos que não era algo muito importante na sua cultura). Eles tinham tmatékhne toü bioü onde a economia do prazer desempenhava um papel muito importante. Nessa hrte de viverl a ideia segundo a qual era necessário exercer um domínio perfeito sobre si mesmo se converteu rapidamente no problema central. E a hermenêutica cristã de si constituiu uma nova elaboração desÍa tékhne" (DE4, 390, 615). * Na relação amorosa entre Marco Aurélio e Fronton, a ars erotica constituía um dos temas de discussáo (D84,794). Ars erotica [23]:D83,134,525-526.

=.:.

ARTAUD, Antonin (1896

DE4,390, 615,794. HS1,77, 90,94 96.

1948)

Em Artaud, a consciência trágica da loucura se expressa por debaixo da consciência crítica em suas formas filosófica ou científica (HF, 47). * A obra de Artaud, como a de Roussel, põe de manifesto o novo modo de ser da literatura, na qual a linguagem deixa de estar subordinada ao sujeito (MC, 395). * Em Artaud, a linguagem discursiva está destinada a desatar-se na violência do corpo e do grito, e o pensamento, abandonando à interioridade

tagarela da consciência, converte-se em energia material, sofrimento da carne, perseguiçào e desgarramento do sujeito (D81,522). Antonin Artaud 155/: AN,50. DEl, t61,169,266,268,412-413,419,500, 522,525,704.D82,80, 105, 108-109, }lF,28, 47 , 48,221,223,3\4, 432, 433, 435, 440_441, 632,656,66 -663. MC, 59, 339, MMPS,89, 104. OD,23. RR,207.

132, 412. DE3, 47 s, 490, 578, 677 . 39s.

:: ARTEMIDORO (il d.c

sexuais.

44

Á

)

primeira parte de Le souci de soi àaúlise do texto desse filósofo pagão do chave dos sonhos (HS3, 16-50). Três capítulos dessa obra estão dedicados aos sonhos

Foucault consagra século II,

1

A economia,

ARs EROTICA

a

as relações sociais, o êxito e o fracasso do

indivíduo e a sua vida política

e

cotidiana permitem compreender os sonhos sexuais. Nesse sentido, Artemidoro está próximo de Freud. O valor social do sonho não depende da natureza do ato sexual, mas do estatuto social dos

partners (D84,174). Artémidore [ 198/: HS,

33.

468. HS3, I 3, t5-22,24-37,39-46,48_49,276.D84,

t74,176,2t6,

462_486,803.

ASCESE (Áscese)

Ascese antiga e ascese cristã. A diferença das conotações que esse vocábulo sugere atualmente, a ascese para os antigos não era um caminho de progressiva renúncia a si mesmo. Antes, tratava-se do trabalho de constituição de si mesmo, isto é, da formação de uma relação consigo rlesmo que fosse plena, acabada, completa, autossuficiente e capaz de produzir essa transfiguração do sujeito que é a felicidade de estar consigo mesmo (HS,

305).

. Nossa noção de ascese está determinada

pela herança cristãi Foucault assinala três diferenças conceituais entre a ascese filosófica, a helenÍstica e a rorlana, e a ascese cristã. A diferença desta última, como já dissemos, a ascese filosófica: l) não está orientada à renúncia a si mesmo, mas à constituição de si mesmo; 2) não está regulada pelos sacrifícios, mas pelo dotar-se de algo que não se tem; 3) não busca ligar o indivíduo à lei, mas o indivíduo à verdade (HS, 316). * o sentido e a Íunçáo fundamental da ascese

filosófica helenÍstico-romana fbram assegurar a subjetivação do discurso verdadeiro, fazer com que eu me converta em sujeito de enunciação do discurso verdadeiro. Não se trata, então, da objetivaçâo de si em um discurso verdadeiro, mas da subjetivação de um discurso verdadeiro; tornar próprias, na vida, as coisas que se sabe, os discursos que se escuta e que se reconhece como verdadeiros. "Fazer sua a verdade, converter-se em sujeito de enunciação do discurso verdadeiro; creio que é esse o coração da ascese filosófica" (HS,

317).* Descartes rompeu com tudo isso. Para aceder à verdade,

é

suficiente a evidência,

basta um sujeito que seja capaz de ver o evidente. A evidência substituiu assim a ascese (DEa, 630; HS, l5-16, 19,29). * É interessante fazer referência à interpretação histórica que Foucault nos oferece dessa ruptura cartesiana. A separação entre verdade e ascese não

seria uma consequência do clesenvolvimento da ciência moderna, mas da teologia. Refereespecialmente à teologia inspirada em Aristóteles. O modelo de sujeito cognoscente foi um Deus concebido em termos cognoscitivos. O conflito entre espiritualidade e ciência se

foi precedido pelo conflito entre espiritualidade e teologia (HS, 28). * Na Antiguidade, no entanto, o acesso à verdade exige do sujeito pôr em jogo o próprio ser, que ele se transforlne mediante o trabalho da ascese. Na realidade, ascese e éros foram as duas grandes formas da espiritualidade ocidental mediante as quais o sujeito se modifica para ter acesso (HS, 17). Ascese e Modernidade. A ascese caracteriza tarnbém a atitude de

à verdade

Modernidade. Aqui Foucault faz referência a Baudelaire (DE4, 570-571). Ascàse [120]: DE2, I 38, 260. DE4, 165,307,359,36t,398 399, 41 l, 416,543,560, 621,630. HF, 104. HS, 17, 32, 88, 100, 172, 203,205,301-303, 305-307,312 313, il5-318,322-323,326,334,343,348

349,355,397-399,402.409-410,

433.450,457,465. HS2,15,38, 105, 193,253,267. HS3, -lns. pp.89.

ASCESE

(Áscese) 45

34,

ASILO (Asile)

Yer'.

Loucura.

Asile [240]: AN,

lll,

307,319,321-322,431,433

132, 134, 138, 228,246,276,280,301.

D81,270,409.D82,211,217,232 233,237,298-299,

434,439,593,620,665,679-680,682,685,700,746,790-792,802

804,806,811,813.D83,36,

58-62,68,91,92,).09,154,164,229,265,27t 274,333,361-364,367,388-389,393,466,505-506,766,802.DE4,27,122. 665.

HF, 10t,117,147,160,

163, 191, 196,2t8,224,344,426,446,450,481,493,530,534,

538,542,545-546,548,550,

553,57 t,57 5-576, 580, 586, 596,600,602 603, 605-606, 608 -614,619-620,622-626,631,640,653.

IDS,

8.

MMPS, 84-86.

NC,39,104.PP,3,5-10,16t7,1920,27,29,6061,81,95,96,99-100,102-106,108,109,r15,119t20,123,125128,133, 137 138, 143, 146, 148 i51, 153-156, 160 t65,169-176,178-191, 248.252,253-254,265,27 t,277 -278,310,312,325. SP, 26,

i=. ATUALID ADE

20 1,

193-195,200,2t1 2t2,215 2t7,226,228 229,233,235, 307.

(Actualite)

Foucault concebe a atividade filosófica como um diagnóstico da atualidade. Ver:

Diagnosticar. Actilalité [122]: AN, 254,259-26t,289-290,296,

141.

ÂS, 11,81, 171-172.DFL,77,93,113-114,129,253,281,282,336,428,500,545.

DE2,

DE3, 43, 68, 100,274,377 , 431,535,573 574, 588, 606,656,707,809.D84,21,60,8r, 11s,231,363,461,467, s03, s19, s64,s67 s68,574 575,s87,679-682,686-687,688, 434, 558, 58 1, 584, 588, 656, 657, 659, 800.

733,747,765. HS, 454, 455. HS2, 68. }I53,22,219. IDS, I 15, 204. MC, 250, 325. NC, 164.5p,164,202.

3* AITFKLÁRUNG Yer Modernidade. Auftliirung [106]: DEl,76, t20,

545-546, 549.

562-568, 57 t-573, 577, 679 -682, 685-687,

7

65-7 68.

DE} 431-433,

HF,

174.

}{S, 297.

479,783. DE4,36-37,73,225,231, 438, 440, 448, 467.

NC. 51.

126.

:?" AUSÊNCIA (Ábsence)

Para a loucura concebida como ausência de obra,ver: Loucura. t87

Absence [341]: !rN,26, 101, 104-105, 1 13, I 15-l 18, 122, 128, 138-139, 168 ,230,282,295. A5,27,37,89,118,120,t46-147, ,234,242.DEr, 90, 107, 1 10,1 13, I I 8, 149, I 5 1, 162-163, 174,182, t96-203,214,227,232,234,242,245,247,249_250,257,

260,265-266,274,279,284,299,329,367,406,412,4t8,434,477 632,636,639,642-643,646,705,745-746,779-780,790,7

489,532,546-547,583,595,655,666,725,740,790,8t8.D83, 760.D84,12, 17,33, 96, 108, I 13,

142,

,506,5t9,521,526,529,531,535,

538, 553, 585, 620,629_630,

93, 795, 808, 836. DE2, 50, 76, 80, 150, 152,180,212,2t6,234,325,397,

t5,29,47,280,293,3t0,401,445,594,647,691,702,7

14_715,751,

303-304, 333,38t,414,566,651,732,74LHÊ,48,59,61,153,201,2t6,233,235,237,240,

249,251,265,266,304,314,326,327,354,436,46t,467,515, 548, 566, 606, 6 t6,631,647 _649,659,662.Idi,27,47,t78,187,203, 230,241,30t,331,403, 455, 469. HSI ,202-203. IlS2, 172, t75,226,240. HS3, 63, 75, 97_98, I 1 1, 188, 194,233,237 _238,254, 260.

IDS,

130.

MC,3l, \04,140,146,158,2t9,239-240,299,339,348,370,396. MMPE,21,29,63. MMPS,21,29,63. NC.XI,

x:,r,48,51,72, r47, \63,202. OD, 61, 81. RR, 29, 30, 107,

46

ASILO (Ásile)

l3l, t37,169,175, t97,207.5p,42, t50,170,203,2t3,296_297.

=é.

AUTOR (Auteur)

A arqueologia deixa de lado as noções com as quais tradicionalmente se escreYeu a história do conhecimento e das ciências, a história da literatura e da filosofia; especialmente, as categorias de obra,livro e autor. Quanto a esta última, para além das questões metodológicas da

arqueologia, acríIícaà noção de autor forma parte da crítica geral, desde o ponto de vista da filosofia, à noção de sujeito, à função fundadora do sujeito. O questionamento da noção de autor * está presente também na crítica literária e na relação escritura/morte. Foucault se ocupou da função-autor em lhrchéologie du savoir, Lbrdre du discours e em uma conferência na sociétéfrançaise de philosophle, "Qu'est-ce qu'un auteur?" (DEl, 789-821).Nome próprio. O "autor" não funciona como um nome próprio; a relação entre o autor e aquilo que nomeia não é isomorfa com a relação entre o nome próprio e o indivíduo que designa. Foucault nos oferece vários exemplos. Descobrir que Pierre Dupont não é médico ou não vive em Paris não

modifica o nexo de designaçáo. Do mesmo modo,

se

descubro que Shakespeare nào nasceu

na casa que se visita como seu lugar natal, isso não altera o funcionamento do nome do autor. Pelo contrário, se descubro que ele náo é o autor dos Sonetos ou que é o autor do Organum de Bacon, ou que Shakespeare e Bacon são a mesma pessoa, entã0, modifica-se inteiramente

funcionamento do nome do autor. Por isso, "[...] um nome de autor não é simplesmente um que pode ser substituído por elemento em um discurso (que pode ser sujeito ou complemento, função de um pronome, etc.); exerce ierto papel com respeito aos discursos: assegura uma excluir clasificaçáo; um nome desse tipo permite agrupar certo número de textos, delimitá-los' civil dos homens, alguns, opô-los a outros. [. . . ] o nome de autor não está situado no registro certo grupo que instaura ruptura não está tampouco situado na ficção da obra, está situado na pois, característica do modo de de discursos e seu modo de ser singular. [...] A função autor é, (DEl' existência, de circulação e de funcionamento de alguns discursos dentro da sociedade" função-autor: da fundamentais características quatro Função-autor. Foucault distingue o

798).

o universo 1) Está ligada ao sistema jurídico e institucional que rodeia, determina e articula propriedade é dos discursos. Os discursos são objetos de apropriação. Pois bem, a relação de possuir secundária com respeito à apropriação penal. Com efeito, os discursos começaram a circuito no ingressar de antes discurso, O um autor na medida em que esse podia ser castigado. da propriedade, foi historicamente um gesto carregado de riscos

(DEf , 799). 2) Não se exerce

uniformemente e da mesma maneira em relação a todos os discursos, em todas as épocas e em todas as civilizações. Alguns discursos circulam sem recorrer a um autor como princípio de seu sentido ou de sua eficácia: notas cotidianas que se lançam quase imediatamente, decretos, contratos, formulas técnicas. Porém, mesmo nos campos em que normalmente se requer o autor (a literatura, a filosofia e a ciência), tampouco funciona da mesma maneira: na Idade Média, por exemplo, o valor científico de um texto provinha de seu autor; a partir do século XVII, no entanto, essa função não cessa de debilitar-se, até desaparecer (no discurso científico serve apenas para dar nome a um teorema, a um efeito, a uma síndrome). No campo da literatura, no entanto, a atribuição a um autor não deixou de se fortalecer. Na Idade Média, circulava no anonimato (OD, 30-31, DEl, 799-800). 3) Não está definida pela atribuiçáo espontânea

* produtor, mas por uma série de operações específicas e complexas. Para Foucault, a maneira pela qual a crítica literária define o autor deriva diretamente da maneira pela qual ao seu

AUTOR (Áuteur)

47

tradição cristã determinou a autenticidade. Foucault se refere a São ferônimo (DEl, 801). Desse modo, o autor permite explicar a presença de certos fatos em uma obra, sua transfora

mação, sua deformaçáo; mas também confere certa unidade aos discursos, permite superar as

contradições, é o foco de expressão. 4) Não reenvia pura e simplesmente a um indivíduo real, pode dar lugar simultaneamente a vários egos. O sujeito que fala no prefácio de um tratado de matemática não é o mesmo que fala no decurso de uma demonstração ou o que fala das dificuldades

e

obstáculos que encontrou no decorrer de seu trabalho (DE1, 803). Fundadores

de discursividade. Alguns autores não são apenas autores de suas obras, mas também da possibilidade e das regras de formação de outros discursos. Por exemplo, Marx ou Freud. A instauração da discursividade é distinta da fundação da cientificidade. Enquanto, nesse caso, o ato de fundação se encontra no mesmo plano que suas transformações futuras, a instauração da

discursividade lhe

é

heterogênea. Ela não é da ordem da generalidade formal, mas da abertura

de um campo de aplicações a respeito das quais se mantém atrás. "Para falar de maneira

muito

esquemática, a obra desses instauradores não se situa em relação à ciência e ao espaço que ela desenha, mas é a ciência ou a discursividade que se referem à sua obra como à coordenadas

primeiras"

(DEl,

807). A partir daqui, compreende-se essa necessidade que guia todas as

exigências de retorno à origem, de redescobrimento, de reatualização. Auteur [588]: AN, 1

50, I 52, t61,

167

18, 20,

49,98,236,246 247. AS, 12,33-36, 38, 41, 43, 57, 107, 1 10, 122-123,1.25-126,

, 183, I 85, I 96, 224,27 4.

38s, 422, 429, 443, 467 , 47 4, 477 -478, s06,

736,758,760,765,77 4,786,789-8

1

3,

8

1

DEt, \72, s I

177

-t79, 183, 186, 204-205, 254, 273, 292,

3, 540, 59 l -593, 596, 653, 660-66

I,

337

35, 140,

682, 68s, 694, 696,702-70s, 709.7

7 820. DE2, 24, 60-61, 132, 166, 172, 198,210, 2t3,216, 218,222-223,

326,369,408,425,481,583, 606-607,645,664,708,721,732,767,781,.

I

, 349, 361, 369, 372,

DE3,20,39,68,95,

267

t0,

, 309,

101, 131 132, 140, 190,215,

253 254, 358, 399, 443-444, 448, 452-455, 464, 591, 620, 660,707 ,7 42,773-774,806. DE4, 16-17 , 31, 104, 106-107 , 121, 1

54, 1 56, 166, t7 4, 208, 325-326, 328. 367, 373, 392, 41.2, 421-123,

457 ,

472,530, 550, 570,

59 1,

599, 601, 607 , 622, 642,

707,735,780,788,816,823.HF,9-10,57,6t,83,8s-87,97,147,163,261,277,301,220,380,461,s46,622,688.HS,2s, 61,99-100,118,140,160,196,219,339,341.HS1,31,59.HS2,25,56,70,75,113,120,124-127,129,13s,144,150,159, 194-195, 198-199,226,228,232,234,246. HS3,29, 131, 168, 181, 184,203,208, 244,259-260. IDS,20, 103, t19,2).2. rúC.22.27.3031,1s6, 181 182,208.MMPE,38.MMPS,38.NC, 13,27,209.OD,29-32,39,54,65-69. PP,122,292, 328. RR,86,

l8

t)r,126, t79,181. SP, 17,24-25,78,

AUT0R {Áuteur)

103, 159,248,256,268.

.

:: : t:;i-:::rr,

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',..

'

' ,: ::::i::';:':. :jr': :l:liij:=-:

:....,'. 11,Í;' :ll--:,':'1iií.

3s BACHELARD, Gaston (1884-i962)

Foucault se refere a Gaston Bachelard, fundamentalmente, em relação à noção de atos

e

cortes epistemológicos. Por esse motivo, ele o situa entre as figuras centrais que operaram a transÍbrmação do campo da história das ideias, das ciências, da filosofia. com a noção de corte epister:rológico, Bachelard suspendeu a acumulação indefinida de conhecimentos;

não busca, com efeito, estabelecer nem o começo silencioso dos conhecimentos, nem os primeiros precursores, mas a aparição de um novo tipo de racionalidade (AS, 1 I ). * Foucault

também faz referência à função que Bachelard atribui à imaginação na percepção (DE1, 114). * Para alem de todas as oposiçôes que possam servir para descrever o panorama da filosofia francesa do século XX (marxistas e não marxistas, freudianos e não freudianos, especialistas e não especialistas, etc.), Foucault propõe separar uma filosofla da experiência, do sujeito e do sentido, de uma filosofia do saber, da racionalidade e do conceito. Na primeira,

encontramos Sartre

e

Merleau-Ponty; na segunda, Cavaillês, Bachelard

e

Canguilhem (DE3,

430). Apesar das dit-erenças de estilo, o equivalente dessa segunda linha de pensamento, no pauorama alemáo, como interrogação histórica da racionalidade, seria

a

Escola de Frankfurt

(DF.3,432-433). Gaston Bachelard [28]: AS, I 1,248. DEI. 11.1,434, 149,696-697.DE2,382. DE3, 409, 430,432-134. DE4, 440. 654,

7

54. 764,

7

56,

67. 769.

:+. BACON, Francis

(1 560/1 561

-1626)

Encontramos em Bacon uma crítica da semelhança que, à diferença de Descartes, não concerne às relações de ordem e igualdade entre as coisas. Trata-se de uma doutrina do qui

pro quo,

dos idola do teatro e do foro que nos fazem crer que as coisas se assemelham ao que apreendemos neles (MC, 65). * No início da época clássica, Bacon buscou introduzir a metodologia da inquisitio (enquête) nas ciências empíricas. Foucault entende por inquisitio BACON. trancis

49

o procedimento político-judicial, tal como se o encontra, por exemplo, na Inquisição

(sp,227;

DE2, 391). Yer: Investigaçào. Francis Bacon [16]: D81,479,492,797.D82,391,

é:. BARBÁR lE

a

(Ba

630. HF, 293.

MC, 43,65-66,137.

Sp,227

.

rbarie)

Foucault se ocupou da figura do bárbaro e da barbárie, fundamentalmente, em relação com formação do discurso histórico; mais precisamente, do discurso histórico da guerra de raças.

O selvagem e o bárbaro. Conhecemos o papel que desempenhou, na formação do pensamento jurídico e político do século XVIII, a figura do selvagem que abandona os bosques para contratar e

fundar

a sociedade.

Uma figura inclinada ao intercâmbio e à troca; figura elementar do Homo

oeconomicus. Daí a bondade natural de sua figura. O discurso histórico-político inaugurado por Boulainvilliers erigiu, contra o selvagem, a figura do bárbaro. Entre ambas, podem ser estabelecidas as seguintes diferenças:

l)

O selvagem, quando ingressa na sociedade, deixa de

ser selvagem. O selvagem o é como tal apenas no estado insocial. O bárbaro, no entanto, o

somente em relação à civllizaçâo. O bárbaro situa-se sempre nas fronteiras do Estado e da civilização; quer destruir essas fronteiras e apropriar-se da civilização. Ingressa na história não para fundar a sociedade, mas para incendiá-la e destruí-la. 2) O bárbaro não é um vetor de e

intercâmbio, mas de dominação. Não leva

a

cabo a ocupação primitiva do solo, mas a rapina, a

pilhagem. Sua relação com

a propriedade é sempre de segundo grau. A diferença do selvagem, nunca cede sua liberdade. Para o bárbaro, o governo tem sempre uma forma militar; não a cessão de direitos, mas a dominação. Nesse sentido, é o homem da história. Revolução. No

discurso histórico-político do século XVIII, cuja formação é analisada em "Il faut défendre la société'i o problema nâo foi revolução ou barbárie, mas revolução e barbárie, ou seja, como

constitutiva de toda revolução (IDS, 176-177,179-lB0). por isso, um dos problemas maiores do pensamento político moderno será encontrar o justo equilíbrio entre barbárie e constituição: o que há que manter e rechaçar da barbárie para encontrar uma constituição equilibrada do Estado? (IDS, 173-176). Castigo. Não se deve pensar a prática punitiva do suplício em termos de barbárie. Não se trata de uma prática irracional, mas de

filtrar

a barbárie

um mecanismo, de certa lógica do castigo (SP, 60; DEZ,5B4). Barbarie [32]:DF,|,540. DE2, 727.H-F,471,535. IDS,5l, sP,

16, 37, 64,76,267

176, 176,t77,179, 180, 181, 182, t83, 190. MC,295.

.

ê:. BARBIN, Herculine (1838-1868)

Foucault publica as memórias de Herculine Barbin, tomadas dos Annales d'hygiàne p

ubli que. Y er : Her mafro ditismo. Adelaíde Herculine Barbin, também chamada Alexina, Abel e Camitle [18]: DE3, 232, 4gg,624, 675-676. 115. 118 i19. 122 123.

DE4.9.

50

BARBARIE lBarbarie\

-r

BARROCO (Baroque)

Barroco, teatro e loucura. * Um dos eixos do teatro barroco foi a extravagância

dos espíritos que não dominam suas quimeras, cono Dom Quixote (MMPS, 79). * O bufão, no Renascimento e no Barroco, era o personagem que dizia a verdade. Uma espécie de profeta, mas que se diferencia da figura do profeta nojudeu-cristianismo, porque não sabe que diz

a

verdade. *

Os personagens barrocos se dividem entre os que dominam sua vontade e os que são portadores da verdade, os que não estão loucos e os que, sim, o estão. No louco há verdade, mas não yontade de

verdade (DE2, 110- 112). O personagem do louco representa

verdade irresponsável (DE3,489).

a

* O personagem da tragédia clássica, à diferença do personagem barroco, não pode estar louco (HF, 312-313). Há que esperar o século XIX, a literatura do século XIX, Nietzsche e a psicanálise, para reencontrar o mútuo pertencimento entre loucura e verdade

(DE2,ll2). Barroco

e

semelhança. No início do século XVII, durante esse período que, com razâo ou não, se chama de barroco, o pensamento deixa de mover-se no domínio da semelhança (MC, 65). O barroco é o triunfo da ilusâo cômica, do quíd pro quo, do sonho e as visÕes e do trompe-lbeil. Baroque [21]:DBr,479. DE2, 110, 112,725,789.DF.3,229,489,675.DE4,123,488,489,495. HF, 56,62,64,313. H53, 244. MC, 63, 6s. MMPS,

+€. BARTHES,

79.

Roland (19i

s-1980)

Respondendo a uma pergunta acerca do pertencimento de Lévi-Strauss, Lacan, Althusser,

Barthes e Foucault ao estruturalismo, este último argumenta que aquilo que distingue, pelo menos negativamente, o estruturalismo é problematizar a importância do sujeito humano, da consciência. Desse modo, a crítica literária de Barthes implica uma análise da obra que nâo se refere à psicologia, nem à individualidade, nem à biografia pessoal do autor, mas a uma análise das estruturas autônomas, às leis de sua construção

transitivo da escritura, de que fala Barthes, a noção de

à

(DEl, 653). * Pode-se vincular o caráter

função de transgressão (DE2,

1

14). *

Introduzindo

escritura, Barthes queria descobrir um nível específico a partir do qual se po de fazer a

história da literatura como literatura, com sua especificidade particular, para além dos indivíduos, * com as próprias leis de condicionamento e transformação (DE2, 270). Foucault considera que seus caminhos divergem, como a literatura da não literatura Roland Barthes [37]: DEl,364, 371-372,584, 653,

8

13.

DE3, 88, 388,572-573,580, 590. DE4, 44,59, 1 24, 608, 650-65

DE2, 74,

(DE2, 801).

ll4,

116, 126,209,270, 522,524, 720, 800-801.

éa

maneira como o poder do médico

1.

4r. BASAGLIA, Franco (1924-1980)

O que Basaglia, como

Berúeim e Laing, problematizou

estava implicado naverdade do que dizia,

taxativa entre os que têm

a

*

A característica das instituições médicas

é

uma separação

verdade e os que não a têm (DE2, 681). BASAGLIA, tranco

5l

Yer Antipsiquiatria. Franco Basaglia [16]:D82,209,233,681,684-685,

693,773. DF.3,350-351.

D8{594

BATAILLE, Georges (1891-1962)

4§.

n' 195-196, agosto-setembro de 1963, 751-769; 233-250) constitui uma homenagem à obra de Bataille. "Talvez a emer-

O "Préface à la transgressiori' (Critique, reimpressão em

DEl,

gência da sexualidade em nossa cultura seja um acontecimento com múltiplos valores: ela está

ligada à morte de Deus e a esse vazio que ela deixa nos limites de nosso pensamento; ela está ligada também ao surgimento, ainda que surdo e tateante, de uma forma de pensamento no qual interrogação acerca do limite substitui a busca da totalidade e no qual o gesto da transgressão substitui o movimento das contradições (DE1, 248).Yer: Limite, Transgressao. a

Georges Bataille [101]: DEl,233-236,238,240-247 ,249-250,268,284,329,336,339,395-396'

614-6ts. D82,25-27 ,74,80, MC, JJ9, 195. OD,23.

104- 105, 166, 412.

D83,575, 588-590. DE 4,

4:. BAUDELAIRE, Charles (1821

437

,522,525,557

43, 47 -50, 52-54, 57 , 437, 446, 608.

HSI,

1

,

98.

1867)

Em um dos artigos sobre a famosa resposta de Kant à pergunta "O que é o Iluminismo?'l tm êthos, ou seja, como uma atitude, e não como uma

Foucault aborda a Modernidade como

época. Aqui, para caracterizar a atitude de Modernidade, aparece a figura de Baudelaire. Dois textos constituem as referências de Foucault a esse respeito: Le Peintre de la vie moderne e De

l'hérolsme de la vie moderne (em Oeuvres complàtes,Paris, 1976, t. II). Com base neles, sáo indicadas quatro características da atitude de Modernidade: I ) Fazer heroico o presente. A atitude de Modernidade, à diferença da moda, não consiste apenas em seguir o curso dos tempos. Não se define simplesmente peio

fugitivo, pelo passageiro; mas, ao contrário, por agarrar o que há de

eterno no momento que passa. 2) Um heroísmo irônico. A Modernidade, para Baudelaire, é um exercício em que a atenção extrema ao real se confronta com uma prática da liberdade que, ao mesmo tempo, respeita

e

viola o real. 3) Uma relação que

é

necessário estabelecer consigo mesmo

(dandismo). Ser moderno náo consiste em aceitar-se a si mesmo tal como se é, mas em tomar-se a si mesmo como o objeto de uma elaboração complexa e exigente (ascetismo). 4) Para Baudelaire, essa

atitude só pode ter lugar na arte,

e

Charles Baudelaire [41 ]: DEl, 246, 37 3, 25,241.}l52,17. NC, 175. SP,72.

não na sociedade ou na política (D84,569-571).

377 .

568-571. HS,

i=

BECCARIA, Cesare (1738-1794)

Yer'. Prisao.

52

BATAILLE, Georges

DE2, 132, 708, 715, 748, 782. DE3, 490. DE4, 392, 446'447, 494,

Cesare Beccaria 156/: N4,8,26, I

463.DE4,11,

{e.

B

16.

PP,

19

18. SP, 14-1s,77,93

DE2, 207 -208, 461-463,

589

-593, 596, 603, 606, 620, 7 26, 726. DE3, 357. 452.

95-98, 106, 108-109, I 19, 130.

EHAVIORISMO (Beh avio ri sme)

Psicologia. Foucault escreve a seção "La psychologie de e

1850 à 1950" da obra de D.

Huisman

A. Weber, Hl stoire de la philosophie européenne (t.11 Tableau de la philosophie contempo-

raine,Paris1977,59l-606).EssetextofoireimpressoemDEl,

120-137).Assuasconsiderações sobre o behaviorismo aparecem sob o título "O estudo das significações objetivas'i O behaviorismo, segundo Foucault, busca 'b sentido adaptativo das condutas a partir das manifestações objetivas do comportamento. Sem fazer intervir a experiência vivida, nem tampouco o estudo das estruturas nervosas e seus processos, deve ser possível encontrar a unidade do comportamento confrontando a análise dos estímulos e das reações"

(DEl,

130). Foucault distingue duas

espécies de behaviorismo: molecular (realíza a análise em seus segmentos mais elementares)

molar (segue

as

articulações significativas do conjunto, Tolman).

e

História do conhecimento.

Os estudos históricos de Foucault deixam pouco espaço à criatividade dos indivíduos. Nesse sentido, se poderia pensar em certo behaviorismo no trabalho de Foucault (DE2,490). A questão

foi suscitada em um debate televisivo com Choms§. Esse, com efeito, combate o behaviorismo na linguística, a fim de recuperar a criatividade do sujeito. Para Foucault, a questão do sujeito

diferente no behaviorismo e na história do conhecimento. Aqui se torna difícil atribuir a um inventor os fenômenos coletivos ou gerais. Por outro lado, a história se apresentava como um é

obstáculo para o acesso do sujeito

à

verdade (mitos, preconceitos, etc.). Para Foucault, no entanto,

trata-se de analisar a capacidade produtiva do conhecimento como prática coletiva e de ressituar os indivíduos e seus conhecirnentos no desenvolvimento do saber Béhaviorisme

=*.

[

1

4] :

DEl,

I

(DE2, 480).

30. DE2, 480, 490, 49 1, 492.

BENJAMIN, Walter

('18e2-1940)

Foucault se refere ao estudo de Benjamin sobre Baudelaire ("Über einige Motive bei Baudelaire'l Zeitschrifi

für

Sozialfurschung, n" VIII, 1939, p. 50-89) a propósito da noção de

'tstética da existência' (HS2, l7). Walt e r

B

enj

a

min

[ 5 ] : DE3, 84, 390. DE4, 447. HS2, 1 7.

:i:. BENTHAM, Jeremy (1148-1832)

"Peço desculpas aos historiadores da filosofia por esta afirmação, mas eu creio que Bentham é mais

importante para nossa sociedade que Kant ou Hegel. Dever-se-ia render-lhe homenagem em cada uma de nossas sociedades. Foi ele quem programou, deÍiniu e descreveu, da maneira mais precisa, BENTHAM, Jeremy

53

formas de poder em que vivemos, e quem apresentou um maravilhoso e célebre pequeno modelo desta sociedade da ortopedia generalizada: o famoso Panóptico" (DE2, 594). Ver: as

Disciplina, P anóptico. leremy Bentham [109]: DF,2,31

1, 430, 437, 444,589-591, 594, 606-608, 729.

452,466,4r'3-474,576,626,628,821.D84,18,28,

DE3,

190- 191, 194-200,202 206,

186,639. PP, 43,62,75-80,92-93, 103-105, 108. SP' 175,201-207,

209-210, 218, 226, 252, 268.

==,

BERGSON, Henri (1Bse-1e41), BERGSONISMO (Bergsonisme)

Bergson vai no sentido contrário quando busca no tempo, e contra o espaço, as condiçÕes sob as quais é possível pensar a individualidade. Com a formação da clínica, o indivíduo se ofereceu ao saber através de um longo movimento de espacialização. Bichat, um século antes de Bergson, deu uma lição mais rigorosa a esse respeito; a morte se converteu no espaço de * abertura do indivíduo à linguagem e ao conceito (NC, 174-175). "Quando eu era estudante, uma espécie de bergsonismo latente dominava a filosofla francesa. Digo bergsonismo, nào que tudo isso tenha sido a realidade de Bergson, longe disso. Havia certo privilégio concedido a

todas as análises temporais em detrimento do espaço, considerado como algo morto e fixo"

(D83,s76). Henri Bergson

IIZ:

AN, 232,246. DEI,342, 770,782. DE2, 106,229.D83,34,193,541,576.DF4,455'764.

MC, 170,258. NC, t75.OD,79. Bergsonisme [4] : DEl, 342. DE3,

5=.

6.

57

BICHAT, François Xavier (1171-1802)

Yer Clínica François Xavier Bichat [112]: AS, 47,48, 72,166,189.DF,L,123,625,713.D82,29,58,481,490,676.D83,36, 51,209,2t4,437. DE4,772.}{F,471. IDS, 189. MC, 138, 245. NC, VIII, lX,74, t23, ].27,128, r29,130, t3t,132,133,

134,136,t40,142,143,t44,t45,t47,t48,149,151, 152,153, 155, 156, i57, 158, 159,t64,169,170,17t,175,177,t78, 179, 180, l8s, 188, 189, 190, 192, 193, 199,201,202,212. PP, 18s, 196-197,300-301,304-305,325.

=4.

BINSWANGER, Ludwig

(1881-1e60)

Foucault dedicou uma extensa introduçáo à tradução francesa da obra de Ludwig Binswanger,

Le rêve et lbxistence (DEl, 65-119). "Na antropologia contemporânea a obra de Binswanger nos parece que segue a via real. Ele

tomou de viés'

o

problema da ontologia

e da

antropologia,

indo diretamente à existência concreta, seus desenvolvimentos e seus conteúdos históricos"

(DEl, ea

j.1

67). Esse texto pode ser considerado como o ponto de maior aproximação entre Foucault

fenomenologia. Ver: Antropologia, Fenomenologia. BERGSON,

Henri, BERGSONISMO (Berçrsonisme)

377

Luilwig Binswanger [57]: DEl,65,67,68,79, .DE4,58. IDS, 19. MMPB,62,66,67,68,69,111.

=5.

80,

8i,

83, 87, 90, 93, 96, 98, 100, 103' 104,

MMPS, 62, 66, 67, 68, 69,

i07'

108, 1 17, I 19, 136,

105.

BIO-H ISTORIA (Bio-h istoi re)

Poder-se-ia chamar desse modo as pressões pelas quais os movimentos da história interferem com os processos da vida (HSl, 188). Yer: Biopoder. Bio-histoire [9]: DE3, 48,57,95,97,207-208. HSr,

=+.

BIOLOG

lA

(B

188. PP, 12, 298.

iolog i e)

As condições de possibilidade da biologia. Podemos pensar a análise foucaultiana do saber, a descrição arqueológica, como o efeito de um olhar vertical. Com efeito, Foucault não aborda a história do conhecimento em termos de continuidade, mas de descontinuidade. Por isso, em lugar de lidar com ela em termos de evoluçáo, do que antecipa e do que realiza, que o faz emtermos de ruptura. Foucault, de fato, pergunta-se acerca do que torna possível do possibilidade de condições As dado. certas coisas tenham podido ser ditas em um momento saber são condições ao nível da simultaneidade (MC, l4). Por isso pode aflrmar, sem causar estranheza para o leitor advertido, que nem abiologia (nem os outros saberes da Moderninem a vida existiam antes do século XIX. Durante a dade: a economiq política, a

filologia)

é época clássica, só existiam os seres viventes e a História Natural (MC, 139, 173). Porém, necessário precisá-lo; quando desaparece a episteme clássica, a biologia não vem substituir a História Natural;antes, ela se constitui ali onde essa não existia (MC, 220).* Lamarck, com

sua noção de organização, encerrou a época da História Natural e entreabriu a da biologia (MC,243).* A partir de Cuvier, a noção defunçao,que certamente existia na época clássica, vai desempenhar um novo papel e, consequentemente, será definida em outros termos. Na época clássica, a noção de funçao era utilizada para estabelecer, por identidades e diferenças, a ordem das coisas. Com Cuvier, no entanto, ela será o termo médio que permitirá vincular conjuntos de elementos desprovidos de toda identidade. Surgiráo, então, novas relações: de

coexistência (um órgão ou um conjunto de órgãos náo podem estar presentes em um animal sem que outro órgão ou conjuntos de órgãos também o estejam), de hierarquia interna (o sistema nervoso aparecerácomo determinante de toda disposição orgânica), de dependência com respeito a um plano de organização (a preeminência de uma função implica que o organismo responda a um plano). A diferença da História Natural, não encontramos um campo unitário de visibilidade e ordem, mas uma série de oposições cujos termos não se situam ao mesmo nível (órgãos secundários, visíveis/órgáos primários, ocultos; órgãos/ funções). 'A vida não é mais o que se pode distinguir, de maneira mais ou menos certa, do mecânico; ela é aquilo no que se fundam todas as distinções possíveis entre os viventes. E esse passo da noção taxonômica à noção sintética de vida que é indicada, na cronologia das ideias e das ciências, como um florescimento, no começo do século XIX, dos temas vitalistas. BIOLOGIA (Biologte)

55

Desde o ponto de vista da arqueologia, o que se instaura nesse momento, são as condições de possibilidade de uma

biologia" (MC, 281). * Do século XVIII

modificou fundamentalmente

a

ao

XIX,

a

cultura europeia

espacialização do vivente. Para a época clássica, o vivente era

uma cela ou uma série de celas no quadro taxonômico dos seres. A partir de Cuvier, os seres viyos se envolvem sobre si mesmos e rompem suas proximidades taxonômicas. Esse novo espaço é o espaço das condições da vida (MC,287). A ruptura do espaço clássico permitiu

descobrir uma historicidade própria da vida, aquela da manutenção de suas condições de existência. 'A historicidade [forma geral da episteme moderna] foi introduzida, então, na natureza ou, melhor, no vivente; mas ela é mais que uma forma provável de sucessão, pois constitui algo como um modo de ser fundamental" (MC, 288). Animalidade, morte. Posto que só os organismos podem morrer, é desde as profundezas da vida que sobrevém a morte. A vida, nesse sentido, torna-se selvagem; daí os novos poderes da animalidade, seus novos poderes imaginários (}{C,289-291). O objeto da História Natural na época clássica

conjunto de diferenças que podem ser observadas; o objeto da biologia é o que é capaz viver e é susceptível de morrer (D82, 55). Cuvier e a história da biologia (Geoffroy de Saint-Hilaire, Darwin). Em Dlfs et Ecrits (D82,30-66) encontra-se uma extensa discussão acerca da situação de Cuvier na história da biologia. Ali, Foucault defende e precisa a sua posição a esse respeito. A taxonomia clássica, da História Natural, era uma ciência das éo de

espécies; definia as diferenças que separam umas espécies de outras e as classificaYa para

estabelecer entre elas uma ordem hierárquica. O problema da História Natural consistia, então, em determinar como estabelecer espécies bem fundadas. Desse modo, surge a polêmica entre sistematizadores (partidários de um sistema artiÍicial) e metodistas (defensores de um método natural). Para Darwin, contudo, deve-se começar pelo conhecimento do indivíduo e de suas variações. A obra de Cuvier tornou possível essa transformação. Com a introdução da

anatomia comparada, mostrou-se que as categorias subordinadas ou superiores à espécie não são regiões de semelhança, mas tipos de organização. De agora em diante, pertencer a uma espécie será possuir uma determinada organização (e não possuir certas características). O

conjunto de estruturas anatômico-funcionais, fisiologicamente dirigidas, define as condiçoes de existência do indivíduo. "Por condições de existência, Cuvier entende o enfrentamento de dois conjuntos: por um lado, o conjunto das correlações que são fisiologicamente compatíveis umas com as outras; por outro, o meio em que vive, isto é, a natureza das moléculas que tem que assimilar, pela respiração ou pela alimentação"

(D82,34). x Cuvier

e

Geoffroy

de Saint-Hilaire resolveram um mesmo problema: como marcar uma identidade orgânica

seguindo uma constante que não nos é dada imediatamente? Cuvier recorreu à noção de função; Saint-Hilaire a rechaça e a substitui pelo princípio da posição e da transformação no

(D82,42). Ecologia. A integração da ecologia à biologia foi realizada por Darwin (D82,56). Ciências humanas (A psicologia). Foucault fala de modelos constitutivos

espaço

das Ciências Humanas, aqueles que foram tomados das ciências empíricas, como a

biologia.

Nesse caso, se trataria da oposição função-norma. Ainda que esse modelo tenha servido

particularmente para a formação da psicologia, também exerceu sua influência nas outras ciências humanas, como na região sociológica (MC, 366-369). "Poder-se-ia admitir então que a'região psicológica tenha encontrado seu lugar ali onde o ser vivente, na prolongação de suas funções, de seus esquemas neuromotores, de suas regulações fisiológicas, mas também

56

BIOtOGIA (Bioloqie)

na suspensão que os interrompe e os limita, se abre à possibiiidade da representação [...]" (MC,367). Raça. "Mas o que é noyo no século XIX é o surgimento de uma biologia de tipo racista, inteiramente centrada em redor da concepção da degeneração. O racismo não foi primeiramente uma ideologia política. Foi uma ideologia científica enaltecida por toda parte, em Morel e nos outros. E a utilização política foi levada a cabo primeiro pelos socialistas, pela esquerda, antes que pela direita" (D83,324). Modernidade. Desde o momento em que a espécie ingressa no

jogo das estratégias políticas, alcançamos o "umbral da Modernidade

biológica" (HS1, 188). A partir do século XVIII, a vida (DE4, 194). Yer: Animalidade, Biopoder, Racismo.

se

converteu em um objeto de poder

Biologie [229]: AN,57, 289. AS, 44, 50,7 1,78, 200, 225, 226, 227 , 229,235, 245, 252, 269. DEl, 124, 142, 152, 514,540,594,611,657,666,674,676,679,7t7,72]l,727,728,729,785,800,806,821,833,838,843.D82,8,11,27,28, 30,31,36,38,39,43, 44,48,49,50,51,55, 56,57,59,62,64,65,66,67,99, i00,

101, 102, 103, 104, 162,

t64,t68,220,

280,371,405,473,474,475,476,486,524,676.D83,95,96,143,157,235,324,434,438,439,440,44),,533.DE4,56, 67,223,517,768,770,773,774,715,784.HF,47).

HSr,46,73,t02,204.IDS,52,170.MC,13,14,t39.t71,173,179,

219,220,230,232,233,243,245,25r,258,259,264,265,277,281,287,292,294,307,321,323,356,358,360,361,363, 365, 366, 367, 368, 372, 377, 389, 393, 396.

5?.

BIOP0DER

(B i o- Po

OD,

36, 37, 66.

uvoi r)

Disciplina, biopolítica. Dos textos publicados até o momento,' o último capítulo de La volonté de savoir e o curso de 17 de março de 1976 de "Il faut défendre Ia société" devem ser considerados corno os textos fundamentais de referência acerca do biopoder. No primeiro, a questão do biopoder aparece em seguida à descriçâo da formação do dispositivo de sexualidade e

termina na questão do racismo moderno, um racismo biológico

e de

Estado.

No segundo, o biopoder aparece ao flnal de um extenso percurso, no qual Foucault analisa as transformaçôes do conceito de guerra de raças. Em um e no outro, o biopoder se mostra em sua dupla face: como poder sobre a vida (as políticas da vida biológica, entre elas as políticas

da sexualidade) e como poder sobre a morte (o racismo). Trata-se, definitivamente, da estatização da vida biologicamente considerada, isto é, do homem como ser vivente. A formação do biopoder, segundo Foucault, poderia ser abordada a partir das teorias do direito, da teoria

política (os juristas dos séculos XVII e XVIII colocaram a questão do direito de vida e morte, a relação entre a preservação da vida, o contrato que dá origem à sociedade e a soberania) ou ao nível dos mecanismos, das técnicas e das tecnologias do poder. Foucault se situa nesta

última perspectiva (IDS, 214-215). * A partir da época clássica, assistimos no Ocidente

a

urna profunda transformação dos mecanismos de poder. Ao antigo direito do soberano de fazer morrer ou deixar viver se substitui um poder de fazer viver ou abandonar à morte. O poder, a partir do século XVII, organizou-se em torno à vida, sob duas formas principais que não são antitéticas, mas que estão atravessadas por uma rede de relações. Por um lado,

disciplinas, tma anátomo-política do corpo humano. Elas têm como objeto o corpo individual, considerado como uma máquina. Por outro lado, a partir de meados do século as

I

Depois da publicação da edição original argentina do I/ocaóuldrío

de

MicAel Foucauh en2l)04, até Íevereiro de 2009, foram

publicados os segrrintes cursos: À'onwnce de la óhpolitiquc (Pa:js: Seuil/Gallimard. 2001); Sécurití, terrinire

(Paris: Seuil/Gallimard.200,l): Le goutememeu de soi et

des autre.s

(Paris: Seuil/Gallimard.2u(t8).

et

population

(N.T.)

BIOPODER \Bio-Pauvoir)

57

XVIII, uma biopolítica da populaçao,do corpo-espécie.

Seu objeto será o corpo vivente, suporte dos processos biológicos (nascimento, mortalidade, saúde, duração da vida) (HS I , 183). . "Sabemos quantas vezes foi colocada a questão do papel que pode desempenhar,

durante toda a formação do primeiro capitalismo, uma moral ascética; mas o que ocorreu no seculo XVIII, em alguns países do Ocidente, e que está ligado ao desenvolvimento do capitalismo, é um fenômeno de outro tipo e talvez de maior amplitude que essa nova moral que parecia desqualiflcar o corpo; isso foi, nem mais nem menos, o ingresso da vida na his-

tória[...]"(HS1, 186).Pelaprimeiravez,ofatodevivernãoconstituiumabasequeemerge vez em quando, peia morte e a fatalidade, entrando no campo de controle do saber e das

intervençoes do poder (HS1, 187). Capitalismo. O biopoder foi um elemento indispensáve1 para o desenvolvimento do capitalismo. Serviu para assegurar a inserçáo controlada dos corpos no aparato produtivo e para ajustar os fenômenos da populaçào aos processos econômicos (HS1, 185). Sexualidade. O sexo funciona como dobradiça das duas direções em que se desdobrou o biopoder: a disciplina e a biopolítica. Cada uma das quatro grandes

políticas do sexo, que se desenvolveram na Modernidade, foi uma maneira de compor as técnicas disciplinares do indivíduo com os procedimentos reguladores da população. Duas delas se apoiaram na problemática da regulação das populações (o tema da descendência, da saúde coletiva) e produziram efeitos ao nível da disciplina: a sexualização da infância e a histerização do corpo da mulher. As outras duas, inversamente, apoiam-se nas disciplinas e obtinham efeitos ao nível da população: controle dos nascimentos, psiquiatrização das perversoes.

(HSl,

191-193) Sangue e sexualidade. "São os novos procedimentos do poder,

elaborados durante a época clássica e postos em funcionamento no século XIX que fizeram

simbólica do sangue [poder derramar o sangue, possuir o mesmo sangue] auma analítica da sexualidade.Íl claro, se há algo que está do lado da lei, nossas sociedades passarem de u,ma

da morte, da transgressão, do simbólico e da soberania é o sangue. A sexualidade está do lado

da norma, clo saber, da vida, do sentido, das disciplinas e das regulações. Sade e os primeiros

eugenistas são contemporâneos dessa passagem da 'sanguinidade' à 'sexualidade"' (HSl, 195) Racismo. "o racismo, creio eu, assegura a função de morte na economia do biopoder [ . ]" (IDS, 230) Lei, norma, sociedade normalizadora. "O principio: poder matar para poder viver, que sustentava a tática dos combates, converteu-se no princípio de estratégia dos Estados; mas a existência em questão não é aquela jurídica, da soberania, mas a biológica, de uma população"

(HSl,

180). Por isso, a importância crescente da norma, e consequen-

temente da normalidade, em detrimento do sistema jurídico da lei (HSf , lS9). 'A norma é o que pode aplicar-se tanto a um corpo que se quer disciplinar como a uma população que se

quer regtlarizar. A sociedade de normalização não é, pois, nestas condições, uma espécie

de sociedade disciplinar generahzada, cujas instituições disciplinares teriam colonizado

e

finalmente recoberto todo o espaço. Essa é só uma primeira interpretação, e insuficiente, da ideia de sociedade de normalização. A sociedade de normalizaçâo é uma sociedade onde se cruzam, segundo uma articulação ortogonal, a norma da disciplina e a norma da regulação'

A sexualidade é um exemplo maior desse cruzamento ortogonal de disciplina biopolítica. Mas também, por exemplo, a cidade ideal, a cidade operária, a cidade utópica do século xlx (IDS, 223-224). "Uma sociedade normalizadora é o efeito histórico de uma (IDS, 225).

e

tecnologia de poder centrada na vida" (HSf , 190). Esta forma do poder, ao mesmo tempo 5B

BIOPODER (Bio-Pouvoir)

individualizante e totalizante é, para Foucault, a característica fundamental do poder moderno: "[...] desde o começo, o Estado foi, ao mesmo tempo, individualizante e totalitário"

(D84,

161). 'Ao conseguir combinar esses dois jogos, o jogo da cidade e o cidadão e o jogo pastor do e do rebanho, no que chamamos de Estados modernos, nossas socieclades se revelaram verdadeiramente demoníacas" (DEa, 147). soberania. o poder, organizado em

termos de soberania, tornou-se inoperante para manejar o corpo econômico e político de uma sociedade em vias de expiosão demográÍrca e, ao mesmo tempo, de industrialização. Por isso, de maneira intuitiva e ao nível local, apareceram instituiçÕes como a escola, o hospital, o quartel, a fábrica. Em seguida, no século XVIII, foi necessária uma nova adaptação do poder para enfrentar os fenômenos globais de população e os processos biológicos e sociológicos das massas humanas (1D5,222-223). Conhecimento. Se a questão do homem tbi coloçada em relação com sua especificidade de ser vivente e em suas relaçoes com os outros viventes, foi em razão do ingresso da vicla na história. (HS1, 189) * É impossível fechar o balanço da questão do poder em Foucault até que se tenha publicado a totaliclade dos cursos no Collàge os cursos de 1972-1973, dedicados a La société punitive, de 1973-1974, a Le

cle France.

pouvoir psychiatrique, para o conceito de disciplina. Os cursos de 1977-1978, Sécurité, territoire, population, de 1978-1979, I'laissance de la biopolitique, e de 1979-19g0, Du Souvernement des vivants, para o conceito de biopolítica. No momento, além do material depositado no Fond Michel Foucault, atualmente no IMEC (Institut pour la Mémoire de l'Édition Contemporaine), em Paris, só dispouros dos resumos nos annários do Collêge de France.2 Ver também: Biopolítica, Disciplina, Governo, Liberalismo, Medicina, Norma, Populaçao, Poder, Polícia, Razao de Estado.

i*

Bio-pouvoir [42]; DE3,

231. D84,386.

Bl0PoLíTlcA

i

(B

HSr,

183, 185-186, 189.

IDS,2l3. 216,220-221,226-234.

opol iti q u e)

"Pois bem, tudo isto começou a ser descoberto no século XVIII. Percebe-se, consequentemente, que a relação do poder com o sujeito, ou melhor com o indivíduo, não deve ser simplesrnente essa forma de sujeição que permite ao poder tornar dos sujeitos bens, riquezas e, eventualmente, seu corpo e seu sangue, mas que o poder deve exercer-se sobre os indivíduos, uma vez que eles constituem uma espécie de entidade biológica que deve ser levada em consideração, se queremos, precisamente, utilizar essa população como máquina para produzir, para produzir riquezas, bens, para produzir outros indivíduos.

o descobrimento

da população é, ao mesmo tempo qr,re o descobrimento do indivíduo

e do corpo adestrável ldressablel, o outro núcleo tecnológico em torno ao qual os procedimentos políticos do ocidente se transformaram" (DE4, 193). * Há que entender

por "biopolítica" a maneira pela qual,

a partir do século XVIII, se buscou racionalízar os problemas colocados para a prática governamental pelos fenômenos próprios de um

i

Dos ctrrsos aqui referidos, Nai-ç.çatcede la àiol,olitigue (Pails: Seuil/Gallimard, 2004) e Sécurité. territoire et yopulation (Paris: Seuil/Gallimard. 2004) foram publicados depois da edição original argentina do tr ocabulário. Du gouvemement des

yiyants ainda está inédito.

(N.T.)

BloPoLÍTtcA (Biopotitique)

59

conjunto de viventes enquanto população: saúde, higiene, natalidade, longevidade, raça (D83, 818). Essa nova forma do poder se ocupará, então: 1) Da proporção de nascimentos, de óbitos, das taxas de reprodução, da fecundidade da população. Em uma palavra, da demografia. 2) Das enfermidades endêmicas: da natureza, da extensão, da duração, da intensidade das enfermidades reinantes na população; da higiene pública. 3) Da velhice, das enfermidades que deixam o indivíduo fora do mercado de trabalho. Também, então, dos seguros individuais e coletivos, da aposentadoria.4) Das relações com o meio geográfico, com

o clima. O urbanismo e a ecologia.

Disciplina.

Se

compararmos uma e outra forma de poder,

podemos diferenciá-las da seguinte maneira: 1) Quanto ao objeto: a disciplina tem como objeto o corpo individual; a biopolítica, o corpo múltiplo, a população, o homem como ser vivente,

pertencente a uma espécie biológica. 2) Quanto aos fenômenos considerados: enquanto as disciplinas consideram os fenômenos individuais, a biopolítica estuda fenômenos de massa, em série, de longa duraçã0. 3) Quanto aos seus mecanismos: os mecanismos das disciplinas são da ordem do adestramento do corpo (vigilância hierárquica, exames individuais, exercícios

repetitivos); os da biopolítica são mecanismos de previsão, de estimativa estatística, medidas globais. 4) Quanto à finalidade: a disciplina se propõe obter corpos economicamente úteis e politicamente dóceis; a biopolítica persegue o equilíbrio da população, sua homeostase, sua regulação (ÍDS,2l6-220). .

'[...] o poder é cada vez menos o direito

de fazer morrer e cadavez mais o direito de intervir parafazer yiver, e sobre a maneira de viver, e sobre o tomo' da vida; a partir desse momento, então, em que o poder intervém, sobretudo a esse nível, para ampliar

vida, para controlar os acidentes, o aleatório, as deficiências, em suma, a morte, como fim da vida, é evidentemente o fim, o limite, o extremo do poder" (IDS, 221). Liberalismo. Não a

se pode dissociar o nascimento da

biopolítica do marco de racionalidade política dentro do qual surgiu, isto é, do liberalismo (DE3, 818). Ver também: Biopoder, Disciplina, Governo, Populaçao, Razao de Estado. Biopolitique [j5]:DE3,9s,97,210,723,818. DE4, 193-194,826. HSl,

=*.

183, 185, 188.

IDS,2i6-219,234.

BISSEXUALI DADE (B isexua I ite)

A propósito dos gregos, pode-se falar em bissexualidade, apenas se com isso se quer fazer referência ao fato de que se podia amar simultaneamente a um jovem ou a uma jovem. Mas, nisso, não se reconheciam duas espécies de desejo ou pulsão (HS2, 208). Bisexualité [ 3 ] : DE4,

=*.

332.

HS2, 208.

BLANCHOT, Maurice (1907

2003)

"Blanchot é, de certa maneira, o Hegel da literatura, mas, ao mesmo tempo, encontra-se no lado oposto ao de Hegel" (D82, I24). Essa afirmação nos permite medir a importância que Foucault atribuía a Blanchot e a posição que ele ocupa. Como a Raymond Roussel, com

60

BISSEXUALIDADE (Bisexua lité)

quem frequentemente o yincula (DE1, 168), dedicou-lhe um escrito inteiro: La pensée du

dehors (aparecido primeiramente em forma de artigo, em Critique lrf 229,junho de 1966, 523-5461, depois em separado e, finalmente, reimpresso em DEl, 518-539). "Durante um

longo período, houve em mim uma especie de conflito mal resolvido entre a paixão por Blanchot, Bataille e, por outro lado, o interesse que alimentava por determinados estudos positivos, couro os de Dumézil e de Levi-Strauss, por exemplo. Mas, no fundo, essas duas orientaçÕes, cujo único denominador comum fosse talvez constituído pelo problema religioso, contribuíram em igual medida para conduzir-me ao tema do desaparecimento do sujeito" (DE1,614). Literatura e representação, "o fora" e a interioridade. Em

sentido estrito, o que se deve entender por "literatura" não é da ordem da interiorização, mas de um passo em direção ao fora. A linguagem escapa, então, ao modo de ser do discurso, à dinastia da representação. Desse modo, a literatura, como surgimento da iinguagem em seu ser bruto, mostra sua incompatibilidade com a consciência de si e a identidade (DEl, 520-521). "É verdade, é Blanchot quem tornou possível todo discurso sobre a literatura. Antes de tudo, porque foi o primeiro a mostrar que as obras se vinculam umas às outras por esta face exterior de sua linguagem onde aparece a 'literaturai A literatura é, assim, o que constitui o fora de toda obra, o que fende toda linguagem escrita e deixa em todo texto a marcavazia de um rastro. Ela não é um modo da linguagem, mas unr vazio que recorre como um grande movinento todas as linguagens literárias. Ao fazer aparecer esta instância da literatura como 'lugar comum', espaço vazio aonde as obras vêm alojar-se, eu creio que ele indicou à crítica contemporânea o que der.e ser seu objeto, o que torna possível seu trabalho, ao mesmo tempo, de exatidão e invençáo" (DEl, 293). O discurso reflexivo, contudo, pretende reconduzir a experiência do fora à interioridade, à consciência, em que, como descrição do vivido, o fora se converte em experiência (DEl, 523). Atraçâo (attirance): 'A atração é, para Blanchot, o que é, sem dúvida, para Sade o desejo, para Nietzsche a Íbrça, para Artaud a materialidade do pensamento, para Bataille a transgressão: a experiência pura do fora e a mais desnuda [...] Ser atraído não é ser convidado pelo atrativo do exterior, mas, antes, provar, Ilo vazio e no desenlace, a presença do fora e, ligada a essa presença, o fato de que se está irremediavelmente fora do fora" (DE1, 525-526). Literatura, morte.'A linguagem de Blanchot se dirige à morte. Não para triunfar sobre ela corn palavras de glória, mas para manter-se nessa dimensão órfica onde o canto, tornado possível e necessário pela morte, nunca possa olhar a morte cara a Çara nem fazê-la visível, ainda que lhe fale e fale dela em uma impossibilidade que promete o murmúrio ao infinito" (DEf , 336). Yer'. Literatura. Msurice Blsnchot

[1

20]:DEl,1

68, l 9 l. 20 1, 238, 240, 250, 168, ,129, ,136, 339, -195, -196, 408, 437,

5

1

8, 512

,5)3,5)4,

525, 526, 533, 53B,544,557.592,593. 596, 614, 615, 660. DE2, 82, 104, 105, 107, r23,124,125,126, t27,166,171,209,28r,

4t2, 425,521,7 20,763,765,800. DE3, 88, 575, 579, 588, 589, 590,7 62,788. DE4, 43, 44,

.r.

47

,.18, 52. 53, 54. 59, 437

.

BLOCH, Marc (1886-1944)

Yer: Escola dos Anais. Morc Bloch [6]: DEt,667.773.787

.

DE3, I 93, 467, 580.

BLOCH,

Marc

6

I

*:. BOPP, Franz

(1191 1B6t)

'Apenas os que não sabem ler estranharão que eu tenha aprendido mais claramente em Cuvier, em Bopp, em Ricardo que em Kant ou Hegel" (MC, 318). Foucault aqui se refere à disposição da episteme moderna, ao pensamento da finitude. Yer.. Homem, Linguagem. Franz Bopp [34]: AS, I 86, 221. DEr, 671,724,732,751. DE2, 60, 778. MC,71,264 26s, 292,294,295,297,30s, 3 I

8. 396.

+ii. BORGES,

Jorge Luis

(1899 1986)

Segundo Foucault, les mots et les choses nascetde um texto de Borges, mais precisamente de "El idioma analítico de |ohn Wilkins" (em Obras completas 1923-1972, Buenos Aires, Emecé, 1974,p.706-709). Trata-se de uma classificação de animais de certa enciclopédia

chinesa. Esse texto de Borges, segundo Foucault, põe de manifesto a heterotopia. 'A monstruosidade que Borges faz circtlar em sua enumeraçáo consiste [...] em que o espaço comum dos encontros se acha arruinado' (MC, 8). lorge Luis Borges [23]: DEl, 252,256,260,298,

544, 599. DE2, 67,223, 425,645. DE3, 84, 85.

MC,

7, 8, 9, 10.

oD,25.

6.§,

BOTERO,

G

iovanni

(i544-1 611)

Foucault se interessa pela obra de G. Botero no marco da análise da razâo de Estado. Ver:

Razão de Estado. Giovanni Botero [5]: DEa,

150, 816, 826.

s5. BOULAINVILLIERS,

Henry de (16s8

1722)

Uma parte considerável de "Il faut défendre la sociéte' está dedicada à análise da obra de Bouà educação do Duque de Bourgogne, Luís XIV requereu de seus intendentes a preparação de informes sobre cada uma das áreas de sua competência. A nobreza que rodeava o

lainvilliers. Com vistas

Duque de Bourgogne, formada em parte por um núcleo que se opunha às políticas absolutistas de Luís XII encarrega Boulainvilliers da tarefa de recodificar esses informes e transmiti-los ao duque herdeiro. Essa é a origem de État de la France dans lequel on voit tout ce qui regarde le gouvernement ecclésiastique, le militaire, la justice, les finances, le commerce, les manu-

factures, le nombre des habitants, et en général tout ce qui peut faire connattre à fond cette monarchie; extrait des mémoires dressés par les intendants du royaume, par ordre du roy Louis XIV à la sollicitation de Monseigneur le duc de Bourgogne, pàre de Louis W à présent 62

BOPP, Franz

régnant. Avec des Mémoires historiques sur lancien gouvernement de cette monarchie .iusquà Hugues Capet, par M.le comte de Boulainvilllers (London, 1727).Emprimeiro lugar, Boulainvillers reconstrói

a

situação das Gálias, antes da invasão dos francos, nesses termosr ao chegarem, os

romanos desarmarant a velha aristocracia guerreira do país e formaram uma nova aristocracia, já não de caráter militar, mas administrativo (que conhece o direito romano e se expressa em latim). Perante a ameaça das invasões, os ocupantes tiveram que recorler a uma armada de mercenários que requereu, para arcar com a sua manutenção, aumentar acarga fiscal e, conseqLtentemente, a desvalorização

empobrecimento do pais. Os francos, por sua vez, são uma aristocracia guerreira que elege um rei para guiáJa em tempo de guerra e para que faça às vezes de rnagistrado em temeo

pos de paz. Pois bem, o rei dos francos recorre aos mercenários gauleses para afirmar seu poder. Sela-se assim uma aiiança entre o trono e a antiga aristocracia guerreira gaulesa, que está reforçada pela relação da

Ig§a

com ambos. A ignorâLncia da nobre zafranca (do latim, das práticas jurídicas,

da administração) é, na análise de Boulainvilliers, a causa de sua pobreza. História e guerra. Boulainvilliers generaliza assim o conceito de guerra. Yer: Guerra. O sujeito da história. Com Boulainvillers, aparece um novo sujeito da história,o continuum histórico-político

(LDS,l5l.

HenrydeBoulaintilliers[151]:D83,126,129,302,323-324.HSr,115.IDS,43,54,101,112114,rt6,t22,t25, 127 -

152, 1s8, 170- r80, 182, 184- t8s, I 88- 190, 193, 196, 198, 201, 208.

*ij. BOULEZ, Pierre (i930-2002)

"Na época em que aprendíamos os privilégios do sentido, do vivido, do carnal, da experiência originária, dos conteúdos subjetivos ou das significações sociais, encontrar-se com Boulez e a música foi ver o século XX sob um ângulo que náo era familiar: o da longa batalha em torno ao 'formall Era reconhecer como na Rússia, na Alemanha, na Áustria, na Europa Central, através da rnúsica, da pintura, da arquitetura, ou da filosofia, da linguística ou da

mitologia, o trabalho do formal havia desafiado os velhos problemas de pensar"

e

alterado as maneiras

(D84,220).

Pierre Boulez [40]: DEI,

613.

DE3, 388,

591

-592. DE4,

1

I I - I 1 3, I I 5, 219-222, 259, 488, 490-492, 494. 534-535.

6i. BRAUDEL, Fernand (1902-198s) Yer Escola dos Anais. Fernand Braudel [ 10]: DEl,585,

587

, 607 ,773,787 . DE3,30,

I

93, 580.

*s. BROWN, Peter (1935-)

Os escritos de Peter Brown desempenharam papel de primeira orclem na abordagem foucaultiana da Antiguidade (HS2, 14). - A tarefa de ambos consistiria em estabelecer de que

BROWN, Peter

63

modo

a

sexualidade se converteu no sismógrafo da subjetividade (DE4, 172). * Brown concede

importância fundamental, em sua maneira de escrever a história, à noção de estilo. Nessa linha, podem situar-se os trabalhos de Foucault (DE4, 650, 698). Ver: Estética da existência. Peter Brown [11]:DF{'172,308,542,650,698-699. HS2, 14, NC, 181, 197.

6* BURGUESIA

(Bou

rgeo6ie)

Ilegalidade. A economia

da ilegalidade se reestruturou com a formaçáo da sociedade Por lado, encontramos a ilegalidade que concerne à propriedade (o roubo, capitalista. um por exemplo); por outro, tem-se aquela que concerne aos direitos (fraude, evasão fiscal).

Tribunais ordinários e castigos para a primeira; tribunais especiais com transações e acordos para a segunda. Tal separação recobre uma oposição de classes: a ilegalidade que concerne à propriedade será própria das classes populares; enquanto a ilegalidade dos direitos refere-se à burguesia (SP, 89-90). A ilegalidade das classes populares foi mal suportada pela burguesia em relação à propriedade imóvel e, mais ainda, com respeito à propriedade cOmerciâl e industrial (SP, 88). A reforma penal nasceu da intersecção das lutas burguesas

contra o suprapoder da monarquia e o infrapoder da ilegalidade popular (SP, 90). Sexualidade. "Não nos imaginemos a burguesia castrando-se simbolicamente para melhor recusar aos outros o direito a ter um sexo e de usá-lo à vontade. É necessário, no entanto, vê-la ocupada, a partir de meados do século XVIII, em se dotar de uma sexualidade e em constituir-se, a partir dela, um corpo específico, um corpo de classel com uma saúde, uma higiene, uma descendência, uma raça: autossexualizacâo de seu corpo, encarnação do sexo em seu próprio corpo, endogamia do sexo e do corpo" (HSl, 164). * A burguesia converteu

o sangue azul dos nobres em um bom organismo e uma sexualidade saudável e tagarela (bavarde) (HSl, 166, 168). Conhecimento histórico. Para Foucault, contrariamente ao que se diz, a burguesia foi a menos interessada, a mais reticente em historicizar seu discurso po1ítico. Contrariamente, a aristocracia foi a mais interessada. Arazão é simples. A burguesia dificilmente podia reconhecer-se para além de meados da Idade Média. Assim sendo, durante muito tempo, a burguesia foi anti-historicista. Durante a primeira parte do século XVIII, a burguesia foi partidária do despotismo ilustrado, uma forma de limitação do poder real que não passava pela história, mas pelo saber, pela filosofia, pela técnica, pela

administração. Durante a segunda metade do século XVIII, a burguesia busca escapar do historicismo exigindo uma constituição; daí, a importância do direito natural, do contrato social. A burguesia foi partidária de Rousseau (IDS, l36). O anti-historicismo da burguesia modificou-se a partir da convocação dos Estados Gerais (IDS, 187). Essa modificação foi levada a cabo através da reelaboração política da ideia de "nação'l Foucault toma como exemplo o texto de Sieyês, O que é o terceiro Estado? Abre-se caminho assim à dialetizacâo da história e, consequentemente, torna-se possível uma filosofia da história (IDS, 210-212). "Interesse da burguesia", "dominação da burguesia", repressão. "Creio que se pode deduzir qualquer coisa do fenômeno geral da dominação da classe burguesa' í DE3, 1 82 ). Para Foucault, é necessário proceder em sentido inverso. Não partir da noção

6l

BURGUESIA tBourgeotsie\

de dominação da burguesia, mas desde baixo, dos mecanismos de controle da loucura, da repressão, das proibiçoes que concernem à sexualidade. Mostrar, então, quais foram os agentes reais desses mecanismos de controle: o entorno imediato, a família, os pais, os médicos, a polícia. O sistema da burguesia poderia ter sustentado o contrário. Seu interesse se dirige não tanto aos efeitos quanto aos mecanismos. "Mais ainda: as noções de 'burguesia' e

'interesse da burguesia carecem provavelmente de conteúdo real, pelo menos a respeito dos problemas que acabamos de ver agora. Não foi a burguesia que pensou que a loucura

devia ser excluída ou que a sexualidade inÍàntil devia ser reprimida, mas que, a partir de um determinado momento e por razões que é necessário estudar, os mecanismos de exclusão da loucura, os mecanismos de vigilância da sexualidade infantil procuraram certo benefício econôrnico, certa utilidade política e, de súbito, tbram colonizados e sustentados por mecanismos globais e, finalmente, por todo o sistema do Estado" (D83, 183; IDS, 29). Foucault reage aqui às posições de Whilhelm Reich (DerEinbruch der Sexualrnoral, Berlin, 1932) e Reimut Reiche (Sexualittit und Klassenkampf, Frankfurt, 1969). * Do

princípio de dominação cla burguesia, se poderia deduzir exatamente o contrário do que foi deduzido; por exemplo, que, desde o momento em que a burguesia se converte em classe dominante, então, não são mais desejáveis os controles da sexualidade inÍàntil, mas a aprendizagem sexual, a precocidade sexual, para reconstituir pela sexualidade a força de trabalho (IDS, 28). Monarquia, discurso jurídico. "[...] a burguesia que, ao meslno tempo, se aproveitava do desenvolvimento do poder real e da diminuição, da regressão dos sistemas t'eudais, tinha todo o interesse em desenvolver esse sistema de direito que lhe permitia, por ontro lado, clar forma aos intercâmbios econômicos, que asseguravan-l seu próprio desenvolvimento social. De modo que o vocabulário, a forma do direito, foi o sistema de representação do poder comum à burguesia e à monarquia. A burguesia e a monarquia conseguiram estabelecer pouco a pouco, desde finais da Idade Média até o século XYIII, uma tbrma de poder que se representava, que se oferecia como discurso, corno linguagem: o yocabulário jurídico" (DE4, 185). Ver também: Família, História. Bourgeoisie [298]: AN,241,255.4S,91,92,93. DEl, 382, 569, 576,577,666,688,759.D82,69,

115,

Il9,

120,

16r, 185, 187, 188, 191, 193.224,272,302,309, 311,325,334,335, 336,342,344,345, 347,349,351,352,353,35s,356, 357, 358, 36 1, 362, 368, 400, 422, 435, 436, 437 , 440, 442. 503,508, 525, 53

l,

7\9,722,725,727,728,730,738,743,744,745,747,748,758,779,783,812.

D83,74,79,93,

533, 534, 535, 597, 598, 600, 60.1, 650, 654, 101, 130, 181, 182, 183, 198,

t99,203,2tt,216,225.307,311, 376,379,42t,486.502,558,702,7t4,785,806. DE4,31, 62.,85,94. u4, 185, 189, -j71, 502,640. HF,74, 105. HSl,9, 15, 159, 163, 164, 165, 166, 168, 169. IDS, 28,29,30,86,88, l13, 115, 116, 126, 145, 146, 158, 169, r76, 183, 184, 186, 187, 188, t9,r, 210,21r. MC,356,379. NC, 7.+. pp,59-60, l12. Sp,8s,86,87,88,39,90, 22-r,279,290,295.

BURGUESIA

(Bourgeotste)

65

ã*. CABANIS,

Pierre Jean George (1757

1B0B)

Asilo. Cabanis concebe a ideia de um'diário de asilo" no qual se registram de maneira escrupulosa: o quadro de cada enfermidade, os efeitos dos remédios, a abertura de cadáveres, Inclui também um registro por nome dos internados (HF, 550). Clínica. Acerca da intervenção de Cabanis na organizaçao da medicina após a Revolução, ver:

Clínica.

Pierre Cabanis [68/: DE3,216. HF,531,543-544,546-551,553,573,575,585,640,649,686-687. MMPE,

79.

NC,

40-41,46-48,57,59,6t,64,7475,78-8t,98,t17-119,122,132,136,r48,174,208.

;r. CADÁVER (Cadavre) Com a medicina anatomopatológica, com François Xavier Bichat, o cadáver e a morte se convertem no lugar da verdade do corpo e da vida. Yer Clínica. Cadawe [70]: AN,21,78, 104,270. DEl, 152,211,227,689. DE2,398,490,687. DE3, 132'219'501's03 504,658, 778.DF4,123. HF, 31, 382,660. HS, 291, 299. HS2, 171. IDS, 90. MMPE, 61, 66-67. MMPS,61,66-67 . NC, 126, 127, 't35-136, 142-143, 151, 162,165- 1 66, 68, 170-172,200. F.P., 62,72,1 96, 202. SP, 1

?: CANGUILHEM, Georges "Mas excluam Canguilhem

e

17

, 48,54, 55, 197

.

(1904-1ges)

não entenderão muito de toda uma série de debates que teve

lugar entre os marxistas franceses; tampouco captarão o que há de específico em sociólogos como Bourdieu, Castel, Passeron, o que os marca tão fortemente no campo da sociologia; vocês perderáo todo um aspecto do trabalho teórico dos psicanalistas e em particular dos lacanianos. Mais ainda, em todo o debate de ideias que precedeu ou seguiu o movimento de 1968, é fácil encontrar o lugar daqueles que, de perto ou de longe,

tinham sido formados por

Canguilhem' (D84,763-764). Arqueologia. As análises de Canguilhem mostram que 66

CABANIS, Pierre Jean George

a

história de um conceito não

éa

história de seu aperfeiçoamento progressivo, do crescimento

de sua racionalidade, mas dos diferentes campos de constituição e validade, de suas regras sucessivas de uso. Canguilhem distingue, ademais, entre as escalas micro e macroscópicas na história das ciências (AS, 11). * Foucault tomou de George Canguilhem o termo "monumento'l

(DEl, 682,708). História das ciências. Repetidas um esquema de interpretação da filosofia do século XX na França que responde a dois conceitos fundamentais. A filosofia contemporânea na França teria começado com as conferências pronunciadas por Husserl em 1929, isto é, as Méditations

com o sentido que tem na arqueologia vezes, Foucault se move dentro de

cartésiennes.A partir daqui, encontramos uma dupla recepção da fenomenologia: uma na linha de uma filosofia do sujeito (Sartre, por exemplo) e outra na linha da teoria da ciência (Cavaillàs). Nessa segunda linha, situam-se Koyré, Bachelard e Canguilhem. Com eles, a célebre questão da Auftlàrung, que coloca como problema a relação enÍre a razao e sua história, foi retomada desde o campo da história das ciências. Canguilhem deslocou a análise das disciplinas formais

biologia e da medicina. Por esse caminho, levou a cabo uma reestruturação do domínio da análise histórica das ciências. Foucault resume esse trabalho em quatro pontos: l) A introdução do tema da descontinuidade. 2) A história da descontinuidade e axiomatizadas para o campo da

não está adquirida de uma vez para sempre; ela mesma é descontínua. Em outros termos, uma história do discurso verdadeiro é necessariamente recorrente. Daí que, em Canguilhem, a análise da descontinuidade e a relação entre a história das ciências e a epistemologia se acompanhem. 3)

Canguilhem mostrou a especificidade das ciências da vida. Aparece assim, como fundamental, fundamentaimente uma a relàção biologia/vitalismo. 4) A história da biologia de Canguilhem é história da formação dos conceitos (DE3, 530-539). "Nietzsche dizia da verdade que era a mais profunda mentira. Canguilhem diria talvez, ele que está, ao mesmo tempo, perto e longe de

ilÍm*Ilx;hr ffil1{::illTrrã:ffi'*T..;Í;::,;1hjil#r#x*I;fi (vécu), canguilhem vivido perguntou que fenomenologia ao a ++t;. Por lsso, se poderia dizer: o perguntou ao vivente. Nietzsche. "Eu li Nietzsche um pouco por acaso

e me surpreendeu

ler

que Canguilhem, que era o historiador das ciências mais influente nessa época na França, estava

também muito interessado por Nietzsche [. . . ]" (D84, 436). Georges Canguilhem u27l: AN,45-46, 50. As, 11,187,226,248. DEl, 167, 448-457 , 460-464,679, 688, 696-69;, 708.D82,53-54,73,240. DE3, 42g 430,432-442,583. DE4, 37,56-57,67,435 436,440,654,763-764,76;'776 }{53' 167-168,281. MC, 169. NC, 147. OD, 36,73.PP,200,221. sP, 190.

::

CAPITALISMO (Capitalisme)

Biopoder, medicalização.

O

biopoder foi um elemento indispensável para o desenvolvi-

mento do capitalismo; através dele, assegurou-se a inserção dos corpos no aparato produtivo e se ajustaram os fenômenos demográficos aos processos econômicos. Segundo Foucault, o biopoder (políticas do corpo) foi muito mais determinante para o desenvolvimento do capitalismo do que a moral ascética (a renúncia ao corpo, a mortifrcação) (HS1, 185-186). "Eu sustento a hipótese de que com o capitalismo não se passou de uma medicina coletiva a uma medicina CAPITALISMO

(Ca p

ita

I

i

sme)

67

privada, mas se produziu precisamente o contrário. O capitalismo, que se desenvolve no final do século XVIII e início do XIX, antes de tudo socializou um primeiro objeto, o corpo, em função da força produtiva, da força de trabalho. O controle da sociedade sobre os indivíduos não se efetua somente através da consciência ou da ideologia, mas também no corpo e com o corpo" (D83, 209).

História. Na ideologia

burguesa, a história teve, por função, mostrar

como as grandes unidades nacionais, de que o capitalismo necessitava, vinham de longe e tinham mantido sua unidade através das revoluções (DE2, 272). Asilo. O desenvolvimento do capitalismo, com a passagem ao capitalismo industrial no final do século XVIII e início do XIX, vai requerer uma massa de desocupados como instrumento da política salarial. Então, as instituições de clausura em massa deixaram de ser úteis e até se tornaram perigosas. Por isso, serão substituídas por um sistema hospitalar com dupla utilidade; por um lado, para aqueles que não podiam trabalhar por razões físicas e, por outro, para os que estavam impedidos por razões não físicas (DE3,497 -498). A hospitalização não estava destinada, a partir do século XIX, a absorver o desemprego, mas a mantê-lo o mais alto possível (DE3, 498). "Mas, sobre esse fundo de antiga exclusão etnológica do louco, o capitalismo formou certo número de critérios novos, estabeleceu certo número de exigências novas; por isso, em nossas sociedades, o louco tomou o rosto do doente mental. O doente mental não é a verdade

finalmente descoberta do fenômeno da loucura, história etnológica do louco" (D83,499).

é o seu avatar

propriamente capitalista na

Capitalismell0U:4N,271.4S,90-91,213.D81,503.DE2,134,235,272,297-299,312

313,316,321322'332-

334,416,431,438,449,494,553,604,612,623,638,702,739,752,777.779,817.DE3,113114,146,159160,11J6,201, 209,258,344,360,374375,401-402,494-495,497,499,569,576,610,724,781,78s,821.D84,56,68,79,190,200,216' 371,441,147,150,502. HSl, 12, 162, 185, 186. IDS,20,33. MMPE,87. PP,88, I 12, 113.

:.:. CARNE (Chair)

O conceito

de'tarne" faz referência

ao corpo atravessado pelo desejo, a concupiscência,

a

libido. * O cristianismo verá aqui uma consequência da queda, do pecado original. Yer: Santo Agostinho. x 'A técnica de interiorização, a técnica da tomada de consciência, a técnica do despertar-se a si mesmo em relação às suas debilidades, enquanto seu corpo, enquanto sua sexualidade, enquanto sua carne, esse me parece ser o aporte essencial do cristianismo na história da sexualidade. A carne é a subjetividade mesma do corpo; a carne cristã é a sexuaiidade aprisionada dentro dessa subjetividade, desse assujeitamento do indivíduo a si mesmo

que é o primeiro efeito da introduçáo do poder pastoral na sociedade romana" (D83, 566).

Asilo.

Na clausura asilar, encontramos um lugar comum aos pecados da carne e às faltas da

razão, aos portadores de doenças venéreas e aos insensatos

(HF,

120). Poder pastoral. O

cristianismo encontrou um meio de instaurar um tipo de poder que controlava os indivíduos por meio de sua sexualidade. Mas, no fundo, a sexualidade nunca constituiu um mal absoluto; antes, foi algo que requeria uma vigilância contínua. Através da problemática da carne, instaurou-se o poder pastoral sobre os indivíduos (DE3, 565-566). (Ver: Poder pastoral).

Pastoral da carne, confissão. Com 68

CARNE (Chair)

a

Contrarreforma, a extensão da confissão não cessa de

crescer. Por um lado, nos países católicos, acelera-se o

concede-se cada vez maior importância

à

ritmo da prática da confissão; por outro,

carne, à sua presença nos pensamentos, nos desejos,

na imaginação, enfim, em todos os movimentos do corpo e da alma (HSl, 27-28). A carne *'As confissões da carne" é o título de um volume tende a converter-se na raiz de todo pecado. nunca publicado daHistoire de la sexualité; e1e haveria de se ocupar das técnicas cristãs de

* si mesmo, da formação da pastoral cristã da carne. 'A confissão, o exame de consciência, toda uma insistência sobre os segredos e a importância da carne não forma aPenas um meio de proibir o sexo ou de afastá-lo ao máximo da consciência; foi uma maneira de situar a sexualidade no coração da existência e de ligar a salvação ao domínio de seus movimentos obscuros. O sexo foi, nas sociedades cristãs, o que era necessário examinar, vigiar, confessar, transformar em discurso" (D83,257). Foucault aborda a evolução da confissão e do poder

pastoral em La volonté de savoir (71-98) e em Ie s anormaux (aulas de 19 e 26 de fevereiro). (Yer: Confissao). Bruxas e possuídas. A prática da confissão, do exame de consciência, da direção espiritual não foram as únicas expressões culturais da pastoral da carne. Foucault menciona outras duas, o misticismo e a possessão. O primeiro é deixado de lado, mas sobre a segunda ele se detém longamente para nos mostrar quais vínculos existem, por um lado, entre possessão e técnica de exame e, por outro, entre os problemas que os fenômenos de possessão colocam e a história da psiquiatria, ou seja, a configuração da anormalidade. Em

primeiro lugar, Foucault distingue e separa possessão de bruxaria. Ambos os fenômenos, é certo, têm lugar em correlação com o processo de cristianização em profundidade que se origina na Reforma e na Contrarreforma. Mas, com certa defasagem cronológica: a bruxaria é

mais frequente no século XVI, e a possessão, no seculo XVII. 1) Quanto ao lugar: a bruxa

;:\Tl;H::"h

h'lffi ;H#.;T3.,:,'ffi :T[il1!:""H"l"i,t"#;ft dos lugares onde o cristianismo

se encontra plenaentanto, é um fenômeno interno, próprio exclumente instalado, onde funcionam os mecanismos do discurso exaustivo e a autoridade da sujeito O religiosas' nas casas no convento, confessor): siva (a confissão do penitente e o persoaos 2) prioresa. a Quanto possessão é um sujeito religiosamente marcado: a superiora, nagens envolvidos: a bruxaria põe em jogo duas personagens, a bruxa e o diabo. Na possessão

há, pelo menos, três personagens que, por sua Yez, se desdobram e se

multiplicam:

a

possuída,

o diabo, o confessor-diretor de consciência. A figura do confessor-diretor se desdobra na do bom e do mau confessor-diretor. Esse desdobramento segue as contradições da estrutura eclesiástica, como a oposição entre seculares e regulares. A possuída se desdobra na figura da )

serva dócil do demônio e na que resiste à sua influência. O mesmo corpo da possuída se desdobra ou se multipiica: divide-se em uma multiplicidade indefinida de movimentos, comoções, agitações, dores, prazeres. Aparece como um campo de batalha entre elementos que se opõem.

)

3) Quanto à forma da relação: entre a bruxa e o diabo estabelece-se um contato particularmente sexuai. Entre a possuída e o diabo, não há pacto e tampouco somente contato, mas um habitar, uma impregnação, uma residência insidiosa. 4) Quanto à forma do consentimento: entre a bruxa e o diabo, existe um pacto; a forma da relaçáo é de tipo jurídica. A vontade da possuída, no entanto, está marcada por todas as ambiguidades do desejo: o jogo dos pequenos

S

prazeres, das sensações imperceptíveis, dos consentimentos minúsculos, do querer e não CARNE (Chalr)

69

querer. 5) Quanto ao corpo: se o corpo da bruxa é um corpo marcado, o da possuída, por sua vez, é aquele em que a forma plástica do combate com o diabo se apresenta como convulsão.

A carne convulsionada

é

o corpo atravessado pela exigência de exame, o corpo submetido

à

obrigaçáo da conf,ssão exaustiva; é o corpo eriçado contra o exame e a confissão. O corpo da possuída é o produto de certa tecnologia de poder, um capítulo da história política do corpo. * A partir da possessão, do corpo da possuída, surge um problema fundamental para o exercí-

cio do poder pastoral: como manter e desenvolver as tecnologias de governo das almas, mas evitando os efeitos de resistência, os contragolpes? Como continuar com o exame e a confissão, mas sem gerar conr,ulsões? Para resolver a questão, foram acionados três tipos de procedimento: 1)

A moderaçáo interna,

a

retórica e as exigências de estilo nos discursos de exame e de confissão.

2) A conr,ulsão passará para o domínio da medicina. Como manifestação paroxística do sistema neryoso, foi, de fato, a forma primeira da neurologia. A conmlsão será pensada, então, como um estado de liberação involuntária dos automatismos; o que se converterá no modelo para pensar

o instintivo. 3) O apoio dos sistemas disciplinares e educativos

(AN,

187-212). Masturbação,

família. A atenuação das indiscrições discursivas foi acompanhada por uma reestruturação do espaço (dormitórios, internatos), ou melhor, pela adequação do espaço aos requisitos da vigilância. Nesse movimento de transferência da palavra ao espaço, aparece a grande cruzada contra a

masturbação (que Foucault analisa na aula de 5 de março de Les anormaux) e o gênero discursivo contra a masturbação. Trata-se de um discurso diferente tanto da pastoral da carne quan-

to da psicopatologia sexual do século XIX. Por um lado, não se expressa em termos de prazer desejo; por outro, não se trata, propriamente falando, de sexualidade

e

(AN, 219).* A partir

dessa grande campanha contra a masturbação, estabelecem-se noyas relações entre pais e

filhos.

Requer-se dos pais ir em busca de odores, rastros, signos das práticas de seus filhos. "Há certamente uma transposição, no elemento da família, da carne cristã. Transposição no sentido estri-

to do termo, porque há um deslocamento local e espacial do confessionário: o problema da carne passou à cama' (AN, 249). Sexualidade. A experiência da sexualidade se distingue da experiência cristã da carne (HS2, 11), mas é necessário seguir a formação do dispositivo de sexualidade como uma transformação da experiência cristã da carne. Desse modo, onde a Idade Média havia organizado um discurso unitário acerca da carne, encontraremos, mais tarde, uma discursividade dispersa, múltipla:

a

demografia,

a moral, a pedagogia, a crítica política

a

biologia, a medicina,

a

psiquiatria, a psicologia,

(HSf , 46). "[...] a tecnologia do sexo, no essencial,

se

ordenará, a partir desse momento, pela instituição médica, pela exigência de normalidade, e, mais que pela questão da morte e do castigo eterno, pelo problema da vida e da doença. A tarne' é

rebaixada ao organismo"

(HSl,

155). Ambas, a experiência da carne

e

da sexualidade, são duas

experiências do homem de desejo (HS2, I l; DF,4, 540). Afrodisia. Acerca das diferenças entre

aexperiênciadacarne edosafrodisia,ver:Afrodisia.Yer ademais: Etica,Confissao,Família, Masturbaçao, Poder pastoral, Santo Agostinho, Sexualidade. Chair [247]:4N,91, 166, 174-176,179-180,187-189, 198,201-202,204-21,1,217 220,249 250,259,309. DEl,89, 107, 472, 485, 522, 527,536, 555. DE2, 18,20-21,640,763,765,769,825. DE3, 10,87,

t77 , 194,225,245-246,250,253,304,329,

105,135,257,313,319,380,565 566,570,661.DF4,t73,191,216,295-299,301,305,353,384-385,393-394,399,406,487,539,

540,546,561,584,611,618-619,626,659,66t,673,738,783784,787,802.HF,36,40,119 120,t37,194,383,,146,510,654. H5,9,21,24,292,299,456.}{51,27-30,46, 95, 102-103, 130,142,149 150, 153, 155, 159-160, 162, 206. HS2, 1 1, 18, 39,43-44, 17,49-51,56,58,60,79,1.28,140, 155,203. HS3,49. MC,26,37,62,t57,323,395. MMPE,77.NC,l75. RR,21,92. pp, 11, 179. SP,10-11,262.

7

O

cARN

E

(chai r)

r5. CASSIANO, João (360/368 -434t43s)

Foucault presta particular atençáo a Instituiçoes cenobíticas, de Cassiano; apoia-se nessa

obra para estudar a evolução das práticas da conÍissão nas instituições monacais. Ademais, ela representa um momento fundamental da Íbrmação do poder pastoral. Nós nos ocupamos desses temas nos seguintes verbetes, aos quais remetemos: Confissao, Poder Iean Cassien [78]:DE4.127,128,144, 1

145, t77,296-297,299-304,

pastoral.

-106-308,364,4t6,802-803,809-812.

HS,25,

19, r40, 218, 286-288, 299, 391, 393, 404.

?+. CASTEL,

Robert

(1e33

)

EmLe psychanalysme (Paris, 1973), Castel aborda

a

questão da psicanálise desde o ponto

de vista das relaçoes de poder. Segundo Foucault, a tese de Castel consiste em afirmar que a psicanálise trata de deslocar, modificando-as, as relações de poder da psiquiatria tradicional

(DF-z,639-640; DE3, 77). Foucault se interessa também por outra obra de Castel, Lbrdre psychiatrique (Paris, 1977). Segundo Foucault, Castel aí rnostra como: 'A loucura doravante fazparte de nossa relaçáo com os outros

e

com nós mesmos, assim como a ordem psiquiátrica

atravessa nossas condições da existência cotidiana" (D83,274). Para uma apreciação geral da

obra de Castel por parte de Foucault, Cf. "Lasile ilimité" em DE2, 27L-275. RobertCastel[29]:DE2,392,639,640,684.DE3,77,92,271-275,331,333334,351,429.DE4,386,764.PP,).9, 38, 88, 198,229, 264.5P,29.

??

cAsTlGo (Châtiment, Punition)

Ainda que muito presente em Histoire de la folie, na obra de Foucault, o tema do poder se situa no centro da cena em Surveiller et punir, com o estudo dos modos de castigar. Nosso autor Íixa quatro regras gerais para levar a cabo essa análise: 1) Não centrar o estudo dos mecanismos

punitivos somente em seus eíeitos negativos, repressivos, do lado da sanção; mas, antes, situar o castigo na série de efeitos positivos que pode induzir, o que implica considerar a punição como uma função social complexa. 2) Considerar os castigos desde o ponto de vista da tática política. A punição não é simplesmente a consequência da aplicação das regras jurídicas ou um indicador das estruturas sociais, mas uma técnica específica no campo geral dos procedin-rentos de poder. 3) Situar a tecnologia do poder como princípio da humanização da penalidade e do

conhecimento do homem. 4) Investigar se o ingresso do saber científico, da "almal na prática iudicial não é o efeito de uma transformação da maneira como as relaçoes de poder investem o corpo (SP, 28). . O corpo, com efeito, encontra-se imerso em um campo político. As relações de poder operam sobre ele: supliciam-no, marcam-no, constrangem-no ao trabalho, obrigam-no a certas

cerimônias, exigem dele certos signos. Trata-se, em definitivo, de toda uma estratégia

de sujeição. Para isso, não se recorre apenas à violência ou à ideologia, mas também ao cálculo,

CASTIGO (Châtiment,

Punition) 7l

à organização, às técnicas. Há

uma ciência do corpo que não é o conhecimento de seu funcio-

namento e o manejo de suas forças, que não é só a capacidade de dobrá-lo. Esse conhecimento e esse manejo constituem uma tecnologia

política do corpo, difusa e multiforme, raramente

formulada em discursos sistemáticos, que não

se

localiza nem em um tipo definido de instituição

nem no aparato do Estado. Trata-se, antes, de tmamicrofísica do poder. Por isso, não devemos pensar o poder como uma propriedade, mas como uma estratégia constituída por disposições, manobras, táticas, técnicas, funcionamentos, etc. Nesse sentido, não há nem analogia nem ho-

mologia; as relações de poder não reproduzem ao nível dos indivíduos a forma geral da lei ou do governo. Desse modo, o corpo aparece como uma realidade histórica na qual se articulam

tipo de poder e certas formas de saber. Através deles, a alma se converteu no cárcere do corpo. * "Em suma, tratar de estudar a metamorfose dos métodos punitivos a partir os efeitos de certo

de uma tecnologia política do corpo, onde se poderia ler uma história comum das relações de

poder e das relações de objeto. De maneira que, pela análise da doçura penal como técnica de poder, se poderia compreender ao mesmo tempo como o homem, a alma, o indivíduo normal ou anormal vieram a dobrar o crime como objetos da intervenção penal e de que maneira um

modo específico de sujeição lassujettissement)pode dar nascimento ao homem como objeto de saber para um discurso com estatuto tientífico"' (SP, 28-29). Mais sucintamente, Suryeiller et

punir

é, ao

mesmo tempo, uma genealogia da sociedade disciplinar

base na aná1ise das relações entre as técnicas do poder

eo

e das

ciências humanas com

corpo. Foucault estuda três momentos

da tecnologia do castigo: o suplício, a punição generalizada da reforma penal do final do século

XVIII

ea

disciplina. Temo-nos ocupado dos primeiros dois no verbete Corpo

sua importância no discurso de Foucault, dedicamos um verbete,

e ao

último, dada

Disciplina.

Chôtitt ent [276]: AN, 17,76-79,82-83,105,274,311.4S,60. DE1,95, 184,257,529,530,625.D82,138, 143,362, 396,458,46t 462,528 529,716,727,748,794,828.D83,70,73,149,200,244,287,292,294,297,413,425,452,782.D84,9, 24,175-176,t95,203,206,297,559,594,669,691,781,

t42, 145, tss-1s6, 245,292,298, 300,

806,814. HF, 38,41,42, 58 61, 72, 81, 84-85, 87,99,103,105,

1

16-121,

315, 373-374, 406-407, 410, 462, 499,535, 557-559, 561, 564, 60 I -602, 609, 616, 621,

626.62a.646,678. HS, a,22,455. HS1,111_112, 118, 155, 178. H.52,37,57,69,262. IDS,11g, lg0. MC,5l. MMPE,7g. MMPS,80,88.RR.48,77,103.SP,13,15-16,18-19,21-23,34,46,47,50-52,54,59-60,76,77,89,92-99,101,105-117,119, t27, 130-132, 134, 162, 1 80- 1 82, 208,234-236,238,210,247,255,258,260-261,264,265,

Punition

1361J:

AN,6,8, Ls,17,22,29,33,62,76,81-84,103,

105-106, 169.

286, 30

l,

306, 308.

DEl, 312,429.D82,t80,297,390,430,

432,443,457,458,461462,464,168,521,530,541,590-592,601 602,606,6t4.D83,17,64,66,72_74,79,86.88,150,179, 183, 198,255,273,287 -288,290,293-294, 309, 351-352,357, 37 4,391, 4t3, 452-454, 458, 46t, 466,507, 543, 544, 568, 598. 4,641-642,645,645,657 _658,669,

670,674,778,8\7. DE4,8,21,24,26,30,73,195,203,209,235,346,351,389,524.594,61

689,691696,806.IJF,41,s9,77,78,81,87,I04,117,119,130-131,138,165,191,197,20t,41r-412,452,460,461,199,548,

MC,5l. MMPE,47,77. MMPS,47. pp, 12, 33,53,57-58,71,106,120,144,t54,171,178,182-183,257,304. RR,48,r03,117,203.Sp,14,I5,19-20,23_24,26_28,10, 33 3,1, 39, ,15-46, 50 52,55-57,59-61,69,7 1,73,75,84,90,92,94-97,10 1, 104, 106 107, I 09, 1 12_ 1 13, I 15, r I 7, I 1 8, 122_ 123, 5s8,559,620-621, 626-627,634,678 679. HS,8,426. HS2, 186. IDS,25,30.

1)7 , 129,

\3t

-134,1

8

1

-

183, 198, 228, 238,241.243,249-250,256,259,265,273,277

,282,306,311.

:= CERVANTES SAAVEDRA, Miguel de (1541-16i6) Em Cervantes, nada conduz a ioucura à verdade ou à razão; a loucura se relaciona à presunçào e a todas as complacências da imaginação (HF, 58-59). Yer: Dom Quixote. )Íiguel de Cervantes Saavedra [10]:DF,l,169, 171. HF, 57 60.ÀlC,62,222. -f

CERVANTES SAAVEDRA,

Miguel de

r=. CHEMNITZ,

Bogislaus Philipp von (1605

1678)

Foucault se ocupa da obra de Chemnitz (Dissertatio de Ratione Status in lruperio nostro romano-germanico,1647) nomarco daanálisedarazão deEstado. Chemnitzdefirearazãode Estado nestes termos: certa consideração política necessária para todas as questões públicas, conselhos projetos, cujo único objetivo é a preservação, a expansão e a felicidade do Estado (DE4, 816). Bogislaus Philipp rcn Clrcmnitz [4J: DE2,

e

151, 816.

*i.: CHOMSKY, Noam Avram (1928-)

"Estudando a 'linguística cartesianal Chomsky não aproxima a gramática dos clássicos e a linguística atual. Ele alltes se propÕe a fazer aparecer, conlo seu porvir e seu futuro lugar comum, urna gramática onde a linguagem seria analisada não mais como um conjunto de elementos discretos, mas como uma atividade criadora; onde as estruturas profundas estariam desenhadas por debaixo das figuras sr-rperficiais e visíveis da língua [...]" (DEl, 733)' * Em DE2, 47).-512, encontra-se um extenso debate entre Foucault e Chomsky. Ainda que o tema de discussão proposto fosse "da natureza humana: justiça e poder'l a primeira parte da discussão gira em torno da questâo da história do conhecimento. Também se eucontrará uma confrontação, entre eles, acerca da criatividade do sujeito. A última parte da discussão se ocupa dos interesses políticos de Chomsky e Foucault. "Parece-me que, em uma sociedade como a nossa, a verdadeira tarefa política é criticar o jogo das institr"rições [as instituiçÔes do saber, de prer,idência, assistenciais] aparentemente neutras e independentes; e criticá-las e atacá-1as c1e maneira que a violência política que nelas se exerce obscuramente seja desmascarada e se possa

lutar contra elas" (DE2,496). "Finalmente,

esse

problema da natureza humana, enquanto foi

colocado em termos teóricos, não provocou nenhuma discussão entre nós. Definitivamente, nos entendemos bem sobre questões teóricas. Por outrcl lado, quando cliscutimos o problema da natureza humana e os problemas políticos, apareceram as diferenças entre nós. Contrariamente ao que você pensa [Chomsky], você não pode impsdil-m. de crer que essas noçôes de natureza humana, dejustiça, de realização da essência humana sejam noçÕes e conceitos que lbram formados dentro de nossa civilização, em nosso tipo de saber, em nossa forma de fllosofia, e que, consequentemente, isso forma parte de nosso sistema de classes, e que uilo se pode, por ntais lamentável que seja, fazer valer essas noções para descrever ou justificar um combate que deveritr (que deve, em princípio) mudar os fundamentos de nossa sociedade. Há nisso uma extrapolação da qual não consigo encortrar a justificativa histórica' (DE2, 506). Noau Chonrsky [81]:

*:. cícERo

D87,7-3-1, 807. DE2. 470,172,171,476-177, 179-182, 18'1-49 l, 493-512. DE3, 155, 67

l.

('r06 a.c.-43 a.c.)

Foucault se ocupa várias vezes de Cícero em L'herméneutique du sujet, isto é, na análise da cultura do cuidado de si na época helenístico-romana. Em relação à crítica da cÍcERo

1'

educação recebida (HS, 92-93); à enfermidadelpáthos; ao vício (HS, 9a-95); à rerórica

(HS,366-367). Cicero [2]: DE4,585. HS,352. Cicéron [39]:D81,80,734.D82,220.D84,175,387,426,613,794.IlF,238.IJ,i,2t,92,94-95.100, 1

95, 343, 366,

37

6, 392, 416, 424, 433, 456. H53,

7

102,

t4t,

160.

0, 27 6.

Yer: Homem. Scienceshumaines [203]: AN,100, 105,305. AS, 225.D81,121,418,439-441,413,445-447,499-500,503,515 517, 543,580. DE2, 11, 164, 169, 182-183,405,410, 595,622.D83,29,188 189,279, 551,579,586 587,662.Df4,18,75,75, 205,415,633,651,730,813. HF, 108. HS, 181. IDS, t9-20,34,36, 153,237.MC,t6,259,321.,355_378,382 393. NC, 201. PP, 20, 59, 92. SP, 28, 186- 187, 227, 287, 302, 312.

§=.

CLAUSEWITZ, Carl von

(1780-1831)

Em "Il faut défendre la société", Foucault se ocupa de analisar o discurso que Clausewitz inverteu quando afirmou que a política é a continuação da guerra por outros meios. Trata-se do discurso da guerra de raças (DE3, l7l-l72.IDS, 16). Yer.. Guerra. Carl von Clausewitz [19]: DE3,

=r.

152, 171-172,637. IDS, 3, 16, 20. 41, 146.

CLAUSURA (Renfe rm em e nt)

'A grande clausura'é o título do segundo capítulo da primeira parte la

folie. Ali é narrada

de Histoire de

a formação do espaço clássico da loucura. Yer: Loucura.

Renfermement l49l:NA,41,44,276, 308. DE1, 165,417.D82,296,319,392,804,824. DE3, 142,144,368-369, 404, 4t8-420, 63 I . DE4, ,160. HF, 67, 84, 86, 90, 1 0s, I 07, I I 3, 141, t46, 149, 443, 480, 507 , 526,542,582,668,678. HS,406, HSI,54, pp,71,191,26s. Sp, 143,200, 212.304.

s=. CLEMENTE DE

ALEXANDRIA

(II-III D C

)

primeiro grande texto cristão consagrado à prática sexual na vida matrimonial é o capítulo lI do Pedagogo de Clemente de Alexandria (DE2,2l) . Nele se pode observar como o cristianismo apropriou-se da filosofia moral da Antiguidade, especialmente helenística, de O

X do livro

seus conceitos, de suas imagens, de seus exemplos, de suas recomendações. clément dAlexandrie [20]:D84,302,547. HS, 79,97,247,257,4t6. HS2,2t, 142-143,2g1.Hs3,90, lg1, 206,276,281.

74

ClÊNClAs HUMANAs (Sciences humatnes\

198,

*ã.

cLíNIcA (Clinique)

O nascimento da clínica. Foucault começa La naissance de la clinique contrapondo dois textos, um de Pomme, de meados do século XVIII, e outro, de menos de cem anos mais tarde, de Bayle. Valendo-se deles, define o propósito de Lq naissance de la clinique; descrever o que tornou possível essa mutação do discurso, não em seus conteúdos temáticos ou modalidades lógicas, mas se dirigindo a essa "região onde as'coisas'e as'palavras' ainda não estáo separadas, onde ainda se pertencem, ao rés da linguagem, a maneira de ver e a maneira de dizer'l questionando "a distribuição originária do visível e do invisível na medida em que ela está ligada à separação entre o que se enuncia e o que se cala'

(NC, VII). A clínica responde,

assim, não a uma descoberta do valor da observação e ao fortalecimento da objetividade, mas a uma reestruturação das formas do ver e do falar. Para Descartes e Malebranche, ver era perceber, mas despojando a percepção de seu corpo sensível, tornando-a transparente para o exercício do espírito; no final do século XVIII, ver consistirá em deixar à experiência sua maior opacidade corporal. "É essa reorganização formal e em profundidade, mais que o abandono das teorias e dos velhos sistemas, o que

abriu

a

possibilidade de uma experiência clínica, o

que suspendeu a velha proibição aristotélica: finalmente se poderá ter um discurso com estrutura científlca sobre o indivíduo" (NC, X). Essa reestruturação foi levada a cabo através de sucessivas elaboraçoes e reelaborações: da medicina das espécies à medicina epidêmica, depois à

medicina dos sintomas,

à

medicina anatomopatológica e, finalmente,

à

medicina das febres.

Medicina das espécies, medicina das epidemias. Foucault distingue três formas

cle es-

medicina das espécies situaYa as pacialízaç?rc nenhum lugar ao indivíduo. atribuído não é enfermidades, um território de homologias, onde Um espaço lógico de conflguração. Secundária: também relativa à medicina das espécies, a exigência de uma percepção aguda do singular, independentemente das estruturas médicas da enfermidade: Primária: o espaço em que

a

coletivas, livre de todo olhar grupal e da experiência hospitalar. Terciária: 'b conjunto de gestos pelos quais a doença, em uma sociedade, é rodeada, investida medicamente, isolada, repartida em regiões privilegiadas e fechadas, ou distribuída através dos meios de tratamento, adequados a serem favoráveis" (NC, 14). Para a medicina das espécies, o hospital, como a um lugar artificial, onde a doença corre o risco de perder sua identidade; o lugar natural da enfermidade é a família. Mas o exercício da medicina de assistência familiar, dos cuidados a domicílio, só pode encontrar apoio em uma estrutura socialmente controlada do exercício da arte de curar. Nessa nova forma de espacializaçáo institucional da enfermidade, * a medicina das espécies desaparecerá e surgirá a clínica (NC, l8-19). A medicina das epidemias e a das espécies se opôem como a percepção coletiva de um fenômeno global e a civilizaçáo,

é

percepção individual da essência de uma enfermidade. Ambas, no entanto, encontram-se diante de um mesmo problema: a deÍinição do estatuto político da medicina. Essa é a origem da Société Royal de Médecine (1776), órgão de controle das epidemias e de centralizaçao do saber, e de seu conflito com a Faculdade (NC, 25-27). "O lugar onde se forma o saber não é mais o jardim patológico onde Deus distribuiu as espécies, é uma consciência médica generulizada,difusa no espaço

e

no tempo, aberta e móvel, Iigada a cada existência individual, mas

também à vida coletiva da nação" (NC, 31). Assim, nos anos que se seguem à Revolução, aparecerâo dois grandes mitos: o mito de uma profissão médica nacionalizada, organízada cLÍNtcA lclinique)

75

como o clero,

e

revestida, com respeito à saúde e ao corpo, de poderes semelhantes aos que se

exercem sobre a aima, e o mito do desaparecimento total da doença em uma sociedade sem

distúrbios nem paixões, restituída à sua saúde originária (NC, 31-32). Uma vez vinculada ao destino do Estado, a medicina não será apenas o corpo das técnicas e conhecimentos de cura, mas também um conhecimento do homem saudável, do homem não enfermo, do homem modelo. Por isso, a medicina do século XIX se organiza mais pela normalidade do que pela saúde (Claude Bernard, por exemplo). Desse modo, o objeto das ciências do homem (suas condutas, suas realizações individuais e sociais) é um campo dividido pelo princípio do normal e do patológico (NC, 35-36). Reforma das instituições da medicina. A oposição entre a medicina das espécies e a medicina das epidemias exigia uma reorganização do espaço da doença: necessidade de um espaço onde apareçam livremente as espécies patológicas, necessidade de um espaço onde a enfermidade esteja presente em sua totalidade, onde se possa formar um conhecimento da saúde da população. Nesse ponto, convergem as exigências da ideologia política e da tecnologia médica. No fina1 do século

XVIII, assistimos na França

a

uma série de reformas das instituiçoes da medicina. Reforma das instituições hospitalares: descentralização da assistência (confiada agora às instâncias comunais), separação entre assistência e repressão. Ao mesmo tempo em que se descentrahzaa assistência, medicaliza-se seu exercício. O médico julgará acerca de a quem se deve prestar assistência; acerca da moral pública (NC,40-41). Reformas do exercício e do ensino da medicina: requisito de estudos universitários e públicos, abolição das corporações. "Durante todo esse período, faie da saúde

tava uma estrutura indispensável, aquela que poderia dar unidade a uma forma de experiência já definida pela observação individual, o exame dos casos, a prática cotidiana das enfer-

midades, e a uma forma de ensino que, se compreende bem, deveria dar-se no hospital mais que na Faculdade, e no percurso inteiro da enfermidade. Não se sabia como restituir pela palavra o que se sabia que era dado apenas ao olhar. O Visível não era Dizível, nem Diszível (indizível/não dizível)" (NC, 50-51). A protoclínica. A organização da clínica não é corre-

lata ao descobrimento do individual na medicina. A necessidade da prática no ensino da medicina era também amplamente reconhecida (NC, 58). Nesse sentido, Foucault fala de uma protoclínica do final do seculo XVIII. E necessário, então, distinguir essa protoclínica tanto da prática espontânea como da clínica propriamente dita. Foucault aponta cinco características de tal

protoclínica: 1) Mais que um estudo sucessivo

e

coletivo dos casos, ela deve tornar

sensÍvel o corpo da nosologia. 2) O corpo do qual ela se ocupa no hospital é o corpo da enfer-

midade, não o do doente (que é apenas um exemplo). 3) Não é um instrumento para descobrir a verdade, mas uma determinada maneira de dispor das verdades já conhecidas. 4) Essa protoclínica é somente pedagógica. 5) Não é uma estrutura da experiência médica, mas uma prova do saber já constituído (NC, 58-62). Os hospitais, Cabanis. "Thermidor e o Diretório

tomaram a clínica como tema maior da reorganização institucional da medicina. Para eles, era um meio de pôr fim à perigosa experiência de uma liberdade total; uma maneira, no entanto, de dar-lhe um sentido positivo, uma via também para restaurar, conforme aos desejos de alguns, algumas estruturas do antigo regime" (NC, 69). Com esse propósito, foram tomadas uma série de medidas capitais. 1)

Medidas do

14

frimário, ano

1I1: o projeto apresenta-

do por Fourcoy à convenção prevê a criação de uma école de santé em Paris. Nela, à diferen-

ça da Faculdade, Iugar de um saber esotérico e livresco, e segundo o modelo da École cLiNlCA yClrnique)

Centrale des Travaux Publics, os alunos realizaráo experiências químicas, dissecações anatômicas, operações cirúrgicas. 'A clínica se converte em um momento essencial da coerência científica, mas também da utilidade social

(NC, 70). Mas não

e da

pureza política da nova organização médica"

se trata apenas de experimentação; essa clínica se def,ne ademais como

um saber nrúltiplo da natureza

e do homem em sociedade. 2) ReJormas e discussões dos anos V e Vl: reconstituição das sociedades médicas que haviam desaparecido com a Universidade,

antes de tudo da Société de Santé. Projeto cle criação de cinco escolas de saúde, segundo o

projeto de Calàs, para estabelecer um corpo médico qualificado por um sistema cle estudo exames. 3)

A intervençao de Cabanis

e a reorganizaçao do ano

XI: Foucault analisa

e

o

texto de Cabanis Raltport du Conseil des Cinq-Cents sur un mode Ttrovisoire de police médicale (4 messidor ano VI). No contexto das ideias liberais, isto é, da liberdade de inclústria

juízo dos consumidores acerca da utilidade do que consomem, Cabanis distingue entre determinação do valor de uma mercadoria mediante o juízo dos consumidores e a necessidade de fixar o valor de algumas por decreto. Trata-se, neste último caso, daquelas mercadorias que servem para lixar o r,'alor de outras (os metais preciosos) ou daquelas nas quais, e do a

quando se trata do indivíduo humano, os erros podem ser funestos. Como conciliar, então, a Iiberdade de indústria, liberdade econômica fundamental, com â necessidade de fixar por decreto o valor daqueles bens que concernem à existência dos indivíduos? A solução de Cabanis consiste em distinguir entre um juízo acerÇa dos produtos (que é prerrogativa dos consumidores) e um juízo acerca da competência de queru os procluz (prerrogativa do governo). Ainda que a proposta de Cabanis não tenha sido aceita, ela acabou sendo a solução adotada para dar à rnedicina o estatuto de proÍissão liberal que conserva até nossos dias. O

princípio de controle será estabelecido com base na noção de competência, das virtualidades que caracterizam a própria pessoa do médico (saber, experiência, probidade). E aqui onde a relação aquisição do saber/exame será determinante. 'Assim, dentro de um liberalismo econômico manifestamente inspirado em Adam Smith, deÍrne-se unla profissão, ao mesmo

tempo,'liberal'e têchada'(NC, 81). Cabanis distingue, além disso, entre os doutores e os oficiais da saúde que se ocuparão, sobretudo, das pessoas de vida mais simples (os trabalhadores, os camponeses). "Conforme a ordem ideal do liberalismo econômico, a pirâmide das qualidades corresponde à superposição dos estratos sociais" (NC, 82). Não apenas ao nível da organização (transmissão e exercício do saber médico) da profissão médica, mas também com respeito à organizaçáo dos hospitais, era necessário encontrar uma soluçâo compatível

com os princípios liberais. Era impossível a utopia de uma sociedade sem hospícios

nen-r

hospitais. Paris, por exemplo, no ano II, devia fazer frente a mais de 60.000 pobres. Por outro lado, a hospitalização, entre outros inconyenientes, tornava por demais dispendioso o trata-

mento das enfermidades. Os hospitais serão confiados, então, às administrações comunais. "Essa comunalização dos hospitales liberava o Estado do dever de assistência e deixava às

coletividades restritas à tarefa de se sentirem solidárias com os pobres; cacla contuna se convertia em responsável por sua miséria e pela maneira como se proteger dela. Entre os pobres e os ricos, o sistetna cle obrigação e de cornpensação não passava mais pela lei do Estado, mas por uma espécie de contrato variável no espaço, revogável no tempo que, situado ao nível das municipalidades, era antes da ordem do iivre consentimento" (NC, 83). Outro conirato (si-

iencioso, segundo Foucault) se estabelece entre a nova estrutura hospitalar e a clínica onde se

cLíNlcA (clinique)

77

formam os médicos. "Posto que a enfermidade não tem possibilidade de encontrar uma cura, a menos que os outros intervenham com seu saber, com seus meios, com sua piedade, posto que não há enfermo curado a não ser na sociedade, é justo que o mal de uns seja transformado para os outros em

experiência'(NC, 35).

O hospital transforma-se no lugar da experimentação. Assim, em um regime de liberdade econômica, o hospital encontra a possibilidade de interessar aos ricos. A clínica será, desde o ponto de vista do pobre, o "juro pago pela capita-

lização hospitalar consentida pelo rico" (NC, 85). Signos e casos, a medicina dos sintomas. "Não é, pois a concepção da enfermidade que mudou primeiro e depois a maneira de reconhecê-la; não é tampouco o sistema semiótico que foi modificado e depois a teoria; mas tudo e, mais profundamente, a relação da doença com esse olhar ao qual ela se oferece e que,

junto

ao mesmo tempo, a constitui" (NC, 89). Essa modificação concerne em particular à estrutura linguística do signo e à estrutura aleatória do caso. O sintoma converte-se em signo para um olhar sensível à diferença, à simultaneidade ou à sucessão, e à frequência (NC, 92-93). |á não se

trata de reconhecer a enfermidade nos sintomas, mas da presença exaustiva da enfermida-

deneles.Assim,épossívelasuperposiçãoentreovereodizet'Aclínicapõeemjogoarelação, fundamental em Condillac, do ato perceptivo e do elemento da linguagem. A descrição do clínico, como a análise do filósofo, profere o que é dado pela relação natural entre a operação de consciência e o signo"

(NC, 95). Quanto

à percepção do caso, é necessário levar em conta: (daquilo a complexidade de combinações que a ÍaÍrreza associa em sua gênese); o princípio

de analogia (o estudo combinatório dos elementos realça as formas análogas de coexistência ou de sucessão que permitem identificar os sintomas da doença); a percepção das frequências

(a certeza médica não se constitui a partir da individualidade totalmente observada, mas a partir de uma multiplicidade de fatos individuais); o cálculo dos graus de certeza (do caráter mais ou menos necessário de uma implicação). 'A clínica abre um campo que se tornou'visí-

vel'pela introdução, no campo do patológico, de estruturas gramaticais

e probabilísticas.

Essas podem ser

historicamente datadas, porque são contemporâneas de Condillac e seus sucessores" (NC, 105). Yer Saber. Em sua forma inicial, a experiência clínica representa um equilíbrio entre o ver e o falar, entre o olhar e o dizer. Um equilíbrio precário que tem como postulado que todo o visível é enunciável e que o totalmente enunciável é totalmente visível. Mas a lógica de Condillac, que serviu de modelo epistemológico à clínica, não permitia uma ciência na qual o visível e o dizível se encontrassem em uma adequação total (NC, 116-l l7). Consequência dessa dificuldade na evolução da clínica: a combinação deixará de ser a operação fundamental da clínica; a transcrição sintática tomará seu lugar. Assim, a clínica haverá de se afastar e de se opor ao pensamento de Condillac.

Aqui encontramos Cabanis e toda uma série de transformações do olhar clínico. "O olho clínico descobre um parentesco com um novo sentido, que lhe prescreve sua norma e sua estrutura epistemológica; não é mais o ouvido voltado a uma linguagem, é o dedo indicador que palpa as profundidades. Daí essa metáfora do tato pela qual, sem cessar, os médicos vão definir o que é seu olhar" (NC, 123). Abrir cadáveres, a medicina anatomopatológica. Com a medicina anatomopatológica, o corpo

tangível se instalará no centro da experiência clínica. Bichat substitui o princípio de diversificação segundo os órgãos de Morgagni pelo princípio de um isomorfismo dos tecidos fundado na identidade simultânea da conformação exterior, das estruturas, das propriedades vitais e das funções 7B

(NC, 129). A noção de tecido deslocará

cLÍNtcA \ctínique)

a noção de órgáo e a de lesão à de

sintoma (NC, l4l-142). "Técnica do cadáver, a anatomia patológica deve dar a essa noção [a noção de morte] um estatuto mais rigoroso, isto é, mais instrumental. Esse manejo conceitual da morte pode ser adquirido primeiro, ao níyel muito elementar, pela organização das clínicas. Possibilidade de abrir imediatamente os corpos, diminuindo o mais possível o tempo de latência entre o óbito e a autopsia, ela

permitiu tàzer coincidir, ou quase, o último momento do tempo patológico e o primeiro do tempo cadavérico. [...] A morte não é mais que a linha vertical e absolutamente delgada que separa, mas permite referir uma à outra, a série dos sintomas e a das lesoes" (NC, 143). * Com a anatomia patológica, à diferença do que acontecia no século XVIII, a relação entre a vida, a enfermidade e a morte será pensada cientificamente. A doença ingressa na relação interior, constante e móvel da vida com a morte. "Não é porque adoeceu que o homem morre; é, fundamentalmente, porque pode morrer que lhe acontece de estar doente.

[...] Agora

seu ser mesmo, essa possibilidade

ela [a morte] aparece como a fonte da enfermidade em à vida, mas mais forte que ela, que a faz desgastar-

interior

se, desviar-se e fitralmente desaparecer.

A morte

é a enfermidade tornada possível na vida.

[...] Daí, a importância que tomou, desde o aparecimento da anatomia patológica, o conceito de degeneração" (NC, 158). A medicina das febres. Com a medicina das febres, assistimos ao último passo na reorganização do olhar médico como clínica, assistimos à passagem da anatomia à fisiologia. Com a obra de F. Broussais resolvem-se as diferenças entre a anatomia e a análise dos sintomas. Trata-se de uma medicina dos órgãos em sofrimento que comporta três momentos: a determinação do órgão que sofre, a explicação de como alcançou esse estado, a indicação do que é necessário fazer para detê-lo (NC, 195). Desse modo, "[...]

patológica

começa uma medicina das reaçÕes patológicas, estrutura de experiência que dominou o sé-

culo XIX e até certo ponto o século XX" (NC, 196). As ciências do homem. Com a morte integrada epistemologicamente à experiência médica, a enfermidade se desprendeu de sua contranatureza e tomou corpo no corpo vivente dos indivíduos. O primeiro discurso científico sobre o indivíduo teve que passar, então, pelo momento da morte. 'A possibilidade para o

indivíduo de ser, ao mesmo tempo, sujeito e objeto de seu próprio conhecimento implica que invertido o jogo da finitude no saber" (NC, 201). Desse modo, o pensamento médico se insere completamente no estatuto filosófico do homem. 'A formaçáo da medicina clínica não é senão um dos mais visíveis testemunhos dessas mudanças das disposiçoes fundamentais do saber" (NC,202). Yer: Homem. Descrição, enunciação. O discurso clínico não se tenha

é apenas da

ordem da descrição; sua formação implica um conjunto de hipóteses sobre

a

vida

morte, opções éticas, decisões terapêuticas, regulamentos institucionais, modelos de ensino. Por outro lado, a descrição não cessou de modificar-se. De Bichat à patologia celular, modificaram-se as escalas e os pontos de referência. O sistema de informação modificou-se: ea

a inspeção visual, a ausculta e a palpação, uso do microscópio e testes biológicos. Também se

modificou

entre o anátomo-clínico e os processos fisiopatológicos. Desse modo, outra maneira (AS, 47-48). * No discurso clínico, o médico é: quem interroga, o olho que vê, o dedo que toca, quem decifra os signos, o técnico de laboratório. Todo um conjunto de relaçoes está em jogo a correlação

a posiçáo do sujeito que olha com relação ao enÍ-ermo configurou-se de

entre o hospital (lugar de assistência, de observação e de terapia) e unl grupo de técnicas e de códigos de percepção do corpo humano. "Pode-se dizer que colocar em relação elementos diferentes (alguns novos, outros preexistentes) foi realizado pelo discurso clínico; é ele,

ctíNtcA

\Ctinique)

79

enquanto prática, que instaura entre todos eles um sistema de relações que não é'realmente' dado nem constituído de antemão. Se há uma unidade, se as modalidades de enunciação que

utiliza ou

às quais dá

lugar não são simplesmente justapostas por uma série de contingências

históricas, é porque faz funcionar de maneira constante esse plexo de relações" (AS, 73).

Olhar, sujeito.

Na medida em que as modalidades de enunciação manifestam a dispersão do sujeito e não a síntese ou a função unificante, a expressão 'blho clínico" não é muito feliz

(AS, 74). Ciência, formação discursiva. A clínica não é uma ciência, nem responde aos critérios formais, nem alcança o nível de rigor da física ou da química. Ela é o resultado de observações empíricas, ensaios, prescrições terapêuticas, regulamentos institucionais. Mas essa

não ciência não pode ser excluída da ciência. Ela estabeleceu relações precisas com a Íi-

siologia, a química, a microbiologia. Seria presunção atribuir à anatomia patológica o estatuto de falsa ciência (AS, 236). Trata-se de uma formação discursiva que não se reduz nem à ciência nem ao estado de disciplina pouco científica. Clinique [458]: AN,

2s, 34, 49, 63-65, 98,

1

1

0, 21 5, 226,245 247,269,283, 302-303. AS,

141, 166, 205, 208 ,212,218,225,227,236,238,240,242,245.

DEl,67, I 40,

25'27,17,72-74,86,95,99,

1,18, 191, 369, 498-499,558, 590, 602,6s6,

676,678,680,688 689,691,696,708,713 714,722,785-786,843. DE2, 11,29.48,62,104, 107, ts7 161.,239,211,316, 32t 322,324, 409. 481, 522, 524,620,676. DE3, 13,27 , 44,50 5 1, 88, 141, I 46, I 88, 190, 214,33t,377,390,393, 399, 102-103.,10e, s21, 571, sas,677,739.DF4,26,12,16,66-67, tio,82,393,591,619, 633,676,748. HF,315,387.

41,87,91,

r3[.].

IDS,34,

167, 189. MC,360,370.

67-79,81,82,84 90,92,94 102, l0s, 107-128, 130-132, 134 143,

1,19,

156,162-166,168-169,172-173,177

188,196 197,199200,202,210-2]11,213.OD,66.PP,12,97,114,122,132-133,140-141,171,183,t84 226-263.267 ,278 279,293,299 -301, 304-307 ,309

.:;=.

HSl,

MMPE,3s,97. MMPS,34,93. NC, X-XI, XI\r-XV,2,28-29, 47,51 63,

3I

0,

3 r

3,

3 I

178, 180

l8l,

185,195-191J,

6, 324-326,328-330, 332-334, 336. Sp. 226, 252.

coclTo

O cogito e o impensado. E uma das figuras da analítica da finitude. Yer: Homem. Cartesiano e kantiano. Foucault fala de um duplo deslocamento do cogito moderno (isto é, a partir de Kant) a respeito do cogito cartesiano: l) à diferença de Descartes, não é a forma geral de todo pensamento (inclusive do erro e da ilusão); no cogito moderno, trata-se, antes, de fazer valer a distância que separa e, ao mesmo tempo, une o pensamento

com o não pensamento. 2) O cogito moderno, mais que uma descoberta, apresenta-se como uma tarefa: a de explicitar a articulação entre pensamento e não pensamento. Por isso, no cogito moderno, o "eu penso" não conduz à evidência do "eu sou" (MC, 334-335).

Fenomenologia. A fenomenologia uniu o tema cartesiano do cogito ao transcendental que Kant deduziu de sua crítica a Hume (MC, 336). Enunciado. A anáiise dos enunciados se realiza sem referência a um cogito (AS, 160-161). Yer: Discurso. Loucura. As páginas de Histoire de la folie à lkge classicl ue dedicadas a Descartes deram lugar a uma polêmica e Derrida ("Cogito et Histoire de la folie'l In Llécriture et la différence, Paris, 1967,p.51-97), acerca da relaçâo entre cogito e loucura. Enquanto, para o primeiro, tratase de uma relação de exclusão total, para o segundo, no entanto, a loucura afeta apenas de

entre Foucault

maneira contingente algumas regiões da percepção sensível; a hipótese do sonho, em todo caso, seria mais arriscada que a hipótese da loucura. Foucault responderá extensamente em

8

0

coGtro

duas ocasiões à interpretação de Derrida: "Mon corps, ce papier, ce feu" (D82,245-268), "Réponse à Derrida" (D82,281 295). Cogtro [a9]: AS, 161. DEl,455,609-610. DE2,26-5,281. DE3, 4Q..DF4. i-76.HF,187,209-210, 114. HS,26,28.

MC,

323, 326,333-337,346-347 .

*::. COM

E

OD,49.

NTARIO (Com m enta i re)

Segundo Foucault, na episteme renascentista, saber consiste em comentar. O ser da linguagem,

durante o Renascimento, tem uma disposição, ao mesmo tempo, ternária e unitária. Por um lado, distirrgue-se entre os signos (marcas, signaturcs), o conteúdo que eles assinalam, e o nexo entre ambos. Mas a natureza das marcas, do conteúdo e do nexo é da mesma ordem da semelhança

(MC,57). Dois universos

de semeihanças (dos signos e das coisas) estão unidos pelo mesrno

jogo

das semelhanças. A sernelhança domina a trama do mundo das coisas, elas se relacionanr umas

com as outras segundo as diferentes formas da semelhança: convenientia, aemulatio, analogia, sympathio.Mas não há semelhança sem rr arca,semassinatura.O mttndo das semelhanças é un.r mundo marcado. Assim, por exemplo, há simpatia entre o acônito e os olhos. Mas essa simpatia, pela qual esse

fiuto é bom para

as

enfermidades dos olhos, permaneceria oculta, se não Êosse.r.r,raiogi" e os olhos

que existe entre os grãos do acônito (pequenos grãos negros rodeados de capas brancas)

(MC,42). A marca da semelhança entre as coisas está marcada por outra forma

de semelhança; a

simpatia está marcada pela analogia. Esse entrelaçamento eutre marcas e coisas supõe o prir.ilégio da escritura que dominou durante todo o Renascimento (as marcas que Deus pôs nas coisas) e,

portanto,

a

subordinação do som ao escrito (Adão, quando impôs nomes às coisas, simplesrnente

leu as marcas nelas postas); desde a origem, o escrito precedeu ao falado a

marca da analogia será a ernulaçâo; a da emulação, a conveniência;

a da

(MC, 53-54). Por conveniência,

a

sua vez,

simpatia.

No espaço delimitado pela defasagem entre o Lrniyerso de semelhança das marcas e o universo de semelhança das coisas, situa-se todo o saber da episteme renascentista: a eruditio, deciframento da semelhança dos signos; a diyinatio, deciframento das similitudes das coisas. "Charnemos

hern'renêutica ao conjunto de conhecimentos e de técnicas que permitem Íàzer falar os signos e descobrir seu sentido; chamemos semiologia ao

conjunto de conhecimentos e de técnicas que

permitem distinguir onde estão os signos, dehnir o que os institui como sigtlos, conhecer seus nexos e as leis de seu encadeamento. O sécu1o XVI superpôs semiologia e hermenêutica na forma da semelhança"

(MC,44).

Por isso, saber, para o Renascimento, não é

vet nem demonstrar, mas

comentar, dobrar uma linguagem com outra. O trabalho de comentar, por um lado, é uma tarefa

inÍinita; todo comentiirio poderá ser, por sua vez, dobrado por outro comentário. Mas, por outro lado, por debaixo de todo cornentário, situa-se o Têxto primitivo, cujo sentido há que restituir. 'A linguagem do sécuio XVI (entendida não como um episódio na história da 1íngua, mas como uma experiência cultural global) se encontra aprisionada sem dúvida nessejogo nesse interstício entre o Têxto

primeiro

Cornmentaire

eo

infinito da Interpretação'(MC, 56).

III4l:

AN,26.45,34,77,97,\09,157.

DEl,

165, 189,208,249,196,336, 525,613,682,782,785.

D82,221,281.292,108,457,461,712,736. DE3, 108. DE.l, 138-r39,385,423,55,1,666,795. 100, 156, 165, 166, .282, 313, 333, 352, 370. HS2, 30. 23. NC.

XII XIil. OD,

23, 25 28,

3r

IDS,

12r. MC,

5

4 57,92 95,1

32, 65, 66. PP, I 1 9. RR, I 2, 73. SP, r n. 56,

14, 131, 143,

HF.32, 169,225,55s. HS, -11 1.

MN{PE, 23. MMPS,

r -10.

coMENTÁRlo

lcommenraire)

81

,r

COMUNISMO (Communisme)

Yer: Marxismo. Communisme [14]: DF,2,193,345,738. DE3, 610, 623, 667. DF4,50,412,496.

='r1.

CONDILLAC, Étienne Bonnot (1114-1tlo)

Sobre a função da Ideologia e de Condillac particularmente na organização da medicina,

verl Clínica. 7

Étienne Bonnot Condillac [81]: AN, 174, 185, 302. AS, 2l 7. DEl, 178, 542,611,671,751. DEz,424. MC,14,70, 109- I l 0, t12, t20-122, t28-129, 133, 135, 193,204,209-210, 213,234, 248,270, 329. NC, 92-96,

4-77,79,85, 90, 96 98,

99, 105, l l 5, I 17, I 18. 130. PP, 80, 93.

§:. CONFISSÃO (Aveu, Confession)

"O homem ocidental converteu-se em um animal de confissão"

(HSl, 80). 'A confissão

é

um ritual de discurso em que o sujeito que fala coincide com o sujeito do enunciado; é também um ritual que se desdobra em uma relação de poder, porque náo se confessa sem a presença, ao menos virtual, de tm partner que não é simplesmente um interlocutor, mas a instância que requer a confissão, a impõe, a avalia e intervém para julgar, punir, perdoar, consolar e reconciliar; um ritual em que a verdade se autentica pelo obstáculo e as resistências que teve que vencer para formular-se; um ritual, enfim, onde apenas a enunciação, independentemente de suas consequências externas, produz em quem o articula modificações intrínsecas [.

(HSl, o

82-83). Na

..]

"

Antiguidade. Estritamente falando, segundo Foucault, não encontramos

ritual da confissão na Antiguidade grega, nem na helenística, nem na época romana. Existem

certas práticas, como o exame de consciência, as práticas de consulta. Existe também a obrigação de dizer a verdade ao diretor de consciência ou ao médico, de ser franco com os amigos,

mas esse "dizer a verdade" é só instrumental, não é operador de salvação, de saúde. o sujeito da Antiguidade convertia-se em sujeito de verdade de um modo muito diferente de como ocorre na confissão. Na Antiguidade, a verdade em questão era a verdade dos discursos ver-

dadeiros (}J5,346-347). Na confissão, o sujeito da enunciação deve ser o referente do enunciado; na filosofia greco-romana, na prática da direção espiritual, ao contrário, quem deve estar presente na verdade do discurso é quem guia. É ele quem deve poder dizer: "Essa verdade que te digo, tu a vês em mim" (Hs, 391). No cristianismo primitivo, no monasti-

cismo.

O momento em que a tarefa de dizer a verdade sobre si mesmo se inscreve no proce-

dimento indispensável da salvação foi um momento absolutamente capital na história da subjetividade ocidental (Hs,346). o curso dos anos 1979-1980 no Collêge deFrance,Du gouvernement des vivants, esteve em grande parte dedicado ao tema do exame das almas e B2

COMUNISMO (Communisme)

da confissão no cristianismo

primitivo. A história da prática penitencial do século II ao sécu-

lo V mostra qte a exomologesls (confissão, reconhecimento) não era uma confissão verbal analítica, nem das faltas, nem das çircunstâncias; por outro lado, ela não obtinha a remissão pelo simples fato de ser formulada na forma canônica diante de quem tinha o poder de redimir os pecados. A penitência era, antes, um estado no qual se ingressava e do qual se saía ritualisticamente. Durante o período da penitência, o penitente reconhecia suas faltas com sacriticios, austeridade, modo de vida; a expressão verbal não tinha papel fundamental. Nas instituições monásticas (Foucault se ocupa da obra de Cassiano, Institttições cenobíticas e

Conferências), a confissão se enquadra no marco da direção espiritual. Aqui, é necessário analisar o modo de dependência com reiação ao mestre, a maneira de ievar a cabo o exame de consciência, a obrigação de dizer tudo sobre os rnovimentos da alma. A confissão prescrita por Cassiano não é a simples enunciação das faltas cometidas, nem uma exposição global do estado da alma, mas a verbalização permanente de todos os movimentos do espírito (DE4, 125-128). A partir da Idade Média, durante a reforma. Na evolução da prática cristã da penitência, é necessário prestar atenção, por um lado, à relação confissão/penitência, por outro, à função da confissão. Quanto ao primeiro aspecto, como dissemos, originariamente a conÍissão não Íbrmava parte do núcleo da penitência. Quanto ao segundo, a função da confissão, na penitência, modificou-se notoriamente. A partir do século VI, com o que se denominou

penitência tarifada, a confissão Çomeça a inscrever-se no coração da prática da penitência. Trata-se de um modelo irlandês, não latino, de matriz laica, judicial e penal. Devido ao fato de que cada falta grave requeria uma satisfaçáo proporcional, a enumeração das faltas, sua conflssão, tornou-se necessária. Mas, aqui, a confrssão das fàltas, por si mesma, não tem valor eficaz; sin-rplesmente permitia ao sacerdote estabelecer â pena. A partir do século XIII, assis-

timos a uma reinserçáo da confissão nos mecanismos do poder eclesiástico. O Concílio de Letrán, de l2l5,estabelece a obrigação para todos os cristãos de confessar as suas faltas graves.

A frequência dessa prática era pelo menos anual, mas se recomendava que fosse mensal ou semanal. A prática da confissão converte-se assim em uma obrigação regular, contínua e exaustiva (não só os pecados grayes, mas também os veniais). O sacerdote, por sua vez, com suas perguntas será o garante dessa exaustividade. A penitência converte-se, a partir desse momento, estritamente, em um sacramento. * A partir do século XVI, assistimos a um processo de cristianização em profundidade. Nesse processo, encontramos, por um lado, a extensáo do

domínio da confissão: tudo ou quase tudo da vida do indivíduo deve passar pelo filtro

da confissão. Por outro lado, o fortalecimento da figura do confessor que, além da absolvição,

disporá do direito de exame da vida do penitente e de toda uma série de técnicas para levá-lo a cabo. Tambérn a partir do século XVI, baseando-se na pastoral de São Carlos Borromeo, conjuntamente com a conÍissão, se desenvolveráaprática da direção de consciência. Com o diretor, há que tratar de tudo o que concerne à pessoa interior: pequenas penas do espírito, tentaçoes e maus hábitos, repugnância ao bem, etc. Durante a época da Reforma e da Contrarreforma, a prática da confissão transÍbrma-se, especialmente em relaçáo com o sexto mandamento ("não cometer atos impuros"): o antigo exame era um inyentário das relações permitidas e proibidas; o novo, no entanto, é um percurso meticuloso do corpo, uma anatomia do desejo, urna cartografia pecaminosa do corpo (AN, 155-186). Scientia

sexualis. Segundo Foucault, historicamente há dois grandes procedimentos para produzir coNFlSSÃo (Confesslon)

83

a verdade

do sexo: ars erotica e scientia sexualis. Na primeira, a verdade do sexo é extraída

do próprio pÍazer; na segunda, a verdade do sexo aparece em um procedimento de saberpoder cujo eixo é a confissão (aveu). Ainda que a confissão tenha permanecido conservada no ritual da penitência durante séculos, apesar disso, com a Reforma e a Contrarreforma, com a

pedagogia do século XVIII e a medicina do século XIX, perdeu sua localização ritual exclu-

siva. A conÍrssão começou a ser utilizada em toda uma série de relaçÕes: pais-filhos, alunospedagogos, enfermos-psiquiatras, delinquentes-expertos. No que concerne ao sexo, o proce-

dimento da confissão sofreu uma série de transformações que permitiram ajustar o ritual da confissão à regularidade científica: 1) pela codificação clínica do"fazer-falar" (combinando o relato com os signos e os sintomas decifráveis), 2) pelo postulado de uma causalidade geral e difusa (o sexo pode ser causa de tudo e de qualquer coisa), 3) pelo princípio de uma latência intrínseca da sexualidade, 4) pelo método da interpretação, 5) pela medicalização dos efeitos da confissão (HSl, 84-94) . Como prática judicial. Na época clássica, o corpo do condenado não só era o objeto do castigo, do suplício, mas estava inscrito no procedimento que devia a verdade acerca do crime. Apesar de seu caráter secreto (é celebrado na ausência do acusado), escrito e submetido a regras rigorosas, o procedimento penal da época clássica tende necessariamente à confissão. Ela é, ao mesmo tempo, uma prova tão forte que náo requer

produzir

outras e uma vitória sobre o acusado. 'A confissão, ato do sujeito criminoso, responsáve1 e falante, é a peça complementar de uma informação escrita e secreta" (SP, 42). Mas, por um lado, por mais importante que seja, a confissão não basta para condenar; é necessário que esteja acompanhada de índices que mostrem sua veracidade e, além do mais, se for o caso, o juiz deverá realizar indagações complementares. Por outro lado, deve ser obtida respeitando certas formalidades e garantias; apesar do uso da força, da coerção e da tortura, requer-se que seja "espontâneal Eis, pois, o caráter ambíguo da confissão no procedimento penal da época clássica: elemento de prova e contrapartida da informação, efeito da coerção e transaçãO Semivoluntária (SP, 43). Nos catálogos de prova judicial, a confissão aparece nos séculos XIII e

Freud. "Freud transferirá da rígida retórica barroca da Igreja ao relaxante divã da psicanálise" (DE3, 675).

XIV (SP,43). Yer: Parresía, Poder pastoral. Barroco

e

a

confissão

Aveu [338]: AN, 1 55, 157 -).64, 17 1-17 3, 177 , 179-180, 188- 1 89, 198, 202 ,201-205,208,217,225,235-236, 238, 309. DEI,r73,t84,270-271,337,666,669,7s6. DE2,341,391,585,690,695,809-811,813-814,825.D83,90,103,230,235, 245 246,248,255,282,303,314,316 3r8,326, 4tt-4t3,444,493,526,549,s64,658 660,662.

DE4,t25 r29,169,282,

306-307,352,4t6,,1r9,633,656-659,665.HF,79,191,507,616,627.HS,216,316,338,347,352

3s3,39r,393,461.HS1,

27,46,53,61,78,80-91,93-94,96, 148, 1s3,

173. HS2,7,1.

233-234,240,256-257,267,272,275277,279.5P,4243,47

MC,

134.

MMPS,79. PP, 12,33, 158-160, 173, 175, 184

185,

48,59,63,72,99,263.

Confession Ir85]: AN, 155,157, 159, 161-178, 181-187, 189, 195,202-205,210-2).1,215,217-218,247.D87,270,438. 583, 69s, 809 8 1 l, 8 14. DE3, 103, 16 1, 230, 245, 255,257 ,303,317 ,375,382,411 -413,441,526-527 ,549,564, 658, 674-

DE2,

675.DE4,125,147,17)..405,107,625,633,657,783-784,795,798,805-806,811-812.HF,82,116-118,r9r,268.HS,111, 151, 316,346,352, 373,461.

:.=. CONTRAT

HSt, 27 28, 78,80,82,85,87,9r,93-9,1.

HS2,47. IDS,5. OD,63. PP,257, SP,45.

O (Contrat)

A teoria política dos séculos XVII

e

XVIII parece obedecer

ao esquema de uma sociedade

que se teria constituído a partir dos indivíduos, segundo as formas jurídicas do contrato e do B4

CONTRATO (Contrat)

intercâmbio. Mas, nessa mesma época, não se pode deixar de lado que existia uma técnica para constituir efetivamente os indivíduos como elementos correlativos de uma forma de

poder e saber. O indivíduo é, assim, o átomo fictício de uma representação contratual da sociedade; mas, ao mesmo tempo, uma realidade fabricada com a tecnologia da disciplina (SP, 195-196). * Para pensar o nexo social, o pensamento político burguês do século XVIII se serviu da ftrrma jurídica do contrato; o pensamento revolucionário do século XIX, por sua vez, fez uso da forn'ra lógica da contradição (D83,426). * Podem-se opor dois grandes sistemas de análise do poder. No que encontramos nos filósofos do século XVIII, o poder é concebido valendo-se de um direito originário que se cede, que é constitutivo da soberania e que tem o

contrato como matriz originária. Aqui, quando o poder excede os limites do contrato, encontramos a opressão. No outro moclelo, a opressão não se apresenta como a transgressão de um contrato, mas como um enfrentamento perpétuo de forças, como a continuação da guerra, da dominação (IDS, 17). Contrat[105]:4N,83,85,88, DE3, 79, 83, 169

t7

141, 193. AS,69, 110.

DEr,

178, 180,223-224,38s,798. D82,167,535,68-]

4t2,423. HSl, 184. HS3, 94, 95. IDS, 14-17, 83, tt5, 186, 197,215,218. NC, XI,61,66, 83-85. OD, 33, 92-93, I58,

l7r,

684.

3,201.2()5,255,123. Q6,642.650.654,77 6. DF4,2rr.237 ,5 14, 567. HF, 75, I 24, 125, 589, 658. HS, 13. PP, 59. SP, 31,

195, 224, 228, 3r0.

:.: CONTROLE (ContrÔle) Com a extensão das disciplinas, no século XIX ingressartos na época do controle so* penais precedentes (DE2, 593). O panoptismo é uma das

cial, à diferença das sociedades características fundamentais de nossa sociedade. E um tipo de poder que se exerce sobre os indivíduos sob a forma da vigilância individual e contínua, sob a fbrma do controle, do castigo e da recompensa, e sob a forma cla correção, ou seja, da formação e da transformação

dos indivíduos em função de certas normas (D82, 606). Humanismo. "Nós nos dizemos: con.to telnos um fim, deveuros controlar nosso funcionamento. Enquanto que, na realidade, é apenas sobre a base dessa

possibilidade de controle que podem surgir todas as ideologias,

as filosofias, as rnetafísicas, as religioes que oferecem uma determinada irnagem capaz de

polarizar essa possibilidade de controle do funcionamento. Você entende o que quero dizer? É a possibilidade de controle que faz nascer a ldeia de fim. Mas a humanidade não dispõe de nenhum fim, ela funciona, controla seu próprio funcionamento e cria, a cada instante, as

tbrmas para justificar esse controle. O humanismo é uma delas, a última'

(DEl, 619).

Ver:

Di sciplina, Parúptico, Razão de Estado. Contrôle [607]:4N,36,39, 41,14,47 48,80 81, 139, 149, 151, 155, 164, 179-180, 189-191,200 201,206'208,217218,134-236,238239,241-243,250,253-255,257,260,275,279280.282,290,292,307,309-310.AS,86,2r4.DEl.11l, 338,i50,353,360,363,377, 415,,135,590,619,690,76t.D82,28,69,175,187,300,311,315-316,319,323326,328,337 383,388,390-391,1r7,419,,131,445,455 456,460,464466,468-470,494-495,497,539,592-593,595 596,599-602,604,610,613-620, 638, 644, 654, 662-663,683, 70 I, 7 17 ,7 28-731,7 18,7 51-7 55,758,796-i97 ,822, 825 826. DE3, t4. l7 ,

607

2l').2,25,51,65,7478,91.93-94,112,124,150,1s2153,t59,1t-3.177,182-183,193,200,202,206,210,213,220223, 225,228,233-234,2s9,299,336,3{0,384,3tt6,45.2,464,467 468,194,513 514,516 518,529,550,563,566,629,612,666, 670 671,674,681,695,731,734,737 738,760,766.773,802. DE4,35,38,62,71,116,147.156, r92. t94-t96.202-203.226,227 ,210, 263, 278. 36.{,

40

5,466,497 , s I 3, 557-558, 581, 604, 612,

6,10.

175, 177, 183, 189-190, 645, 662, 66s, 688, 709,

cONTROLE (Contrôle)

85

721,739,797,803,809.HF,16,78-79,t20,135,152,163,171,508,518,538,548,554.HS,60,98,119,149,269,314,358, 375,413-414,418,438.HS1,20,26,40,56-57,61,66,118,132,138_140,148,155,157,159,161,163,167,179,183184, 187, 193, 195.

HS2,34 35,53,64,76,86,90, r05,

141, 194. HS3,21,78,80_81,273.

IDS, 18,23,28,30, 119, 152,

159_160,

163 164,194,216,2t7,223-224,23t.MC,279.MMPB,9,32.MMPS,9,32,81,84_85.NC, 19,26,27,30_31,46,66_67, 18 l. OD, 23, 37,38,44,67 -68.pp, 17,19,49 52,71,78,87,1 16, 124, 18 1, 219, 310, 3 18. Sp, I 5, 32, 34, 71,78,82-83,91, 105, 128,132,138-139,141-144,149,150-i54,156, t59,162-163,167,169,170_171,174-179,rls,193, 20t,206-207,213,215,2t6,220,223-224,241,249 25t,275,284 285,287 -288,302-303, 306, 3 I 3.

72,75,79-81,179,

*â. CONVENIENTIA

Uma das figuras da semelhança (MC, 33). Ver: Episteme renascentistÇt. Convenientia [8]: DE1,481,484,489. MC, 33,36,

==.

CONVERSÃO (fprsfro

40.

phe, Conversion)

Epistrophé platônica

e epistrophé helenístico-romana. O obj etivo comum das práticas de si é a conversão até si mesmo (HS3, 81). Trata-se de um tema originariamente platônico

(Foucault o analisa a partir de Alcibiades 1), mas que sofreu, como em geral as práticas de si mesmo, uma importante reformulação na época helenística. Além de diferenciar a epistrophé platônica daquela da época helenística e romana, é necessário distingui-la também da noção cristã de metánoia - termo que também se traduz por conversão; Foucault dedica a essas noções a aula de 10 de fevereiro de 1982 de Lherméneutique du sujet (197-219). Quanto às diferenças entre a epistrophé platônica e a helenístico-romana: l) Em Platão, o movimento da epistrophé tem como objetivo desviar-se das aparências. Nesse movimento, está em jogo a oposição entre o mundo das aparências e o mundo do ser. Na epistrophé daépoca helenísticoromana, por sua vez, o movimento da conversão não se realiza entre dois mundos, mas em

um espaço imanente onde se distingue o que depende de nós do que não depende de nós. 2) A conversão platônica implica o reconhecimento da própria ignorância, para ocupar-se de si mesmo; além do mais, esse ocupar-se de si implica a liberação do corpo. Na época helenística e romana, ocupar-se de si é também ocupar-se do próprio corpo.3) Em Platão, o encaminhamento ao ser realiza-se através do conhecimento. Na conversão helenístico-romana, o conhecimento

ocupa um lugar importante, mas não fundamental. Epistrophé e metánoia. Com relação às diferenças entre a epistrophé helenística e a conversão cristã: 1)

A diferença dametánoia cristã, a epistrophé náo implica uma alteração brusca, mas um proteger-se, um defender-se, um equipar-se. Trata-se de ser senhor de si mesmo, de possuir-se e gozar da posse de si. 2) No cristianismo, essa alteração brusca implica a passagem da morte à vida, das trevas à luz. O objetivo da epistrophé é o si mesmo, concebido frequentemente como umafortaleza. Esse si mesmo é pensado, umas vezes, como já dado, outras, como o resultado de uma elaboração. 3)

A metánoia está dominada pela renúncia a si mesmo; na epistrophé, por sua vez, não encontramos essa renúncia a si mesmo. A conversão é um voltar-se sobre si mesmo, um retirar-se 86

CONVENIENTIA

(anachóresis) em si. Ver: Anachóresis. Conversão do olhar. Orientar o olhar, dirigi-lo corretamente, é um componente essencial da conversão. Também aqui temos que distinguir entre a conversão platônica do olhar (exercícios de conhecimento), a helenístico-romana (exercicios de concentraçáo) e a cristã (exercícios de deciframento). Para Platão, a orientaçáo do olhar

tem como finalidade converter-se a si mesmo em objeto de conhecimento; no cristianismo, o olhar se apresenta como vigilância das imagens, das representaçoes que podem invadir e

turvar nossa alma; na cultura helenístico-romana do cuidado de si mesmo, trata-se de desviar o olhar dos outros e do mundo exterior. Assim, em Plutarco, por exemplo, encontramos toda

uma série de exercícios anticuriosidade: abrir o próprio cofre (recordar o que foi aprendido), caminhar olhando só adiante. Epistrophê [4O) : DE4,

3-56.

HS, 197,

20 | -203, 207 -209, 2 14-2 I 5,

2

I 8.

HS3,

8

l.

715. DEr, 191,524,601. D82,145,309.D83,70,479,512.DE4,51,356,410,675,714 HF, 17, 35, 49-50, 84, 138, 405, .140. +49,453,53,1, 539, 620. HS, t7,30,82,97,99, 163, 172, t74, 183, 191, 197, 199 209, 215-216,218,221,237 238,242-243,247,249,257,277,295-296,301 302,313,315,410.HS2,220.HS3,81-82.IDS, 70-71, 108, 149, 191. NC, 32, 148, 190. RR, 24,27 . SP, t25,184,2t4,242.

Conversion [171 /: AS,

145.

?ii. CORPO (Corps)

Alma, espírito, enfermidade. Nem a medicina árabe, nem aquela da Idade Média, nem tampouco a pós-cartesiana admitem a distinção entre enfermidades do corpo e do espírito (MMPS, 94).* Acoincidência exata entre o corpo da enfermidade e o corpo do homem doente é um dado histórico e transitório (NC, 2). Yer: Clínicq. Analítica da finitude. Cada uma das formas positivas pelas quais o homem apreende que é finito (o modo de ser da vida, do trabalho e da linguagem) lhe é dado a partir do fundo da própria finitude. O modo de ser da vida lhe é dado fundamentalmente pelo próprio corpo (fragmento de espaço ambíguo cuja espacialidade própria e irredutível se articula sobre o espaço das coisas) (MC,326'327).. Com o aparecimento do homem, esse duplo empírico-transcendental, surgirá um tipo de análise que se aloja no espaÇo do corpo e que, mediante o estudo da percepção, dos mecanismos sensoriais, dos esquemas neuromotores e da articulaçáo do organismo com as coisas, constituem uma espécie de estética transcendental. Descobre-se, então, que o conhecirnento tem uma natureza que determina suas formas e que the manifestam seus conteúdos empíricos (MC, 330). Aphrodísia, dietética. Toda uma secção de Lusage des plaisirs está dedicada à problemática do corpo ern relação com os aphrodísia na Antiguidade clássica (HS2, 109- 156). 'A preocupação principal dessa reflexão Ia dietética] era definir o uso dos prazeres (suas condiçoes favoráveis, sua prática útil, sua rarefação necessária) em função de certa maneira de ocupar-se de seu corpo" (HS2, l l2). De igual modo, uma secção de Le souci de soi se ocupa do tema na época helenística (HS3, 119-170). "Nesse quadro, táo marcado pela preocupaçáo com o corpo, a saúde, o meio ambiente e as circunstâncias, a medicina coloca questão dos prazeres sexuais: de sua naturezae de seu mecanismo, de seu valor positivo

a e

negativo para o organismo, do regime ao qual convém submeter-se" (HS3, 126). Carne, sexo. Com a pastoral da carne, aparecerá um novo discurso que seguirá atentamente a linha de união entre o corpo e a alma. Fará a malha da carne aparecer debaixo da superfície dos pecados CORPO (Corps)

B7

(HSl,28-29). Yer Carne, Sexualidade. Ciências humanas.

Sobre o estudo dos mecanismos

de poder que investiram os corpos, os gestos, os comportamentos, há que edificar a arqueo-

logia das ciências humanas (D82,759). Cinema, sadismo. À diferença do sadismo (que rompia sua unidade, fragmentava-o para o desejo), no cinema contemporâneo (Foucault se refere a Schroeter), o corpo se desorganiza, converte-se em uma paisagem, em uma caravana,

etc. Não se trata de fragmentá-lo, mas de fazer nascer imagens para o prazer (DE2, 820). Corpo do rei. * Corpo duplo, segundo Kantorowitz. Comporta um que elemento transitório

nasce e morre e outro que permanece através do tempo (SP, 33). * É o extremo oposto do panoptismo (SP,210). Corpo sem órgãos. Yer Deleuze. Corpo social, população. A

teoria do direito reconhece o indivíduo e a sociedade, o indivíduo que contrata e o corpo social constituído pelo contrato voluntário ou implícito dos indivíduos. Nas tecnologias modernas do poder, o objetivo não é o corpo sociai, tal como o deÍinem os juristas, mas o corpo múltiplo, a população (IDS, 218). O corpo, do castigo à correção. "Se se Írzesse uma história do

controle social do corpo, seria possível mostrar que, até o século XVIII inclusive, o corpo dos

indivíduos é essencialmente a superfície de inscrição de suplícios e penas. O corpo estava feito para ser supliciado e castigado. |á nas instâncias de controle, que surgem a partir do século XIX, o corpo adquire uma significação totalmente diferente; não é mais o que deve ser

supliciado, mas o que deve ser formado, reformado, corrigido, o que deve adquirir aptidÕes, receber certo número de qualidades, qualificar-se como corpo capaz de trabalhar" (DE2,618).

l)

Suplício. Surveiller

et

punir

começa com a descrição do suplício do parricida Damiens.

Foucault lhe contrapõe um horário que regula a utilização do tempo nas prisões. Entre uma tecnologia punitiva e outra, o estatuto do corpo mudou. No suplício, o corpo era o objeto maior da repressão penal; tratava-se de um enfrentamento ritual entre o corpo do rei e o corpo do condenado. Segundo a definição de laucourt, um suplício é uma pena corporal, dolorosa, mais ou mcnos atÍoz; a produção regrada e rituai de certa quantidade de sofrimento (Sp, 37 38). O corpo é, ao mesmo tempo, o ponto de aplicação do castigo e o lugar de extorsão da verdade

(SP,46). Um corpo destruído parte por parte, reduzido a pó pelo poder infinito do soberano (SP, 54). Mas, antes do castigo, o corpo supliciado se inscreve no cerimonial judicial que produz a verdade (SP, 39); encontramos, assim, a confissão obtida por tortura. Na prisão, o corpo se converte não no objetivo, mas no instrumento da punição. Se ele é enclausurado, se se o faz trabalhar, é para privar o indivíduo de uma liberdade que se considera perigosa. "O corpo, segundo essa penalidade, é colocado em um sistema de coerção e de privação, de obrigações e de proibições" (SP, 16). Mesmo na pena de morte, o contato corpo a corpo entre os

executores e o executado é reduzido ao mínimo; trata-se de alcançar a vida mais que o corpo. E, no entanto, no sistema punitivo das prisões, sobrevive um fundo de suplício, um suplemen-

to de castigo que afeta o corpo: trabalhos forçados, má alimentação, abstinência sexual (SP, 21). 2) Contrato, marca. A reforma penal, que começa no flnal do século XVIII com Beccaria, Servaa, Dupaty e outros, inscreve-se, ao nível dos princípios, na teoria geral do contrato.

o criminoso aparece como o inimigo do pacto; não se enfrenta agora ao corpo do rei, mas ao corpo social (SP,92). As penas serão calculadas não em razão do crime, mas de sua repetição possível, para evitar a reincidência e, além disso, o contágio. Castigar se converterá, então, em uma arte dos efeitos. Por isso, mais que a realidade corporal da pena, o que deve ser maximizado é a sua representação. 'A arte de punir deve repousar em toda uma 88

CORP0 (Corps)

tecnologia da representação" (SP, 106). Os trabalhos públicos foram a pena especialmente proposta pelos reformadores. "No antigo sistema, o corpo dos condenados se tornaYa coisa do rei, sobre a qual o soberano imprimia sua marca e deixava cair os efeitos de seu poder. Agora, ele será antes um bem social, objeto de uma apropriação coletiva e

útil" (SP,

I I I ). Por outro

lado, na punição se poderá ler as leis: assim, por exemplo, se se trata de um condenado à morte por traiçáo, eie irá com uma camisa vermelha com a inscrição "traidor"; se de um parricida, a cabeça será coberta por um véu negro e em sua camisa estarão bordados os instrumentos que utilizou para o crime; se, de um envenenador, serpentes bordadas. "Elisão do corpo como sujeito da pena, mas não necessariamente como elemento em um espetáculo" (SP, 97). 3) Disciplina. A prisão não responde aos objetivos do castigo previstos pelos reformadores. No entanto, será ela que colonizará as formas da penalidade no século XIX. A prisão constitui uma maneira de traduzir nas pedras a inteligência da disciplina (SP, 252). Assim, embora Surveiller et punir Íenha por subtítulo "O nascimento da prisão I trata-se, na realidade, de uma genealogia da sociedade disciplinar. Com a disciplina, nos séculos XVII e XVIII, nasce uma arte do corpo humano que busca não apenas o acréscimo de habilidades, nem tampouco o fortalecimento da sujeiçáo, mas a formação de um mecanismo pelo qual o cgrpo se torna tanto mais obediente quanto mais útil, e vice-versa. Com as disciplinas, o de corpo entra em uma maquinaria que o explora, desarticula-o e o recompõe' Não se trata obter corpos que façam o que se deseja, mas que funcionem como se quer, com as técnicas, a rapideze a eficácia que se pretende deles. As disciplinas são, ao mesmo tempo, uma anatomia

política do corpo e uma mecânica do poder (SP, 139-140). A disciplina fabrica a partir dos corpos que ela controla uma individualidade dotada de quatro características: celular, orgânica, genética e combinatória. "O corpo já não tem que ser marcado, deve ser direcionado; seu tempo deve ser medido ou plenamente utilizado, suas forças devem ser continuamente aplicadas ao trabalho. A forma-prisão da penalidade corresponde à forma-salário do trabalho" (D82,469). Para uma exposição detalhada da relação disciplina-corpo, ver o verbete DlsciSe tomarmos como referência o que em Le pouvoir psychiasomática (PP,56), podemos dizer que as relações singularidade denomina triqueFotcault de soberania situam-se abaixo ou acima delas. Por um lado, o corpo dos súditos é um corpo fragmentado. Um exemplo disso é o ritual do suplício; aqui o corpo é dividido, desmembrado, desarticulado. Por outro, o corpo do rei é um corpo duplo. O dispositivo disciplinar, no entan-

plina.Disciplina, soberania.

to, tem por objetivo a singularidade somática. Mais precisamente, o objetivo das disciplinas é converter a singularidade somática em sujeito de uma relação de poder e, desse modo, fabricar indivíduos; "[...] o indivíduo não é outra coisa senão o corpo assujeitado' (PP, 47). História, genealogia. Em "Nietzsche,la généalogie, l'histoire" (DE2, 136-156), Foucault anali-

termos como"(Jrsprurg' (origem), "Herkunft" (proveniência), "Entstehun§' (emergência). Trata-se dos conceitos que definem a prática nietzschiana da genealogia. Pois bem, o corpo e tudo o que the pertence (alimentação, clima) é o lugar da sa o uso que Nietzsche faz de

Herkunft. Sobre o corpo encontram-se as marcas dos fatos passados, nele nascem os desejos, as insuficiências, os erros, expressam-se as lutas. 'A genealogia como aná1ise da proveniência é, então, a articulação do corpo e da história" (D82, 143). Medicina, capitalismo. Yer: Capitalismo.Morte, cadáver. Com a anatomia patológica do século XIX, o cadáver, resto inanimado do corpo humano, haverá de

se

converter na fonte e no CORPO (Corps)

89

momento mais claro da verdade do corpo (NC, 135). ver Clínica. Poder, política. O corpo vivente, o corpo individual, o corpo social e a população se converteram no verdadeiro objeto da política moderna (IDS, 216). * O corpo não existe como um artigo biológico ou um mate-

rial, mas dentro e através de um sistema político (DE3, 470). Yer: Biopoder, Biopolítica. Possessão. Para São Tomás, a liberdade é anterior à sua alienação pela possessão do demônio. A possessão concerne apenas ao corpo, nele penetram os anjos maus; mas ela não afeta nem o exercício nem o objeto da vontade, porque essa não depende de um órgão corporal. Com o

Renascimento, contudo, a possessão adquire um novo sentido, será possessão do espírito, abolição da liberdade; não é mais perversão do corpo (MMPE, 77).Yer Loucura.Simesmo,

sujeito.*NaanálisedoAlcibíadeslosujeitoéoquegovernaocorpo,oqueseservedele como instrumento (HS, 55). * No epicurismo e no estoicismo, à diferença do platonismo, o

corpo emergirá novamente como objeto de preocupação; ocupar-se de si mesmo será, ao mesmo tempo, ocupar-se do corpo e da alma (HS, 104). * Na conversão helenística e romana, à diferença da platônica, não se trata de liberar-se do corpo, mas que a preocupação pelo

corpo se torne um requisito para a adequação do si mesmo consigo mesmo (HS, 202). Ver: Conyersã0, Cuidado.Instrumentos corporais de punição. Contemporaneamente à lei francesa de 1838 sobre a internação psiquiátrica, assistimos a uma disciplinarização do espa-

ço asilar. Foucault mostra como o espaço asilar é reorganizado de acordo com os mesmos princípios que animam a formalízaçâo disciplinar projetada por Bentham (PP, 103), isto é,

visibilidade permanente, vigilância centralizada, isolamento, punição incessante. * Quanto aos mecanismos de punição, encontramos nessa época uma alternativa: coerção física ou no

restraint (segundo

a expressão

proveniente da Inglaterra em torno de 1840), ou seja, abolição

dos instrumentos físicos de punição e controle. Na realidade, na opinião de Foucault, trata-se apenas de uma alternativa de superfície. De fato, nessa época encontramos uma maravilhosa proliferação de novos instrumentos técnicos: a cadeira flxa, a cadeira giratória, a camisa de força (inventada em 1790 por Guilleret, um tapeceiro de Bicêtre), as algemas, os colares com

pontas internas (PP, 106). Foucault se detém aqui na análise desses instrumentos que manifestam uma tecnologia específica do corpo. Antes do século XIX, os numerosos instrumentos

corporais podem ser agrupados em três categorias: 1) instrumentos que garantem uma prova (cinturões de castidade);2) instrumentos para arrancar a verdade (o suplício da água); e 3) instrumentos para marcar a força do poder (marcar com fogo uma letra no corpo). Mas os instrumentos que proliferam no século XIX são de outro tipo, pertencem a uma quarta categoria; trata-se de instrumentos ortopédicos, que buscam garantir o endireitamento, o adestramento do corpo. Esses possuem três características: 1) são aparatos de ação contínua;2) seu efeito progressivo tende a que eles se

tornem inúteis (o efeito deve continuar quando re-

tirados); 3) são homeostáticos (quanto menos se resiste a eles, menos se os sente; quanto mais se resiste, mais se os sente). "Vocês têm aqui o princípio do instrumento ortopédico que é, penso, na medicina asilar, o equivalente ao que Bentham havia sonhado como forma da visi-

bilidade absoluta' (PP,108).

corpo neurológico.

Acerca do corpo neurológico e da emer-

gência, a partir desse, do corpo sexual, ver Psiquiatria. Corps 1

[j241]: AN,12,31,34,43-44,54,

r5, 1 65, 1 70- 171, 1 73 180, 183, 1 87- I 89,

I9

1 -

l-i6 158,267 268,271,281,289,295-297,308

90

CORPO r Corps)

56-58, 60-61, 64,71,74,76,80,84,87,91,95,100, 107, 109-1 1 1, 1 13, 1 16, 150, I 99,

20t 204,206-207,209-213,217

-218,221 227 ,231-236,238-243,249-2s4,

310.45,36,47,57-58,69-72,78,1),0,112,t24-1,25,132, 138, 148, 1s3,

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170, )96-197,198, 213, 253.

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218,220 222, 224-225,230,233, 240,246, 249, ).51 254, 256-257, 259, 262,264, 269,277, ZB3,3t t' , 325,327 , 334-336, 39

t,

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398, .113, 434, 440 -441, 165, 472, 176, 481,484-,185, ,188-489, 19t, 496,504, 507,

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5

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577, 596. 621,626-628, 630 632, 616, 649, 678, 685, 689, 704,7 t2-7 13,722,729,736, 754_756. 760,

764 765,767 ,800, 843-844, 846. DE2, 12, t8-23,29, 41, 53,74-75,78-83,85, 86,

1I

3, 120, 1 33, 1 39- 1 40, 142 145,

147

, r49,

l5l,155,186,200,203,226227,229,241,)43,245,217,251,253256,259,262-266,281,188,290,314,321,)27,356,377, 384.387,402404,431,447450,453,457.467,468470,475,477,495,513,520,522523,537,547,551,575,583,590,600, 608-609, 61 2,

6

1

7-61 8, 620, 622, 637 ,6,10, 643, 662, 677 , 69s-697, 699,703,7 1.2,7 t7 ,722-724,727.728,7 41 -7 42,754-7 57,

759.763,766'767,769.771

772,77s,773-779,781, 798,803-U05,807,810-81

23-25,27,36,37,41-43,51,54-55,64,66,86 87,89, 104, n2, 115-116,

1

1,81s,818-822,824 827. DE3,8- 10, 14, 16-21,

18, 121, 126, 128, 132, 135, 139, 149 153, 159, 163,

165 t66,r72,176-182,184-187,190-191, 195-196, 198 200,201-204,208-211,214 2\6,)20,222,227 228,2!-232,234 )35, 247,249,25r.255,258-259,26t-262,261.270,272 273,284,286,288,304, 310, 313, 3.2.2,333,337-338, 347,353 351,372, 376, 378-380, 382, 386, 397, 41 1, 4 14, 420-421,424-42s,432,434-435,437

,442,450,454,469-470,478,487 ,494,504,

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5-5 16,

-524-528, -538. 541-542, s16, tO9-559, -§-53, 56s--566, 575, -582, 585 587, 591, s92 594, 616,621 622,631-632,646,654,

666,

672,675,680,726,730734,736737,740.DF4,16-18,23,28,36,55,63,81 82,87,102,112,116-117,119,121,150-151,152, 157,\66,171,173 175, 183-184, 186-187, 190 191, 193-194, t96,200,213,217,226,231,233,236,239,243,246,248,252, 256,257,272,296-298, t0 r -305, _il7, 309,

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16, 330, -3.12 333,

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9- 1 0, 12,11,28-30,32,59,

60 62,64 66,73,77 -78,82,86,97, 102-103, 117,119, 121 122, 124,127,128, 1 30. 1 37 142, 148, 1 50, 152,154-155, 160-170, t78 180, 183-189, 19t-194,197.199,200-202,205-206,208,210-21r. HS2, l-5,21,23-24,28,30,39,14,19 50,52,54,58-60, 64,67 ,68-69,79,84-85,91-92,103-t07, 112,1t6-123, t25-139,141 - 149, 15 1, I 53- 1 55, 163- I 64, 170, 175,177 ,179- I 80, 193, 220,228,230,232,234,25t,256-258,261 262,265,276,278. HS3, 22-24,27,33,35-37, 40, 43, 47, 53, 55, 60, 66,70-7 4,83, 1

06, 1 15, 1 19, t22-126, t28-t35, t 38, 140- 142, 144, 146, 148- r 50, 1 52-

248,251 252,255-257,259-260,271-272,283.1D5,7,

16 1,

163- 165, t67,169,179.196,211-213,233,235

t0,16,22-30,32 33,36, 41-42,

236,

,5r-53,61,64,70,75-76,78,92, 105,1U,113,128,141,144,1s0,15-5, l-57, l6l,162,164,173-174,180-181,194-195,199,201,206,213,215-216,218-219, 44, 47

222-226,230 232.MC,7,t5,20,26,29,33,36-37,40-41,43,47,5t,56,66,84,92,115,117-118,

t20-123,134,147,149,162,

167,172,t74,180,191,202,212,222,237,24]l-242,271,276,279,28\,282-283,28s287,290,307,311,325-332,355,381, 395. MMPE, 4, 8, t2,24-25, t7,33,44,55,57 -58,64-67,74,77 -78, 92, 100, 107. MMPS, 4, 8, 12,24-25,27,33,44, 55, 57-58,

64-67,74,86, 94. NC, VI-VII, lX, XI XII, 1-3, 6-12, 14 16,25,27-28,3t-34, 42, 45-46,53,55,57 -62,70,72,74 77,8(),82, 8-5,91,93, r00, tlt-113,

ll8, l2l,

123, 126-127,129-139,142-t43,t46,\17,153, 155,162-164, 166,167-168, ).70,178-179,

186-i88, 191-193, 195- 196, 199-201, 212. OD, i3,

,13,

59, 68. PP, 4-6, I 5- 17, t9,).3,25 27,29-30,38.42-44,46-51,

54, 56-59,

6t-63,73,75-79,83,88,97,101,t06107,1t4,116-1]17,1.20,129,134,),39-140,144,160,163,178180,185-186,188,190, \91,

r97 ,

2t4-216,2»,225. 230,234, 236,242, 246,248,

288-290,294-295,297,299-301,303-304,306-307,309,

75,90,95, 106,

lt l,

253, 260-26t, 264, 267 -269, 271 -27 3, 277 -278,28 l -2ii2, 284, 286,

311, 314-3r6, 319-319, 322-323, t27,330-,131, 335. RR,38,71-73,

138, 145,147,154,17t,198,202,204. SP,9, 11, 14,16 19,21-22,28-35,38 40,41-50,52-55.58-60,67,

69,7t,75-76,78,80,81,83-84,92 99, 101, 103, 105,106, 109, 1i1, 117-118, 120, 128, 130-r34, 1i7-147, r53-155, 157.159, 163.173,t75,179-180,186,190

191,193,195,198-200,203,207,209-2t2,215,217-219,22t-223,227-228,233,235,237,239,

242,245,258,262,264, 270,276, 282, 286. 300 302, i05, 308 312,314-315.

§r CRISTIANISMO (Christianisme) Ocupamo-nos mais extensamente da questão do cristianismo em cada um dos verbetes que tratam dos temas através dos quais Foucault o aborda; remetemos a eles. * "O cristianismo não

CRISTIANISMO

(Christianisme) 91

e apenas uma religiâo de salvação, mas também uma religião confessional que, muito mais do que as religiões pagãs, impõe obrigações muito estritas de verdade, de dogma, de cânon' (DE4, 804). O interesse foucaultiano pelo cristianismo passa fundamentalmente por tais obrigações de

verdade que foram forjadoras das formas da subjetividade e do poder no Ocidente, inclusive para além das instituições do cristianismo. Doença mental, loucura. * O cristianismo despojou a doença mental de seu sentido humano e a pensou em termos de possessão demoníaca. Mas a possessão, por exemplo, para São Tomás, concernia somente ao corpo, não à vontade nem à liberdade (MMPE, 77 -78). * O grande tema renascentista da loucura da cruz tende a desaparecer

ou a transformar-se durante a época clássica; não se tratará, então, de humilhar arazáo em seu

orgulho, mas apenas uma falsa razão. Depois de Port-Royal, há que se esperar por Dostoievsky Cristo recupere a glória de sua loucura (HF,204).Yer: Loucura. Carne.

e Nietzsche para que

O tema da carne, para Foucault, define a experiência cristã do homem de desejo. Yer: Carne,

Aphrodísia.Práticas de si mesmo, confissão. Com

o monasticismo, as práticas de si mesmo * foram incorporadas ao poder pastoral. A elaboração cristã das técnicas da confissão constitui

um momento fundamental na história da sexualidade

e

da subjetividade ocidental em geral. Ver:

Cuidado,Práticas de si mesmo,Confissão.Poderpastoral. "Precisamente, nahistória que tento fazer das técnicas de poder no Ocidente, das técnicas que concernem ao corpo, aos indivíduos, à conduta, às almas dos indivíduos, fui levado a dar um lugar muito importante às disciplinas cristãs, ao cristianismo como formador da individualidade e da subjetividade ocidentais . . [. ]" (DF-3,592).Yel Poder. Paganismo, Nietzsche. "[...] entre o paganismo e o cristianismo, a oposição não é entre tolerância e austeridade, mas entre uma forma de austeridade que está ligada a uma estética da existência e outras formas de austeridade que estão ligadas à necessidade de

renunciar a si mesmo decifrando sua própria verdade" (DE4, 406). "Sim, creio que [Nietzsche] cometeu um erro atribuindo isto Iao ascetismo cristão o mérito de fazer de nós criaturas capazes de prometerl ao cristianismo, dado tudo o que sabemos da evolução da moral pagã do século IV a.C ao século

IV d.C" (D84,406). Yer: Aphrodísia,Etica.

christianisme l33r l: AN, 64, 159,191,27 4.DE t,306-307,326,337,521,632.D82,144. DE3, ro3, t62,219,230,234, 215,257,37 t, 112, 527, 548,5,19, 558,560, 562-566, 587 , 592,593, 621,693 694,709,7 19,790. Df.4,1 08, 126, I 39, 14,1 I 48, t71 174,176,215-216,229,288,290,307 308,310,320,384,396-397,399,402,404_406,408_409,417,s07,544,545_547,551_ 553, 559--56

l,

572, 611,62r-624,626,629,633,653,657,661,669,672-6

812-8r3.HF,201,207,610.HS,11,15,21,28,65,79,105,116

/'3,697 ,699 700,702,706,7 12,7 \7,731,784, 804-806, lt7,tlg,t73-174,178,183,199,202,208,218,220,228.240.

245 217,281,312, 314, 340,345,37 4,378,381, 389-390, 393, 402-404, 419, 427 428, 461.

17,18,20,26-27,29,37-39,74,156,201,274,278.

1i=

HSr, 1 49, I 53, I 54, 2t 0. HS2, HS3, 149, 168,214,2s1,269 271,273. IDS,6. MMPE,78. Sp,58.

1

5,

CUIDADO DE SI (Epimeleia, Souci)

A expressão " souci de sol" (título do terceiro volume de Histoire de la sexualité) traduz o grego "epiméleia heautoú" (em latim "cura sui"); 'tuidado de si mesmo,,parece a melhor tradução para o português. o tema do cuidado de si foi consagrado por Sócrates; a filosofia posterior o retomou e, na medida em que ela mesma se concebeu como uma arte da existência, a

problémática do cuidado ocupou o centro de suas reflexões. Esse tema acabou ultrapassando limites da filosofia e alcançou progressivamente as dimensões de uma verdadeira cultura do

os

92

CUIDADO DE

Sl

(Epiméleia, Souci\

cuidado de si. Os dois primeiros séculos da época imperial (séculos

I-ll)

podem ser considerados

como a idade de ouro da cultura do cuidado de si mesmo (HS3, 59). Além de Le souci de soi, entre os textos publicados de M. Foucault, Iiherméneutique du sujet esÍáinteiramente dedicada à análise da cultura de si mesmo, desde o momento socrático-platônico até a Íilosofia helenístico-romana. Em outros cursos no Collêge de France, essa problemática também foi abordada. Dos Cursos ainda não publicados, no momento temos os resumos publicados no Annuaire du Collégede France e reimpressos em Dits et écrits. É necessário, ademais, levar em consideração o seminário de Foucault na Universidade de Vermont (outubro de 1982): As tecnologias de si (Technologies of the selfl

(enDE4, 783-813). Uma história do cuidado de si mesmo.

'A história do tuidado e das 'técnicas' de si seria, então, uma maneira de fazer a história da subjetividade; mas já não através das separações entre loucos e não loucos, enfermos e não enfermos, delinquentes e não delinquentes, mas através da formação e das transformações em nossa cultura das 'relações consigo mesmo] com seu arcabouço técnico e seus efeitos de saber. Desse modo, se poderia retomar desde outro ângulo a questão da'governamentalidade': o go-

verno de si mesmo por si mesmo, na sua articulação com as relaçôes com os outros (como é encontrado na pedagogia, nos conselhos de conduta, na direçáo espiritual, na prescrição de modelos de yida, etc.)" (DE4, 214). Essa história iria desde as primeiras formas filosóficas do de mii cuidado de si, no século V a.C., até o ascetismo cristão, século V d.C. Uma história, então, momento o fundamentais: três momentos na qual haveria que distinguir, pelo menos, anos

(séculos I - II) e a socrático (século V a.C.), a idade de ouro da cultura do cuidado de si mesmo passagem do ascetismo pagão ao ascetismo cristão (séculos IV-V). l) A pré-história filosófica das práticas do cuidado de si mesmo. Entre as técnicas do cuidado de si mesmo, encon-

(anatramos: os ritos de puriflcação, as técnicas de concentração da alma, as técnicas de tetiro choresis),os exercícios de resistência. Esse conjunto de práticas já existia na civilização grega arcaica e foi integrado nos movimentos religiosos, espirituais e ÍilosóÍrcos, em especial no pitauma invenção Íilosófica; trata-se, antes, de uma tradição de antiga data. Plutarco faz referência a um certo Alexândrides, um espartano que faz mençáo ao'tuida-te a ti mesmo'l Aqui, aparece ligado ao privilégio político, econômico e

gorismo (HS,46-48). O'tuida-te a ti mesmo'não

é

social: aqueles que possuem propriedades e escravos que as trabalhem podem ocupar-se de si mesmos. Como vemos, o'tuida-te a ti mesmo'não está originariamente ligado a uma posição

intelectualista (HS, 32-34). 2) O momento socrático. Platão nos apresenta Sócrates, na Ápologia, como o mestre do cuidado de si mesmo. A partir daqui, Foucault analisa o Alcibíades l, que toda a Antiguidade não tem dúvidas de atribuir a Platão, como o ponto de partida da história do cuidado de si. No Alciú íades l,a problemática do cuidado de si aparece relacionada a três questões: a política, a pedagogia e o conhecimento de si. A propósito da pergunta'b que significa ocupar-se?'] emerge o que poderia denominar-se o momento constitutivo do platonismo: a subordinação do 'tuidado' ao 'tonhecimento'l o entrelaçamento das práticas (exercícios) do

cuidado e o conhecimento (HS, 75-76). A análise do Alcibíqdes l se estende de HS 27 a77.3) A época de ouro do cuidado de si mesmo. Na filosofia helenístico-romana produz-se uma profunda transformação do cuidado de si com respeito ao tratamento desse tema no platonismo: 1) Estende-se temporalmente. |á não concerne somente a quem abandona a adolescência para ingressar na vida política, mas a vida toda do indivíduo. 2) Quanto à finalidade, já não está dirigido a governar a pólis, mas em relação consigo mesmo. Trata-se de uma espécie de CUIDADO DE

Sl rFpimeleta.5ouci\

93

autof,nalizaçáo do cuidado de si. 3) Em relação às técnicas do cuidado, não se trata só nem fundamentalmente de conhecimento, mas de um conjunto muito mais vasto de práticas (HS, 79-84). * Assim, se acentuará a função crítica do cuidado de si mesmo. Há, em Platão, uma crítica à pedagogia; pois bem, é esse elemento que irá se acentuando e se reformulando. Trata-se, agora, de uma correção-liberação. Aprender a

virtude é desaprender

os vícios. O tema da desa-

prendizagem é frequente nos estoicos. Aqui nasce também a oposiçáo entre o ensino da filosoÍia e

o ensino da retórica. Produzir-se-á, por outro lado, uma aproximação entre a filosofia e a me-

dicina. A própria prática ÍilosóÍica é concebida como uma operação médica. Aqui se situa

a

noção fundamental de therapeúein (therapeúein hequtón: curar-se, ser servidor de si mesmo, render culto a si mesmo). O vocabulário do cuidado de si haverá de se enriquecer marcadamente. * Também nos encontramos com uma revalorização da velhice. Na época helenística, ce passa a

a

velhi-

constituir um momento positivo, de realizaçáo, a culminação de toda essa longa

prática que o indivíduo deve realizar. O ancião é quem é soberano de si mesmo. A velhice, então, deve ser considerada como um objetivo positivo da existência. * Modifica-se também a posição

do 'butro" na prática do cuidado. A ignorância segue desempenhando um papel importante, mas, em primeiro plano, encontra-se agora a má-formação do indivíduo. Nunca, nem antes de seu nascimento, o

indivíduo teve com

a natureza

uma relação moralmente válida, de vontade

racional. Mais que superar a ignorância, então, trata-se de passar do estado de não sujeito ao estado de sujeito. Consequentemente, o mestre não é mestre da memória, mas o guia, o diretor da reforma do indivíduo. Encontramos, pelo menos, três formas dessa relação com o outro. O epicúreo Filodemo de Gádara fala da necessidade de um

/z

egemón

e de

dois princípios que devem

vincularodiretoreodirigido,ointensoafetoearelaçãodeamizade,eumaqualidadeessencial, a

parresía. O modelo comunitário dos estoicos é, em todo caso, menos rígido. A escola de Epi-

teto, em Nicópolis, é como um internato, onde não se comparte a totalidade da existência. A presenta do outro está assegurada pelas reuniões frequentes. A forma romana: o conselheiro, alguém que é recebido na casa de uma pessoa importante, para que o guie e o aconselhe e que, além disso, cumpre as funções de um agente cultural. * Finalmente, é necessário assinalar a extensão social do cuidado de si mesmo. A figura do filósofo, desde a Antiguidade, foi uma figu-

ra socialmente ambígua e frequentemente deflagradora de suspeições e suspeitas. Na época - como, por exemplo, Atenodoro (personagem da corte de Augus-

helenística e imperial, alguns

to)

-

incitavam a uma despolitizaçáo da vida. Parece que o próprio Augusto tornou suas essas ideias. Outros, como o epicúreo Meceno, sustentavam a busca de um equilíbrio entre a vida política e o otium. Contudo, para além de qual tenha sido a posição acerca da participação do filósofo na vida política e social, assistimos a uma extensão social do 'tuidado de si mesmo I uma propagação das práticas de si mesmo que vai muito além do papel do filósofo profissional. * No estudo do cuidado de si na época helenístico-romana, Foucault aborda numerosos autores e temas: Fílon (a questão dos terapeutas), Sêneca (a noção de stultitia), Plínio, Proclo e Olimpodoro (comentários neoplatônicos do Alcibíades I), as noções de conversão e salvação, Epicuro,

Filodemo de Gádara (a questão da parresía), a noção de ascese, Marco Aurélio (o exame de consciência), Plutarco, etc. As quase quatrocentas páginas que se seguem à análise do Alcibíades I, em Lherméneutique du sujet,estão dedicadas ao estudo do cuidado de si na época helenística e romana.4) Cristianismo. Com o cristianismo, as práticas de si mesmo foram integradas ao exercício do poder pastoral (especialmente as técnicas de deciframento dos segredos da

94

CUIDADO DE

5l

(Eplméle ia, Souci)

consciência) (DE4,545). Nos séculos

III-IV formou-se o modelo cristão

do cuidado de si mes-

rno. Ainda que em um sentido geral se possa falar de modelo cristão, seria mais correto chamá1o

modelo ascético-monástico (HS, 244). Nele, o conhecimento de si está ligado ao conhecimen-

to da verdade tal como nos

é dada

no Texto da Revelação. Encontramos uma relação çircular

entre o conhecimento de si, ou conhecimento da verdade e o cuidado de si mesmo: não é possível conhecer a verdade nem conhecer-se a si mesmo sem a purificação de si mesmo, do coração.

Em segundo lugar, as práticas de si mesmo têm como função essencial dissipar as ilusoes interiores, reconhecer as tentações que se formam dentro da alma, desatar as seduçôes das quais se pode ser vítima. Em terceiro lugar, o conhecimento de si mesmo não persegue o voltar-se para si mesmo, em um ato de reminiscência, mas a renúncia a si mesmo

to cartesiano, Modernidade. A partir do momento

(H5,244-245).5) Momen-

em que Descartes faz da evidência da

existência do sujeito a porta de acesso para o conhecimento do ser e da verdade, assistimos a

uma requalificaçáo do "conhece-te" e uma desqualificação do 'tuida-te'l Foucauit distingue,

entrefilosofia e espiritudidade. Filosofia: a forma de pensamento que determina as condiçÕes de acesso do sujeito à verdade. Espiritualidade: a busca, as nessa altura de sua exposição,

práticas, as experiências pelas quais o sujeito se modifica para ter acesso à verdade. A esse respeito, são necessárias três observações: 1 ) a verdade nâo se oferece imediatamente ao sujeito por um ato de conhecimento; implica \ma conversao.2)Há diferentes formas de conversão: éros e askesis.3) O acesso à verdade produz certos efeitos sobre o sujeito: beatitude, tranquilidade. A Modernidade começa quando o acesso à verdade passa a ser uma questão de conhecimento que, certamente, implica condições

-

internas, de método; externas, não estar louco, realizar estudos

sistemáticos, o consenso científico, a honestidade, o esforço

-,

mas que não envolvem o sujeito

quanto à sua estrutura interna. Em outras palavras, a Modernidade comeÇa quando a verdade se torna incapaz de salvar o sujeito. A (rnica recompensa é que o conhecimento se projeta na dirnensão indefinida do progresso. * O que devemos entender por "momento cartesiano'? Em

primeiro lugar, devemos notar que não se trata de um "momento' no sentido estrito do termo, de algo pontual. A referência a Descartes, por outro lado, não se limita exclusivamente à sua pessoa, como se a sua obra maÍcasse uma ruptura abrupta. O "momento cartesiano ] em segun-

do lugar, foi preparado. Pois bem, sobre essa preparação algumas observaçÕes cle Foucault sáo

particularmente interessantes

e

significativas. Com efêito, para nosso autor, a ruptura entre filo-

sofia e espiritualidade, definição do momento cartesiano, não teria que ser rastreada através de

um conflito entre ciência

e

espiritualidade, mas entre teologia e espiritualidade. Por um lado, a

existência de certos saberes, como a alquimia, por exemplo, mostra como ciência e espiritualidade conviveram. Por outro lado, seria precisamente do lado da teologia fundada em Aristóteles

(tomismo) que haveria que buscar os antecedentes da ruptura entre filosofia e espiritualidade. Segundo Foucault, nessa teologia escolástica de origem aristotélica, aparece uma ideia de sujeito de conhecimento que encontra em um Deus onisciente seu fundamento e seu modelo. Aqui, repetimos, haveria que rastrear os antecedentes da separação entre filosoÍia e espirituaIidade. Mais duas precisões. Em primeiro lugar, a ruptura não foi nem completa nem deflnitiva. Ainda depois de Descartes, a exigência da espiritualidadefez parte da filosofia. Por exemplo, segundo nosso autor, está presente na ideia de reforma do entendimento nas filoso-

fias do século XYII (especialmente Spinoza). A filosofia do século XIX pode ser vista como um esforço para pensar, dentro do marco da filosofia moderna tradicional (o cartesianismo), CUIDADO DE

Sl

(Fplméleia, Souci)

95

a necessidade da espiritualidade (especialmente Hegel). Em segundo lugar, Foucault faz notar

como, por um lado, se consideram falsas ciências aquelas que apresentam elementos de espiritualidade, isto é, que exigem uma conversão do sujeito para aceder à verdade e the prometem, em troca, alguma forma de beatitude. Ele está se referindo, clarament e, ao marxismo e à psica-

nálise.Por um lado, assinala como em ambos os campos, à exceção de Lacan, falta uma tematizaçâo explícita do legado da espiritualidade, ou seja, da relação ascese do sujeito/acesso à ver, dade. Ademais, observa que as exigências da espiritualidade foram reinterpretadas em termos sociológicos, a saber, de pertencimento awgrupo (HS, 19-20,27-32). Aphrodísia.Enquan-

to

therméneutique du sujet é uma análise geral da cultura do cuidado de

que

si,

Lusage de

plaisirs

e Le soucie de soi - volumes 2 e 3 de Histoire de la sexualité - ocupam-se da cultura do cuidado em relaçáo com os aphrodísia. A esse respeito,ver Aphrodísia.Ética,liberdade. O

cuidado de si, no mundo greco-romano, foi o modo pelo qual

a

liberdade individual ou

a

liberdade

cívicaserefletecomoética(DE4,712).Yertambém: Alcibíades,Ascese,ConJissao,Conversao, Po der Saúde, Subj etiv açao.

Exame,

Souci [829]: AN, 146, 231,233-234,261. A5,32,54,105, 123,213, 221,259,265. DEl,68, 120,203,263,267,429, 689, 802. DE2, 10,7 1,136, 156, t91,207 ,212,234,293,326,483,511,673,707 .D83,

527 -528,530,540-541,575,582,654

15, 19,31,75, 101-102, 105, 191,229,277,326,330,373,397,437,570,586,697,732,783.

213-215,230,317, 353-357, 385, 390, 400 403, 405,

409

,415,420-42t ,462.532,536,539,544,

622-624,626,629,636,646,649,668 670,67 4-675,708-709,7 t2-7

),7

,7 19,721-723,786-797,

DE4, 11, 108, 142, 149,153, 546, 553, 555, 609, 8

10, 8 1 5. HF

6 1 1, 61

5,

,24,26,76,90,

t04,245,277,284,300,397,404,454,513,546,560,581,585-586.HS,3-6,8-16,18,21,2325,27,30,32-34,36-41,43, 46, 49-53, 56-59, 61,63-67 , 69-70,73,7 5,79-87 ,89-90,93-94, 96- 100, 102- 1 05, 108- 1 10, 1,1.2-l

I

4, tt7 -119, 121, 1.22, 1.26,

t29-13r,143,156,159-160,163,167-172,r74,179-180,182,185-191, t93-197,201,21s-217,237,238,242-247,257-258, 266,298,361 362,369,375,377,400-401,4t7,4t9,42t,129-430,434,436,438,440,443

HSr,31, 47,51.,56,165 167,t72,1.97,199,209. HS2,

164 165,2t4,2t6,232,234,236,258,268,27 6. HS3, 58-59, 202,242,245,247 ,259,264,27 4E, 9E.

:3-*.

1

-272, 274. IDS,

7 1.

444,446,448,455,465,468 469.

16, 18,28, 30,45,47,58,64,85, 112,116,123,130,137,140, 153, 6 I -62

,68 69,72-73,77 ,127, 146, 151 152,162, 166, 175, 185,

MC ,127 ,150,259,310,3r4,345.352,381-382,390,397'398. MMPE,

MMPS, 48. NC, 40, 74, 127.128,138,142,149,179,190.

Pp,2t1-212. RR, 1 10, 186. Sp, 23, 114,20s,228.

CUVIER, Georges (1769 1832)

Foucault recorre à obra de Cuvier para descrever o nascimento da biologia * "Cuvier Ve r: Biologia, Episteme moderra. liberou

üda na episteme moderna.

eo a

modo de ser da

subordinação dos

caracteres de sua função taxonômica, para fazê-la entrar, para além de toda classificação eventual, nos diferentes planos de organização dos seres viventes [.

torno

.

.

] O espaço dos seres viventes gira em

a essa noção [de organização] e a

tudo o que havia podido aparecer, até agora, através da quadricula da história natural (gênero, espécies, indivíduos, estruturas, órgãos), tudo o que se oferecia ao olhar ganha, a partir de agora, um novo modo de ser" (MC, 275-276). GeorgesCuvier[256]:A5,187,i88,221,227,245.DE1,499,791,806. -109.

,r18. -123,396.

96

D82,273t,33-36,3862,66,100,222,

DE3,28,222,410. MC, 14,71, 149, 150, 157, 163,241,241,264 265,275_280,282_290,293_294,306_307,309 310,

CUVIER, Georges

:**. DARWIN, Charles

(1809 1BB2)

Cuvier, espécie. A espécie para Darwin não é uma realidade originariamente primeira analiticamente última, como é para Cuvier. Para Darwin, é difícil distinguir entre a espécie

e e

variedade (DE2, 30). População. Darwin foi o primeiro a ocupar-se dos seres viventes ao nível da populaçáo e não da individualidade (DE2, 160)' a

l,170,204,567 ,658,696,717 ,791,845. DE2, 30-3 1, 33,3536,4445,54-56,58,60,66,100,I60,163,t67,269,335,409.DE3,48,156,471DE4,41'5.HF,406,36-37 IDS, charles Darwin I7sl: AS, 50,

s2, 229.

r

}/C,

14, 139, 166.

MMPE,

136-137 ,166,1 87, 1 90, 200. DE

36-37.

*r. DEGENERAçÃO (Degenerescence) Tecnologias do sexo. A Psychopathia sexualis, de Heinrich Kaan (1846), pode ser

tomada como o indicador da independência do sexo a respeito do corpo e do aparecimento do domínio médico-psicológico das perversões. Pela mesma época, a análise da herança reconhecia a importância do sexo em relação à espécie, aparecia como o princípio de certas patologias da espécie. A teoria da degeneração permitiu vincular a noção de perversão com a herança. O conjunto perversão-herança-degeneração constituiu o núcleo mais sólido das novas * tecnologias do sexo (HS1, 157). A degeneração, enquanto princípio de enfermidades ao nível do indivíduo e da população, serviu como ponto de articulação de mecanismos disciplinares e * mecanismos reguladores (IDS, 225). A noção de degeneração faz referência a um elemento patológico, involutivo ao nível da espécie, das gerações (DE3,456). Psicanálise. A psicaná-

iise rompeu com o sistema da degeneração, retomou o projeto de uma medicina do instinto sexual, mas liberada de suas correlações com a noçáo de herança e, portanto, de todo racismo ou eugenismo (HSf , 157). Biologia, racismo. A novidade no século XIX foi o aparecimento de uma biologia do tipo racista centrada em torno da noção de degeneraçáo. O racismo não foi, em primeiro lugar, uma ideologia política, mas científica. Sua utilização política foi levada a cabo primeiro pelos socialistas, por gente de esquerda, antes que por gente de direita

(D83,324)

DEGENERAçÃo (Dégénérescence)

.

97

Anormalidade, psiquiatria. A noção

de degeneração permite isolar, recortar uma zona

de perigo social e dar-lhe, ao mesmo tempo, o estatuto cle enfermidade (AN, 110).. A degeneração é a peça teórica mais importante da medicalização do anormal (AN, 298). * A figura do degenerado permitirá um relançamento formidável do poder psiquiátrico (AN, 298). Doença mental. Com a psiquiatria do século XIX, com Morel, a enfermidade mental será pensada em termos de degeneração

(HF, 614). Representantes. Foucault

se refere aos

seguintes autores: B.-4. Morel, Traité des dégénérescences physiques, intellectuelles et morales de lbspàce humoine, et des couses quí produisent ces varíétés maladives, Paris, 1857;Y. Magnan, Leçons cliniques sur les maladies mentales, Paris, 1893 ;M. Legrain & V. Magnan, Les Dégénérés, état mentol et syndromes épisodiques, Paris, 1895. Dégénérescence I70l: AN, I I0, 125, 1 55, 180,223-221,27 1,297 -301,307,3 1 l . 45, 56, 99. DE2' 143, 1 63, 355, 359, HF, 170, 174,570, 61'1, 6'1'1 HS1, 41, 56, 156'158, 171 i72, 198.

758. DE3, 308, 314, 323-,125, 419,45,1, ,156,'158 4.59.

IDS,53,225,235,250,258. NC, 161, I7l. OD,34. SP,295.

DELEUZE, Gilles (192s

19e5)

"Mas um dia, talvez, o século será deleuziano" (DE2, 76). Diferença e repetição, Lógicq do sentido. Foucault apresenta Dffirence et répétition de Deleuze nesses termos: "Houve a filosofia-romance (Hegel, Sartre), houve a fiiosoÍia-meditação (Descartes, Heidegger)' Eis aqui, depois de Zaratustra, o retorno da filosofia-teatro. Não como reflexão sobre o teatro, tampouco teatro carregado de significações, mas como f,losofia convertida em cena, Personagens, signos, repetição de um acontecimento único e que não se reproduz nunca" (DE1, 768). "Theatrum philosophicum" " Ã Dffirence et répétition e à Logique du sens dedica também * (D82,75-99; de75 aST,Logique du sens e depots Différence et repetition). Como sabemos, a obra cle Deleuze âpresenta-se como uma inr.ersào do platonismo, porém não restituindo os

direitos à aparência, mas através do estbrço por pensar o impalpável fantasma e o acontecimento incorporal. É nesse sentido que Deleuze se dirige ao epicurismo e ao estoicismo. Para os

primeiros, os fantasmas são pensados como emissoes que vêm da profundidade dos corpos,

efeitos de superfície que topologizam a materialidade do corpo. Porém, não a partir do dilema verdadeiro / falso ou ser / não ser, mas como "extra-s eres". Logique du sens é, por isso, o iivro

mais afastado da obra de Merleau-Ponty, da Phénoménologie de la perception Aí, o corpoorganismo estava ligado ao mundo por uma rede de signiÍicações originárias que a percepçào mesma das coisas fazia aparecer. Para Deleuze, o organismo forma o incorporal e a impenetrável superlície do corpo, a partir da qual as coisas se afastam progressivamente. Trata-se de uma física concebida como discurso da estrutura ideal dos corpos; de uma metafísica, como discurso da materialidade dos incorporais (fantasmas, ídolos, simulacros) (DE2, 79)."t...1 uma metafísica liberada da profundidade originária como ente supremo, mas capaz de pensar o fantasma fora de todo modelo e no jogo das superfícies; uma metafísica onde náo se trata do Uno-Bom, mas da ausência de Deus e de seus jogos epidérmicos da perversidade"

(D82,

80). Para Deleuze, trata-se de retirar a ilusão dos fantasmas e, nessa tentativa, se cruza com a psicanálise (como prática metafísica) e o teatro (das cenas fragmentadas, que não representam nada), com Freud e Artaud. * Nos estoicos, Deleuze busca um pensamento do acontecimento.

98

DELEUZE, Gilles

"

[.

..

] no limite dos corpos profundos, o acontecinrento

é

um incorporal (superfície metatisi-

ca); na superfície das coisas e das palavras, o incorporal-acontecimiento é o sentido da pro-

posição (dimensão lógica); no Íjo do discurso, o incorporal sentido-acontecimento está ali-

nhavado pelo verbo (ponto infiuitivo do presente)" (D82,83). " O neopositivismo,

a

fenomenologia e a filosoÍia da história foram tentativas para pensar o acontecimento. Porém, o primeiro o reduziu a um estado de coisasi a segunda, ao sentido para uma consciência; a

terceira, ao ciclo do tempo. "Uma metafísica do acontecimento incorporal (irredutível, pois, a uma física do mundo), uma lógica clo sentido neutro (mais que urlla tênomenologia das signiÍicações e do sujeito), unr pensamento do presente inÍinitivo (e não a substituição do

tuturo conceitual na essência do passado), é isto o que Deleuze, me parece, nos propõe para retirar a tríplice sujeição na qual é mantido o acontecimento, aindar em nossos dias" (DE2, 8,1). * Finahnente, Deleuze se propÕe a pensar as ressonâncias entre essas duas séries: acon-

tecimento/fantasma, incorporal/impalpável; no entanto, não a partir de um ponto comum, mas em sua desunião. "Depois de tudo, nesse século XX, o que há para pensar de mais importante que o acontecimento e o lautasrna?" (DE2, 87).- Difiérerrce et réPétitiorz constitui um esforço para pensar a diferença para além do conceito, da representação e cla dialética. Desde a

perspectiva do conceito, a diferença aparece como especificação, e a repetição, como a indi-

ferença dos indivíduos. Em uma ÊlosoÍra da representação, cada representação nova deve estar acompanhada de representaçoes que desdobrem todas as semelhanças; a repetição será, então, o princípio de ordenamento do semelhante. A dialética, por sua vez, não libera a diÍ'erença, e sim garante que será sempre recuperada. "Era necessário abandonar, em Aristóteles, a ider"rtidade do

conceito; renunciar à sernelhança na percepção, liberando-se, de uma vez, de

toda filosofia da representação; eis que, agora,

é

necessário desprender-se de Hegel, da oposi-

91). Mas, a sujeição ção dos predicados, da contradição, da negação, de toda dialética'(DE2, pode dizer o ser, que maneiras se de mais tenaz da diferença são as categorias. Ao mostrar especificando de antemão as furmas de atribuição do ser, elas preservam o repouso sem diferença do ser. Quarta condição, então, para pensar a diferença, liberar-se do pensamento cate-

gorial, pensar o ser univocamente. Aqui as referências de Deleuze são Duns Escoto e Spinoza. No entanto, em Deieuze "[...] a univcrcidade não categorial do ser não liga diretamente o múrltiplo à unidarle nlesnta (neutralidade universal ou força expressiva da substância); ela põe em jogo o ser como o que se diz repetitivamente cla diferença. O ser é o retornar da diferença,

sem que haja diferença na maneira de dizer o ser. Esse não se distribui em regiões: o real não * se subordina ao possível, o contingente não se opõe ao necessário" (DEz,9l-92). Na histó-

ria da univocidade do ser, encontramos frnalmente Nietzsche, que nos convida a pensar o retorno. "Não há que entender que o retorno é a Íbrma de ilm conteúdo que seria a diferença, mas que, descle urna diÊerença sempre nômade, sempre anárquica, ate o signo sempre em excesso, sempre deslocado do retornar, uma fulguração se procluziu que levará o nome de Deleuze: um novo pensamento é possível; o pensamento é de novo possível" (D82, 98).

GIP

(Grupo de infonnação sobre

as prisões). Gilles Deieuze, Jean-Marie Dornenach, Pierre Vidal-Naquet tbran.r os fundadores do Grupo de Informação sobre as Prisões (GIP). "Nós

queríamos literalmente dar a paiavra aos detidos. Nosso propósito não é fazer o trabalho do sociólogo nem do reformador. Não se trata de propor uma prisão ideal. Creio que por deflnição a

prisâo é um instrumento de repressão" (D82,204).Intelectuais, poder. Em DE2, 306-315, DELEUZE, Gilles

99

encontra-se uma discussão entre Foucault e Deleuze acerca dos intelectuais e o poder ("Les intellectuels et le pouvoir"), cujos pontos relevantes são os seguintes: * As relações entre a teoria e a práxis são parciais e fragmentárias. O intelectual teórico deixou de ser um sujeito, uma consciência representante ou representativa. Aqueles que lutam deixaram de ser representados. Quem fala e quem atua é sempre uma multiplicidade, mesmo na pessoa que fala ou atua (DE2, 307-308). * Os intelectuais descobriram que as massas não têm necessidade deles

para saber; elas sabem perfeita e claramente. Mas existe um sistema de poder que impede invalida esse discurso

e esse saber. O

e

papel do intelectual é lutar contra as formas do poder ali

onde é, ao mesmo tempo, objeto e instrumento, na ordem do saber, da verdade, da consciência, do discurso. Trata-se de uma prática local e regional, não totalizante (D82, 308). * Uma

teoria, seria, então, uma caixa de ferramentas. * Nossa dificuldade para encontrar formas adequadas de luta provém de que ainda ignoramos o que é o poder. A teoria do Estado, as análises tradicionais dos aparelhos de Estado não esgotam o campo de exercício e de funcionamento do poder (DE2, 312). * A generalidade da luta não se logra sob a forma da totalização. O que faz a generalidade da luta é o sistema mesmo do poder, todas suas formas de exercício e de

aplicação (D82,315). Genealogiado capital. Em D82,452-456, seencontraráuma discussão entre Foucault, Deleuze e Guattari a propósito da publicação de Généalogie du capital, t. I: Les équipements du pouvoir. "O papel do Estado será cada vez maior: a polícia, o hospital, a separação louco / não-louco; e depois a normalização. Quiçá a indústria farmacêutica se encarregue dos hospitais psiquiátricos ou das prisões quando os internados forem tratados com neurolép-

ticos. [Tratar-se-á da] desestatização dos equipamentos coletivos que haviam sido o ponto de ancoragem do poder do Estado' (D82,456).Édipo, psicanálise. Deleuze e Guattari (Capitalisme et schizophrénie, t. I, IAnti-Oedipe, Paris, 1972) mostraram que o triângulo edípico pai-mãe-filho não é uma verdade intemporal nem uma verdade profundamente histórica de nosso desejo, mas uma maneira de conter o desejo. Édipo não é o conteúdo secreto de nosso desejo, mas a forma da coerção psicanalítica (DE2, 553-554). * O essencial no livro de Deleuze é o questionamento da relação de poder que se estabelece, na cura psicanalítica, entre o psicanalista e o paciente; relação bastante parecida à que existe na psiquiatria clássica. Deleuze descreve a psicanálise como uma empresa de refamiliarização

(D82,623-624). * O que há de inte-

ressante na análise de Deleuze é dizer que Édipo nao é nós, é os outros, esse grande Outro: o médico, o psicanalista. A psicanálise como poder, isto é Édipo (D82,625). "O livro de Deleuze é a crítica mais radical que já se fez da psicanálise. Uma crítica que não está feita desde o ponto de vista da direita, de uma psiquiatria tradicional, em nome do bom sentido, em nome, como

foi o caso de Sartre, da consciência, da consciência cartesiana. Em nome de uma concepçào extremamente tradicional do sujeito. Deleuze a fez em nome de algo novo. E, com bastante rigor, provocou um desgosto físico e político à psicanálise" (DE2, 777).* Fotcatlt escreveu o prefácio à edição estado-unidense de

lAnti-Oedipe (NewYork,1977) (D83, 133-136). Deleuze e Guat-

tari combatem três inimigos: 1) os burocratas da revolução

e os funcionários da verdade, 2) os (psicanalistas técnicos do desejo e semiólogos), 3) o maior inimigo, o adversário estratégico, o

fascismo, não só o de Hitler ou Mussolini, mas o que está em nós, em nosso espírito, em nossa conduta (DE3, 134). Propõe-se, com isso, a liberar a ação política de toda forma de paranoia

unitária e totalizante; fazer crescer a açào, o pensamento

e os desejos

por proliferação, não hie-

rarquicamente; liberar-se das velhas categorias do Negativo (a lei, o limite, a castração), preferir

I

00

DELEUzE,

ciiles

o que e positivo e múltiplo; não imaginar que é necessário estar triste para ser militante; não utilizar o peusamento para dar a uma prática política valor de verdade; não exigir da

política que restabeleça os direitos do indivíduo tal como foram definidos pela filosofia; não se enamorar do poder (D83, 135-136). Nietzsche. "Em todo caso, se Deleuze escreyeu um

livro soberbo sobre Nietzsche, no resto de sua obra,

a presença de Nietzsche é certamente

sensível, mas sem que haja nenhuma referência estridente nem nenhuma vontade de levan-

tar alto a bandeira de Nietzsche para alguns efeitos de retórica ou alguns et'eitos políticos" (D84, 444). * Foucault escreyeu junto com G. Deleuze a introdução geral às Oeuvres philosophiques complàtes de Nietzsche (DEl, 561-564). Genealogia. A genealogia se propõe à reativação dos saberes locais, menores, como diz Deleuze, contra a hierarquizaçâo cien,

tífica do conhecimento (IDS, I 1). Gilles

DeleuzeII3ll: AN, 271.D87,549,561,

573,767 77t,775.DBz22,7s-81,84,86

B7,

et,

es. e8, 1e8, zo.1

205,306 307,309,311,313-315,392,139,452,454,523,553-554,623-628,632,634,642,644,777,779.781 782,815 816.

DE3, 133, 1.35-136, 162, \67,425,582,588 590, 625 626,717. DE4,433, 436,436-437,444-445,696.

IDS, 11,20. PP,

88. SP, 29.

r

*:. DEMOCRACIA (Democrati

e)

Classe. "Se se entende por democracia o exercício efetivo do poder por uma população que náo está dividida nem ordenada hierarquicamente em classes, é perfeitamente claro que estamos muito longe dela. É tambem claro que vivemos em um regime de ditadura de classe, de poder de classe que se impõe pela violência, ainda que os instrumentos dessa violência sejam institucionais e constitucionais" (DE2, 495). Mercado. Dependemos de uma demo-

cracia de mercado, do controle que provérn da dominaçâo das forças clo mercado em uma sociedade desigr"ral (D82, 497). Grécia. Antígona e Electra de Sófocles poden ser lidas como uma ritualização da história do direito grego, a história do processo através do qual o povo se apodera do direito de julgar, de dizer a verdade, de opor a verdade a seus chefes. Esse

direito foi

a

grande conquista da democracia grega (D82,571). Controle, vigilância.

Quanto mais democracia, maior a vigilância. Uma vigilância que se exerce quase sem que as pessoas se deem conta, pela pressão do consumo (D82,722). * Foi a democracia, mais do que determinado liberalismo que se desenvolveu no século

XIX,

o que aperfeiçoou técnicas

extremamente coercitivas. Elas foram a contrapartida da liberdade econômica; não se podia

liberar o indivíduo sem discipliná-lo (D84, 92). Liberalismo. A democracia e o estado de direito náo sâo necessariamente liberais, nem o liberalismo é necessariamente democrático ou está ligado ao estado de direito (DE3, 822). Socialdemocracia. A concepçào supostamente marxista do poder como aparato do Estado, como instância de conservação, couro superestrutura jurídica é encontrada essencialmente na socialdemocracia europeia do final do século XIX. O problema da socialdemocracia era como fazer Marx funcionar dentro do sistema jurídico da burguesia (DEa, 189). Déntocratie [59]:DEt,615.D82,3.10, 384, 721.822. D[,4, 49. 78, 92, I 89,

3.14,

3e2, 500, 504, 52

195. +97,513. 571,

l,

587

702,72t

722..

DE3, 184, 280,614, 623,626,692,

,617,751. HS, 130_131. 159. HS2. 242. IDS, 30, 180- 1 81, 185,

190, 234. PP, 78. SP,245, 293.

DEMOCRACIA

(Démocratiei 101

:,-i.: DERRIDA, Jacques (1930 2004)

Cogito,loucura. Aleitura loucura, deu lugar

a

das

Meditaçoes de Descartes, da relação entre o cogito ea

uma conhecida polêmica entre Foucault e Derrida. Yer: Cogito. Escritura,

discurso, metafísica. Respondendo

a uma pergunta acerca da interpretação de Derrida sobre a metafísica ocidental como dominação da palavra sobre a escritura, Foucault assinala: "Eu

não sou capaz de fazer tão altas especulações que permitiriam dizer: a história do discurso é a repressão logocêntrica cla escritura. Se fosse assim, seria maravilhoso... Infelizmente, o material

humilde que eu manipulo não permite um tratamento tão majestoso. [...] parece-me que quer fazer

se

história de certos tipos de discurso, portadores de saber, não se pode não levar em conta as relaçÕes de poder que existem na sociedade onde esse discurso funciona" (DE2, 401;. * 'n ' alguns anos, havia na França um costume 'a la Heideggerl diria: todo filósofo que se

a

fazia uma história do pensamento ou de um ramo do saber devia partir pelo menos da Grécia

ir mais além. Platão não podia ser senáo a decadência a partir da qual tudo começava a cristalizar-se. Esse tipo de história, em forma de cristalização metafísiarcaica e sobretudo nunca

ca estabelecida de uma vez por todas com Platão, retomada aqui na França por Derrida, me parece desolador" (DE2, 521). lacquesDerrida[107]:D81,101,813,815.DE2,245,247218,250,252-258,262267,281-29s,409,s21.DE4, ,146. HS, 26, 351. PP, 295.

:r::, DESCARTES, René 1rs96,1650) Loucura. Em Histoire das

de

Meditaçoes metafísicas

lafolie, Foucault explora

ea

o caráter contemporâneo da publicação

criação do Hospital geral em Paris. Por um lado, o gesto institu-

cional que exciui o louco, confinando-o ao hospital, dando início ao 'grande enclausuramento"; por outro, na interpretação de Foucault, o gesto teórico que exclui a não razão, que a separa da razão. "Na economia da dúvida, há um desequilíbrio fundamental entre a loucura, por um lado,

o sonho e o erro, por outro. Sua situação é diferente em relação à verdade e com aquele que a busca. Sonhos ou ilusões estão superados pela estrutura mesma da verdade; mas a loucura está excluída pelo sujeito que duvida"

(HF, 68-69).

"Se o

homem pode sempre estar louco, o pensamento, como exercício cla soberania de um sujeito que se impõe o dever de perceber o verdadeiro, não pode ser insensato" (HF, 70). Tal interpretação, acerca da relevância ou, melhor, da especificidade da loucura no caminho da dúvida, deu lugar a uma polêmica com Derrida da qual nos ocupamos no verbete Cogito. Cartesianismo. Em les mots et les choses, é-nos oferecida uma interpretação do cartesianismo a partir daquilo que Foucault denomina episteme clássica, ainda que e é necessário ter isso presente Foucault esteja se ocupando

-

-

da episteme clássica, como fenômeno geral, e não de Descartes em particular. Segundo sua

ieitura, há que distinguir três coisas. 1) o mecanicismo que, durante um período bastante breve, se propôs como modelo teórico para outros domínios do saber; 2) os esforços para matematizar as ordens empíricas, às vezes aceito e proposto como horizonte de toda ciência, às vezes

102

também rechaçado; 3) a relação que todo o saber da época clássica mantém com

DERRtDA, Jacques

a

máthesis como ciência geral da medida e da ordem. Pois ben, na expressão de Foucault, sotr a fórmula rnágica e yazia da "influência cartesiana' ou "rnodelo neil,toniano'l confundem-se frequentemente essas três coisas e, por isso, define-se o racionalismo como a tentativa de tornar a rlatureza calculável e mecânica

(MC, 70). "Porque o fundamental para a epistérne clássica

não é nern o sucesso ou o fracasso do mecanicismo, nem o direito ou a impossibilidaiie de matematizar a natureza, mas uma relação ct>m a máthesls que, até o ínal do século XVIII, permanecerá constante e inalterada. Essa relação i]presenta cluas características essenciais. Â primeira é que as lelações entre os seres serão pensadas sob a forura da ordem e da medida, mas com esse desequilibrio fundamental: sempre se pode referir os problemas da medida àqueles da ordem" (MC, 7t). Medir e ordenar serão os r.nodos racionais de comparzrr. Foucault reíere-se aqui às regras \rl, VII e XIV, das Regtlae de Descartes. Nesse sentido, o pensamento c1ássico, à difêrença do Renascimento, exclui a semelhança como experlência fundamental e

forma gerai do saber; :rgora, é necessário submetê-la à análise segundo a medida e a oldem

(MC, 66-67). Modernidade. Em les ntots et o cogito cartesiano.

Yer Cogito, Home'm.

les choses, For.rcault opoe o cogito moderno e

Nesse çontexto, a

Modernidade nào começa conl

Descartes, mas, eul ternlos filosóficos, corn Kant. N{ais adiante, desde a perspectiva do estudo

histórico das práticas de si mesmo, Foucault faz coincidir o começo da Nloderniclade com o que denomina de "momento cartesianoiYer Cuidado, N[odernidade. Sujeito: A identiÍrcaçâo sujeito-consciência ao nír,el transcendental até os nossos dias

(DE2, 372).

e

característica da filosofia ocidental de Descartes

O sr.rjeito foi o problema fundamental da filosoÍia n-roderna de

Descartes a Sartre (DE3, 590). RenéDescqrtes[214]:DFl,171,247,)61,127,348,116,451.155,.1-57-.158,461,479,499,5-\15:il,-596,(r1t,649, 66),,7 68,770,

t-7

5, 78,1.

DE2, 1 06,

1 1

3. 245-2,18, 250-25 1 , 253 256. 259 260, 262-268,283 295,372,376, 382, '177-'179, '18.1,

5+0,547,519,751.DE3,10,4-r1,433,571,5q0.D84,.52,1ó9,231,.110--1t1,'146,6i0-6J1,67e-6E0,71-i,767,711e,u10.HF, 67,69-70,186-187,210,136,289,294,311,337,366,375,412,414.431,137,638.HS,19,25 28,30,183,281.296,340-'+',11.

MC,65,ô6,84, 138,140, 217,260,314,33.1

:

335, i57. NC, IX. PP,29, -i8,

tl0, t39,184,295. SP, li8

:,,. DESCONTINUIDADE (Discontinuite)

Foucault assillala quatro consequências da nova disposição da história: a multiplicação das rupturas, a nova importância da noção de descontinuidade, a impossibilidade de uma história global, o surgimento de outros problemas metodológicos. "Para a história, etu sua forma clássic:r, a descontinuidade era, âo mesmo tempo, o dado e o impensável: o que se oferecia na forma de acontecimentos dispersos (decisões, acidentes, iniciativas, descobrimentos) e o que devia ser delimitado pela análise, reduzido e suprimido para que apareça a continuidade dos fatos

[...] Ela [a descontinuidade]

se

tornou, agora, um dos elemeutos funclamentais da

análise histórica" (AS, 16). A noção de clescontinuidade, segundo Foucault, tem três funçoes: 1)

constitui uma operação deliberada do historiador (que deve distinguir níveis, os metodos

adequados a cada uma, suas periodizaçÕes); 2) e também o resultado da descrição; 3) Trata-

um conceito que não cessa de ser ajustado (toma novas formas e funções especíÍicas de acordo com os níveis que se lhes são designados) (AS, 16-17). A arqueologia, que se situa a si se de

mesma dentro desse marco de renovação do conhecimento histórico, tem dupla tarefa. Por um DESCONTINUIDADE

(Di5coni/nuire) I03

lado, desfazer-se daquelas categorias com as quais tradicionalmente assegurou, para além de todo acontecimento, a continuidade do pensamento, da razáo, do saber: autor, obra, livro. Por outro lado, elaborar as próprias categorias, as que permitam pensar a descontinuidade na

ordem do discursivo (ver: Formação discursiva). "Tratava-se [na arqueologia] de analisar história em uma descontinuidade que nenhuma teleologia reduziria de antemão, de posicioná-la em uma dispersão que nenhum horizonte prévio poderia encerrar, de deixá-la essa

desdobrar-se em um anonimato ao qual nenhuma constituição transcendental imporia a forma do sujeito, de abri-la a uma temporalidade que não prometeria o retorno de nenhuma aurora" (AS,264-265). * "Eu me esforço, ao contrário, por mostrar que a descontinuidade não é um vazio monótono e impensável entre os acontecimentos que haveria que apressar-se a preencher (duas soluções perfeitamente simétricas) com a triste plenitude da causa ou pelo

ágil jogo do espírito; mas que ela é um jogo de transformações específicas, diferentes umas de outras (cada uma com suas condições, suas regras, seu nível) e ligadas entre elas segundo esquemas de dependência. A história é a análise descritiva e a teoria dessas transformações"

(DEl,

680). Yer: Arqueologia, Episteme.

Discontinuité [ 126l: AN,

8

1, I 42. AS, 12-13, 16-17 , 21,23, 24, 31, 40, 44, 46,74,78, 105, 153, 159, 225, 228, 264.

DEr,108,191,491,504-505,586,673-674,677,679,680,696,698-701,706,71,0,7t2,717,731.D82,37,5152,6465, 279, 28t,315,793. DE3,

3

1, 142-144. 167 , 434-435, 641. DF.4, 23, 25, 49, 56, 457, 569,7 69-770.

290-292,305, 400, 448, 468. HS

l,

1

}IF,

132, 144,520. HS,

32. HS3, 229.tDç,12,20,104. MC, 43, 87, t2s,22s,280,286, 288, 30s, 308, 349, 370,

389,391. NC, 1r0. OD, s4, s8,60. pp,3, s4. sp, 132.

r*?. DESEJO

(Désil

Na obra de Foucault, encontramos numerosíssimas referências ao tema do desejo, sem que ele nos ofereça ou pretenda fazer uma teoria do desejo. Mas cada um dos campos de análise de Foucault

deu lugar a considerações acerca do desejo. Saber. 1) representação. O fim da episteme clássica

coincidirá com o retrocesso da representação com respeito à linguagem, ao vivente, à necessidae do desejo escapará ao modo de ser da representação (MC, * 222). A psicanálise serve-se da relação de transferência para descobrir, nos confins exteriores

de.

A força surda da necessidade

à representação, o Desejo, a Lei e a Morte (MC, 389). Ver: Episteme clássica.2) Finitude. No fundo de todas as empiricidades que mostram as limitações concretas da existência do homem, descobre-se uma finitude mais radical que está dada pela espacialidade do corpo, pela abertura

do desejo e pelo tempo da linguagem (MC, 326). Yer: Homem.3) Psicanrilise, psicologia. * À diferença das ciências humanas (a psicologia, a sociologia, por exemplo) que se movem no âmbito da representação, a psicanálise ayança para uma região em que a representação fica em suspenso. Nessa região, esboçam-se três figuras: a vida, que com suas funções e suas normas vem se na

repetição muda da Morte; os conflitos

fundando-

regras, na abertura nua do Desejo; as significações e os sistemas em uma linguagem que é, ao mesmo tempo, Lei (MC, 386). * A psicanálise se serye da relaçáo de transferência para descobrir, nos confins exteriores à representação, o Desejo, a Lei e as

e a Morte, que designam no extremo da linguagem e da prática analítica as figuras concretas da finitude (MC, 389). Poder. l) Repressão, poder, lei. * No tema geral do poder que reprime o sexo e

na ideia da lei como constitutiva do desejo, encontra-se uma mesma suposta mecânica do poder,

I04

DESEJo (Désir)

definida de maneira bastante limitacla. Seria um poder cuja única potência consiste em dizer "nâo l sem produzir nada; um poder concebido essencialmente segundo um modo jurídico, centrado no enunciado da lei e no funcionamento da proibição (HSf , 112-113). * É necessário desprender-se da imagem do poder-lei, do poder-soberania que os teóricos do direito e da instituição monárquica desenhararn; desprender-se do privilégio teórico da lei

e da

soberania

(HSl,

I 18). * Essa concepçâo

jurídico-discursiva do poder domina tanto a temática da repressão como a teoria da lei constitutiva do desejo. A distinção entre a análise que se faz em termos de repressão dos instintos e a análise que se faz em tertros de lei do desejo passa pelo modo de conceber a dinâmica clas pulsões, não o (HSl, 109). * A relação de poder está ali onde há desejo; é, pois, uma ilusão denunciá-lo em

poder

termos de repressão

2) Verdade. *

e é vã a

"[...]

busca de um desejo tbra do poder

(HSl,

108). Yer: Poder, Repressão.

o discurso verdadeiro não é mais, desde os gregos, aquele que responde ao

desejo ou aquele que exerce o poder. Na vontade de verdade, na vontade de dizer esse discurso verdadeiro, o que está ern jogo senão o desejo e o poder?" (OD,22).3) Édipo. Considerar a his-

tória de Édipo náo conro o ponto de origem da formulação do desejo ou das Íbrmas do desejo do homenr, mas, ao contrário, como Lrm episódio bastante curioso da história do.saber (D82,542).. Édipo não seria uma verdade da natureza, mas um instrumento de limitação e de coerção que os psicanalistas utilizam, desde Freud, para conter o desejo e fàzê-lo entrar em uma estrutura familiar definida historicamente (DE2,,553). Ver: Edipo.4) Deleuze. Deleuze e Guattari trataram de

mostrar como o triângulo edípico pai-mâe-f,lho náo

é

uma yerdade aternporal nem uma rerdade

profundamente histórica de nosso desejo, mas uma estratégia de poder (DEZ, -sS:). Yer: Deleuze, Édipo.5) Conhecimento,prazer.* Em Aristóteles, a relação conhecimento-prazer-verdade que o ato de ver manifesta é transportada à contemplação teórica. O desejo de conhecer sr,rpõe :r relação

entre conhecimento, verdade eprazer

(D82,243).Ética.

l)

homem de desejo. * A experiência

moderna da sexualidade e a experiência cristã da carne são duas figuras históricas dominadas pelo homenr de desejo. Os volumes I e II de Histoire de la sexualité se propõem a estudar os jogos de verdade na relaçiio consigo mesmo como sujeito no âmbito do homem de desejo; constituiriam

uma genealogia do homem de desejo desde a Antiguidade clássica até os primeiros seculos do cristianismo (HS2, 1l-13). * A genealogia do homem de desejo não é um exirme das sucessivas concepções do desejo, da concupiscência ou da libido, mas uma análise das práticas pelas quais os

hdir,íduos se constituem como sujeitos de yerdade em relação ao desejo, isto é, das práticas que permitem dizer

a

verdade do desejo (HS2, 11). 2) Dispositivos de sexualidade e de aliança.

Com a psicanálise, é a sexualidade que dá corpo

e

vida às regras de aliança, saturando-as de desejo

(HSl, 150). * Freud fez do mundo da imaginação um mundo habitado pelo desejo, assim como a metafísica clássica fez que o querer e o entendimento habitassem o

mundo físico (DEl, 70). 3)

Confissão, scientia sexualis. * "O desejo era assim um elemento consÍitutivo do pecado. E liberar o desejo não é outra coisa que cada um decifrar seu inconsciente como os psicanalistas e, muito

(D83,

-

Ãdifêrença da ttrs erotica, na scientia sexualis encontramos um tipo de saber que problematiza o desejo, não o prazer (DE3, antes, a disciplina da confissão catóiica o havia feito"

52.7).

l04). Ver: ConJtssao.4) Sade. * O aparecimento do sadismo ruzão, encermda depois de mais de um século

e

se

situa no momento em que a des-

reduzida ao silêncio, reaparece não como figura do

mundo nem como imagem, mas como discurso

e desejo

(HF,453). *'A grande tentativa de Sade,

com tudo o que pode ter de patético, reside no fato que trata de introduzir a desordem do desejo em um mundo dominado pela ordem e pela classificação. Isso é o que significa exatamente o que

DESEJO

(Desir) 105

denomina'libertinageml O libertino é o homem dotado de um desejo suficientemente forte e de um espírito suficientemente frio para conseguir fazer entrar todas

as

potencialidades de seu desejo

em uma combinatória que esgota absolutamente todas" (D82, 375).Yer Sade.5) Aphrodísia,

prazeÍ. A atração exercida pelo prazer e a força do desejo que leva dos

a ele

formam, com o ato mesmo

aphrodísia, uma unidade essencial para os gregos da época clássica. Com o helenismo

e

com

o cristianismo, essa unidade começará a se fragmentar (HS2, 51-52). No uso dos aphrodísia, o objetivo não

e

anular o prazer; ao contrário, trata-se de mantê-lo (HS2, 66). Mas, nos gregos

exemplo em Aristóteles, posto que o desejo de prazer que caracterizaà sophrosine 1o,

é

(HS2, 100). * Conceder

insaciável

-, é necessária

a

medida da razão

ao prazer o menor espaço possível,

no mundo romano (DE3, 559). Yer. Aphrodisia, Prazer.6) Hermenêutica:

cristã da carne, a problematização da conduta sexual não a

utilizá-

apesar disso, para ter filhos, praticá-lo apenas dentro da instituição do matrimônio; esses três

princípios que se consicleram característicos do cristianismo, estavam já presentes e

- por

éo

+

r.ro

helenismo

Na experiência

prazer ou a estética de seus usos, mas

hermenêutica purificadora do desejo (H.52,278).Yer: Cuidado. Désir [912]: AN, l8 20, 114, 120-121,132

134, 146, 1-55, 165 166, 170, 17s,177 180,1IJ7, 189, 195,203,205'217 220'

229 230,247,249,251 253,257-258,261,263-261,268,288,309-310. AS,22,21,31,65,89-91, 138, 151,

1-53,

196-197.

DEl,

298,300,305,307308,312, 69-71,74,78,88-89,92,94,105,107,110,112-113,115116,124,162,219,221-227,233,263,297 327 -328,329.334-336,426,512,521-522.525,532-533,688,700,749,759,7f13, 785 786, 802, 818.D82,2\,67 ,7 5, 78, 84, 94, 102, 1 16, 145, 16l,164,226,232,).42-243,314,325,3s5,365,375.377,386, 395, 447,448, s16, s42, 547, s47, ss3-ss5, 6l 1,

623621,626 628,63s,639,611,644,651,65365-5,660,664,678,692,695,707,710,713-714,746,754,757,769,772,779, 814-815,819-820,825-826.DE3,21,54,83,90-91,98,104,133 174,517,526-527,553-556, 559, 568,594,603,617,628,733,

135,149,227,262,265,280,-103,-163,381-382,422,421,470,

t-47,781,783.D84,79, 108, 121, 148-149,

163-16,1, 175, 183,

198,205,215,24,1,246,248,25]l-252,295-297,303,310,313,316-317,320,326,333,352,386,389-397,399-401,,145,467

169,

529, 533, 540 542, 546, 552. 557,583, 592, 605, 608, 61 1, 614, 616 617 , 619 620, 622, 633-634, 637 , 657 ,661, 663, 668, 672,

705,710711,717-718,730,735,738,751,783,802,810-811.HF,35-38,76,122,137 138,221,231,372,384,413,423-126, 152-453,460,466 467,636,639,643,657-659,671. HS,41,49,84,88, 134, 211 212,2t-4,330-331,363,405,413

414.

HSl,

20,28,30,32-33,63,103,107 109,112,11,1,118,14,1,149-1-50,170 172,198,207-208.HS2,10-13,18-19,27,34,'18,50--55, 59.62,65,66,78,81,89,98, r00-103, 106, 151-152, 155, 162, 180, 186,208,210,2\2,218,226,244,216,248,252-253.25s, 261,263,265,267 269,278.}153,22-25,60,81,83,8,1

85,97-98,128-I30,136,145, I50, I55, I57-160,162,165, I67, I79,193,

229,232,238,25t-252. IDS,36, 108, 132. MC, 107, 121, 134, 184-185, 187, 203-204,22r 224,235-237,250,255,269,320, 325-326,373,386 387, 389. MMPE, 26,38,42-46,49,66. MMPS, 26, 38, 42 46, 49, 66. NC, 16, 84. OD, 8-9, 12,15,22-23, 48.80. PP,6l, 102,1.07,1.74 :l75, 18,1-185, 189,275,293. RR, 183, 199. SP, 108, 114, 124,182.243,252,272,310.

: .-:=. D E S PS I Q U

I

AT

R

I

ZA

Ç

AO

(D e p sy c h i a t r i s a t i o

n)

O curso dos anos 1973-1974 no Collêge de France foi dedicado ao "poderpsiquiátrico'i

Foucault distingue duas formas ou dois movimentos de despsiquiaÍnzação. O primeiro se inicia com Babinksi, quem, à diferença de Charcot, quer reduzir ao mínimo as manifestações da doença mental; em outras palavras, trata-se de eliminar o teatro introduzido por Charcot

(uma espécie de pasteurização do hospital psiquiátrico). As duas formas mais notáveis desse processo de despsiquiaÍrizaçâo foram a psicocirurgia e a farmacologia. A segunda forma de despsiquiatrização, inversamente à anterior, busca que se inverta, na relação médico-paciente, direção da produção da verdade. Há que escutar a verdade da loucura. Nesse caso, para manter o poder médico, agora "despsiquiatrizado'l o primeiro movimento foi desativar os efeitos a

1

06

DESPStQUtATRIzAçAo lDepsychiatrisation)

próprios

c1o

espaço asilar: regras do "cara a cara' entre médico e paciente (livre contrato entre

paciente e médico); regras da liberdade discursiva; regras do divã (que só concede realidade aos efeitos que se produzem ali). Em poucas palavras, a psicanálise foi a outra grande fbrma de psiquiatrização. 'A essas duas grandes tbrmas de despsiquiatrizaçâo, arnbas conservadoras (umai porque anula a produção da verdade, outra porque trata de adequar a produção da r,erdade e o poder medico), se opõe a antipsiquiatria' (DE2, 683). Dépsychiatrisation

i

[11 ]: DE2, 681 68i,68ô. DE3, 3i5, 349 350. PP, 137.

;= DIAGNOSTICAR (Diagnostiquer) Várias vezes, Foucault definiu seu trabalho como uma tbrma de "jornalismol um "jorna-

lismo Íilosóhco" que quer diagnosticar a atualidade. Frequentemente também,

esse

modo de

entender a Íilosofia é apresentado como uma herança de Nietzsche. A diferença de urna larga tradição filosófica que havia têito do eterno e do irnóvel o objeto da filosofia, Nietzsche introduz o "hoje" no campo da filosofia (D82,434; DE3, 431, 573). Pois bem, nos dois artigos escritos

por ocasião do bicenteniírio da célebre resposta de Kant à questão colocada pelaBerlinische Monatsschrifi, "O que é o Iluminismo?'l não é Nietzsche, mas Kant, quern inaugura essa forma de interrogação Íilosófica como diagnóstico da atualidade ou, segundo outra expressào, como

'bntologia do presente" (DE4, 564). * Pode-se interrogar o presente como Platâo to Político, isto e, como uma época do rnundo distinta ou separada de outras; como Santo Agostinho, para descobrir os signos que anunciam um acontecinento próximo; como rv'ico, como urn rnornento de transição para unr mundo novo. Para Kant, a atualidade, o presente, não é nem uma epoca do

mundo, nem um acontecimento revelador do iminente, nem a aurora de uma realização. Kant, com efeito, define a atualidade em termos completamente negatir.os: saída do estado de minoridade. O presente, para Kant, coloca-se assim simplesmente em termos de diÍàrença

(D84,564,

680-681). Não como uma relação longitudinal do presente com respeito aos antigos, mas urla relaçáo "sagital' (DE4, 681). Interrogar o presente em termos de diferença define, para Foucault, a atitude de Modernidade (um éthos,rno uma época) (DE4, 568). "Eu caracterizaria esse áflros 61osófico próprio da ontologia crítica de nós mesmos como uma prova histórico-prática dos

limites que podemos atravessar e, assinr, colno um trabalho de nós mesmos sobre nós mesmos * enquanto seres livres" (D84, 57 5) . Kant se apresenta, desse modo, como o lundador das duas grandes tradições críticas nas quais se divide a Írlosofia rnoderna. Por um lado, a analítíca da

verdade que se interroga acerca de como é possível o conhecimento verdadeiro. Por outro,

ontologia

do presente, que se

pergunta o que

éa

rz

atualidade. Nessa forma de filosofia, que vai de

Hegel à Escola de Frankfurt, passando por Nietzsche e Weber, Foucault situa sua própria tarefa

filosófica (DE4, 687-688). * Foucault, em uma entrevista dos anos primeiros (1967), diz que "La philosophie structuraliste permet de diagnostiquer ce qubst'aujourd'hui"' (DEl, 580584). * Pode-se caracterizar o conceito tbucaultiano de atualidade rnediante três elementos: a repetiçâo, a diferença e o limite. Diagnosticar a realidade consiste ern estabelecer o que constitui nosso presente, os acontecimentos que repetimos (por exemplo, a separação razãolloucura

[DE3, 574]). Mas

a atualidade não é sornente o presente no

sentido da repetição. Diagnosticar

DIAGNOSTICAR

(Diagnostiquer) lO7

atualidade consiste também em marcar as diferenças. Não se trata de compreender o presente a partir do passado (como uma época do mundo) nem do futuro (como anúncio ou promessa), a

mas em sua diferença, a partir de si mesmo. O conceito de crítica permite vincular o presenterepetição e o presente-diferença. Diagnostiquer [25l : ,{N, 57

32.

DEr,

3. DF4, 307. HF, 171, 1 80. MMPS, 93.

: : +.

580, 580-58 1, 583, 606 -607, 620,665,753. DE2,140, 149, 1 59, 686,772.

pp, t0,

292. Sp, 228, 259,

3

D83,

10.

DIALÉT ICA (D i a t ecti q u e)

Loucura. O século XVI privilegiou uma experiência dialética da loucura; mais

que

nenhuma outra época foi sensível ao que podia haver de indefinidamente reversível entre a razão e a razâo da loucura (HF ,222). A clausura da época clássica é o espaço onde se organizam, com a coerência de uma prática, a inquietação dialética da consciência e a repetição ritual de uma separação (HF, 223). Antropologia. No início do século XIX, constituiu-se uma disposição do saber na qual figuram, ao mesmo tempo, a historicidade da economia, a finitude da existência humana e o acabamento da história. História, antropoiogia e suspensão do devir se pertencem segundo uma figura que define uma das conexões maiores do pensamento do século XIX. A erosão lenta ou violenta da história (como desaceleração

indefinida ou inversão radical, Ricardo ou Marx, por exemplo) fará brotar a verdade antropológica do homem. No final do século XIX, Nietzsche destruiu as promessas combinadas da antropologia e da dialética (MC, 273-275).Yer Homem. Sartre. "Pois bem, me parece que Sartre, escrevendo a Crítica da razao dialética, em certo sentido pôs um ponto final, fechou o parêntesis para todo um episódio de nossa cultura que começa com Hegel. Fez tudo o que pôde para integrar a cultura contemporânea, ou seja, as aquisições da psicanálise, da economia política, da história, da sociologia à dialética. Mas é característico que não tenha podido deixar de lado tudo o que provém da razao analítica e que profundamente faz parte de nossa cultura contemporânea: lógica, teoria da informação, linguística, formalismo. A Crítica da razão dialética é o magníf,co e patético esforço de um homem do século XIX para pensar o século XX. Nesse sentido, Sartre é o último hegeliano e, também diria, o último marxista" (DEl, 541-542). Razã,o analítica, cultura não dialética. Foucault identifica uma série de manifestações do que denomina cultura analítica ou cultura não dialética: ela começou com Nietzsche (com o descobrimento da mútua pertença da morte de Deus e a morte do homem), continuou com Heidegger (com a tentativa de retomar a relação fundamental com o ser mediante um retorno à origem grega), com Russell (com a crítica lógica da filosofia), com Wittgenstein (através do problema das relações entre a lógica e a linguagem), com Lévi-Strauss. * Contudo, Foucault sublinha a necessidade de evitar um retorno àrazâo analítica do século XVIII. Enquanto a razão analítica do século XVIII se caracterizou por sua referência à natureza, earazâo dialética do século XIX se caracterizou por sua referência à existência (as reiações entre o indivíduo e a sociedade, da consciência à história, da práxis à vida, do sentido ao não sentido, do vivente ao inerte), a razão não dialética do século XX se constitui pela sua referência ao saber (DEr, 542). * Na linguística, na etnologia, na história das religioes e na sociologia, os conceitos de ordem

108 otnlÉTlcn

lDratectique)

dialética, formados no século XIX, foram em grande parte abandonados (DE1,585). Marx. A reativação e transformaçáo dos temas marxistas (Althusser, por exemplo) tentam separar

Marx tanto do positivismo como de Hegel (DEl, 825). Poder. Nas relações de poder, encontramos fenômenos complexos que não obedecem à forma hegeliana da dialética (DE2, 754). A dialética hegeliana do senhor e do escravo é o mecanismo pelo qual o poder do senhor se esvazia pelo próprio exercício; Foucault, no entanto, quer mostrar como o poder

outro lado. (DE2, 817) As relações de poder (DE3,471). Cuidado, Platão. Em Platáo, graças ao diálogo, estabelecia-se um nexo dialético entre a contemplação de si e o cuidado de si. Na época imse reforça com o seu exercício, não passa ao são recíprocas, não dialéticas

perial (séculos I-II), desaparece

essa

estrutura dialética; esses dois temas se complementam

(D84,797). Guerra, história. A dialética codifica

a luta, a guerra) o enfrentamento em

uma lógica da contradição; ela assegura, assim, a constituição de um sujeito universal, de uma reconciliação. A dialética é a pacificação. Através dela, a filosofia colonizou o discurso histórico-político dos séculos XVII e XVIII (IDS, 50). * A possibilidade de uma filosofia da história encontrará, no presente, o momento em que o universal manifesta sua verdade. Teve lugar, desse modo, uma autodialetização do discurso histórico (IDS, 2 I 1 ). Transgressão. A linguagem da transgressão (Bataille) é uma linguagem não dialética do limite (DF'L,244).

Yer Transgressão. Yer também: Blanchot, Deleuze. Dialectique [226J: AN, 177. AS,5l ,169.D81,73,94-95. 100, 129, 143-145,149,160 161, 180, t84,218,236,238-239, 24r,241.247-249,257,266,268,328329,34t,523-524,541-544,573,585 586,606,609,611,6t3,7r8,727,787,815,81ó, 825,840.DE2,65,90-91,321,.108,.12.1-125,751,808-809,817.D83,34,53,145,311,426 427.171-172,5t'6.DE4,20,65, 197,294,29i,439,740,790-79).,793,797.HF.30,49,84,86,89,99,100,143,200,217,222-223,233,237,273,312,336, 349,358,417,453,469,543,589,590-591,599,608,651,654,659'660. HS,4l' 141' 284,3s9. HS2, 101, 264. IDS,37, s0, 52,72,96,193, l9{, 21 1 -2 12. MC,257,261,275, 3i0-33 1, 350-351. MNÍPE, lÔ, 20' 12, 25, 83, 8ó-87, 93-9'1, I 00- 102, 109.

MMPS,

::

16, 20,22,25,98. NC,51,97. PP, 150, 161,

:. Dl ETÉT ICA

(D i

eteti q u e)

Em L'usage des plaisir"s,Foucault se ocupa de quatro formas principais da estilização da conduta sexual: em relação ao corpo, a Dietética; em relaçáo ao matrirnônio, a Econômica; em relaçâo ao amor aos mancebos, a Erótica; em relação à verdacle, a Filosofia (HS2, 44).

'A preocupaçâo principal dessa reflexâo era definir o uso dos prazeres (suas condiçÕes favoráveis, sua prática útil, sua rarefação necessária) em função de certa maneira de ocupar-se de seu corpo. A preocupação era muito mais dietética que 'terapêutical trata-se do regime ter.rdente a regular uma atividade que era reconhecida como

112). O tratamento da dietética do seculo V a.C. ao século

importante para

III

a saúde"

(HS,

a.C. se estende da pág. 109 a

156. A esse respeito, Foucault aborda quatro questões: 1) Do regime em geral: preocupação de estabelecer a medida dos exercícios (naturais e vioientos), os alimentos e as bebidas (em

relação ao ciima e às atividades), os sonhos (as horas que se lhes dedicam, as condições enr

que se dorme), as relaçoes sexuais. Na regulação dessas atividades, não entra em questão só o corpo, mas também a alma. A relação entre a saúde do corpo e da alma constitui um eixo centr aI da dietética. * A dieta, por outro lado, não era concebida como uma obediência DtETÉTtcA

(Dietetique) I 09

outro; ela devia ser uma prática reflexa de si mesmo e de seu corpo (HS2, l2l).2) A dieta dos prazeres: a dietética problematiza a prática sexual nào como um conjunto de atos que se possam diferenciar segundo suas formas e seu valor; mas como uma cega ao saber de

atividade à qual se deve deixar um livre curso ou pôr um freio segundo a quantidade e as circunstâncias. Mais que organizar-se na forma binária do permitido e o proibido, sugere uma oscilação permanente entre o mais e o menos (HS2, 131-132).3) Riscos e perigos: a necessidade de moderar a prática dos prazeres não repousa sobre o postulado de que os atos sexuais seriam por natureza maus. No entanto, peias consequências do ato sexual para o corpo do indivíduo e pela preocupação com a progenitura, devem ser objeto de cuidado

medida (HS2, 133 e 137).4) O ato, o gasto, a morte: o ato sexual foi considerado, desde sua origem, como uma mecânica violenta; atribui-se a Hipócrates tê-1o considerado como uma pequena epilepsia (HS2, 142). Expulsando o sêmen, o ser vivente não só libera um e

humor que teria em excesso, mas também se priva de elementos valiosos para a existência (HS2, 146). O ato sexual é o ponto em que se cruza a vida individual, destinada à morte e * uma imortalidade que toma a forma da especie (HS2, 150). De maneira geral, pode-se observar uma notável continuidade, desde a época clássica ao helenismo, da dietética, de seus temas, de seus princípios que, em todo caso, foram reÍinados e detalhados. Mais que de uma

mudança, devemos falar de uma intensificação da preocupação por si mesmo e pelo corpo. Nesse quadro, marcado pela solicitude pelo corpo, o meio ambiente e as circunstâncias, a medicina da época helenística abordou a questáo dos prazeres sexuais: de sua natureza, de seus mecanismos, de seu valor positivo e negativo para o

indivíduo, do regime

a que

convém

submetê-lo (}J.53, 126, 272). Diététique[53]:D84,611.HS,43,58-59,102,144,154,156.HS2,44,107,109,112-116,119-121,124,I25,I30 t 34, |

6t,

131,

218, 224, 230, 234. 275. HS3, t24, 126, 166, 272. NC, 35.

: :.:. DISCI PLI

NA (Drscrpirne)

Em Foucault, encontramos principalmente dois usos do termo'disciplinal Um na ordem do saber (forma discursiva de controle da produção de novos discursos) e outro na do poder

(o conjunto de técnicas em virtude das quais os sistemas de poder têm por objetivo e resultado a singularização dos indivíduos [DE3,516]). Mas é necessário enfatizar que não são dois conceitos sem relação. Ainda que a questão da disciplina

-

desde o ponto de vista do

poder, isto é, dessa forma de exercício do poder que tem por objeto os corpos sua normalização

- tenha sido

a que

principalmente ocupou os especialistas

e

e

por objetivo

interessou aos

leitores, não se pode deixar de lado o uso discursivo do conceito de disciplina. Esse uso resulta particularmente interessante para iluminar o modo como Foucault concebe as relações entre o saber e o poder. * A disciplina como técnica política não foi inventada no século XVIII, mas sim elaborada a partir do momento em que o exercício monárquico do poder se tornou demasiado custoso e pouco eficaz. A história da disciplina se estende ao início do cristianismo eà

Antiguidade; os monastérios são um exemplo disso (D83, 514-515). Discurso. Emlhrdre

du discours, Foucault enumera

I I0

DtsctPLtNA (Disclpline)

os mecanismos de

limitação dos discursos (OD, 331-38). Aí

a

disciplina aparece como uma das formas internas desse controle, isto é, como uma forma discursiva de limitação clo discr.rrsivo. As outras duas fon.nas internas que precedem à disciplina são o comentário e o autor. A diferença desse último, a disciplina define um campo anônimo de rnétodos, proposiçoes consideradas conro verdadeiras, um jogo de regras e definições, técnicas e instrumentos (OD, 32). A diferençir do comentário, não busca a repetição; antes, exige a novidade, a geração de prqpeslç5.s ainda não f-ormuladas. A disciplina deter-

mina

as condiçoes que

uma determinacla proposição deve cumprir para entrar no campo do

vercladeiro: estabelece de quais objetos se deve falar, que instrumentos conceituiris ou técnicas há que utilizar, em que horizonte teórico deve inscrever-se.

Em

"ll

Disciplinarização dos saberes.

faut détênclre la société ", Iroucault distingue entre história das çiências e genealogia dos

saberes: enquanto a

primeira

se

articula em torno do eixo estrutura do conhecimento/exigên-

cia de verdade, a segunda se dá ern torno do eixo prática dÍscursiva/enfrentamento de pocleres.

A tarefa de uma genealogia dos saberes é, antes de tudo, desfazer a estratégia do Iluminismo: a NÍodernidade não é o avanço da luz contra as sombras, do conhecimento contra a ignorância, rnas sim uma história de cornbates entre saberes, uma luta pela disciplinarização do co-

nhecimento. * Um exemplo de genealogia dos saberes é a organização do saber técnico e tecnológico no final do seculo XVIII. Até então, segredo e iiberdade haviarn sido características desse tipo de saberes; um segredo que assegurava o privilegio de quem o possuía e a independência de cada gênero de conhecimento que permitia, por sua vez, a independência de queÍn o manejava. Ao Íural do século XVIII, por ocasião das novas fbrmas de produção e das exigências econômicas, faz-se necessário ordenar esse campo. Instaia-se, para dizê-lo de algum modo, uma luta econômico-política ern torno aos sarberes. O Estado inten'irá para disciplinar o conhecimento mediante quatro operaçÕes estratégicas: a) Eliminação e clesqualificação dos saberes intiteis, economicamente custosos. b) Normalização dos saberes: ajustá-los tllls aos

outros, perrnitir que se comuniquem entre eles. c) ClassiÍtcação hierárquica: dos mais parti* culares aos mais gerais. d) Centralizitção piramidal. É nessa luta econômico-política em torno aos saberes em que devemos colocar o projeto da Enciclopedia e a criaçao das grandes escolas (de minas, de pontes, de caminhos). E é nesse processo de disciplinarizaçào que surge

a ciência (previamente o que existia eram as ciências). A Írlosofia deixa, então, seu lugar de * saber funclamental, abandona a exigência de verdade, e se instaura a da ciência. E nessa e

luta também que surge a universidade moderna: seleção de saberes, institucionalizaçáo do conhecirlento e, consequentemente, o desaparecimento do sâbio-arnateur. Surge também um novo dogmatismo que não tem como objetivo o conteúdo dos enunciados, mas as lbrmas da enunciação. Não ortodoxia, mas ortologia (IDS, 159-165). Poder. A terceira parte de Surveiller et punir (135-229) está inteiramente dedicada à análise do poder disciplipor

essa

nar. Aí, Foucault especifica detalhadarnente o que entende por poder disciplinar, a relação coru

humanas, a signiÍicação para a história social e política moderna. Trata-se de uma que teul como objetivo os corpos em seus detalhes, em sua organização inpoder forrna de terna, na elicácia de seus movimentos. Nesse sentido, há que distingui-la das outras formas as ciências

de poder que tarnbém têm por objeto o corpo: a escrqvidao (que estabelece uma relação de

propriedade), a domesticaçrio (que se define pela satisfação do capricho do amo), a vassalqgent (uma relação codificada entre o senhor e os súditos, mas distante) e o ascetismo cristao (marcado pela renúrncia, não pelo fortalecimento das capacidades corporais). * A disciplina DISCIPLINA

lDiscipline) 1I1

mantém com o corpo uma relação analítica. Segundo a linguagem de Foucault, encontramos uma microfísica do poder, com uma anatomia política do corpo cuja finalidade é produzir corpos úteis e dóceis ou, se quisermos, úteis na medida de sua docilidade. Com efeito, o ob-

jetivo da disciplina é aumentar a força econômica do corpo e, ao mesmo tempo, reduzir sua força política. * Por isso, devemos considerar a disciplina desde um ponto de vista positivo ou

produtivo como geradora de individualidade. A forma da individualidade disciplinar responde, segundo Foucault, a quatro características: celular, orgânica, genética e combinatória. Cada

uma dessas características corresponde a técnicas do poder disciplinar: 1) A distribuição dos corpos no espaço. Para isso, são empregados vários procedimentos. A clausura: definição do

lugar do heterogêneo. O quadriculamento: localização elementar, cada corpo em seu lugar, tantos espaços como corpos. Localizações funcionais: articulação do espaço individual, por exemplo, com os processos de produção. A unidade do espaço disciplinar é a posrçáo na Jila (à diferença do território, unidade de dominação, e do lugar, unidade de residência): espaço

partir de uma classificação. Em outras palavras, trata-se de ordenar a multiplicidaum quadro vivente. 2) O controle da atividade: horário (atividades regulares afinadas em minutos), elaboração temporal do ato (ajustar o corpo aos imperativos definido

a

de confusa, de criar

e os gestos (o corpo disciplinado favorece um gesto efi.caz), articulação do corpo com os objetos, utilização exaustiva do tempo. 3) A organização da gê-

temporais), correlação entre o corpo

nese (o problema é como capitalizar o tempo): divisão do tempo em segmentos nos quais se

deve chegar a um termo, serialização das atividades sucessivas, o exercício como técnica que

impõe aos corpos tarefas repetitivas e diferentes, porém graduadas.4) A composição das forças: articulação e localização dos corpos, combinação das séries cronológicas, sistema preciso de mando. * Para gerar a individualidade disciplinada, essa técnica de poder se serve de instrumentos simples: l) A vigilância hierárquica: trata-se de uma série de técnicas, partiçularmente iigadas à distribuição do espaço (panoptismo) e do ver que induzem relações de poder. As "pedras" dos edifícios disciplinares - à diferença do "palácio" construído para ser visto e da "fortalezi'pensada para controlar o espaço exterior

-

tornam os indivíduos dóceis

um poder do "ver sem ser visto" que assegure seu luncionamento múltiplo, automático e anônimo. 2) A sanção normalizadora. Há um modo específico de castigar no domínio do disciplinar. Para a disciplina não se trata nem de expiar uma culpa nem de reprimir, mas de referir as condutas do indivíduo a um conjunto comparativo, em diferenciar os indivíduos, medir capacidades, impor uma "medidal traçar a fronteira entre o normal e o anormal. Por isso, a "norma' se distingue do conceito jurídico de "lei" e cognoscíveis. Trata-se de fazer possíve1

(cuja referência são os códigos, propoe-se a diferenciar atos, distingue entre o permitido e o proibido). Enquanto a lei separa e divide, a norma, por sua vez, pretende homogeneizar. A norma funciona em um sistema binário de gratiÍicação e sanção; para ela, castigar é corrigir. 3) O exame. Técnica que combina o olhar hierárquico que vigia com a sanção normalizadora. Nela, superpõem-se relações de saber e de poder. No exame se inverte a economia da visibi-

lidade no exercício do poder, o indivíduo ingressa em um campo documental, cada indivíduo se converte em um caso (a individualidade tal como se pode descrevê-la). A diferença de outras técnicas de poder, encontramos uma individualização descendente. O exame é a forma

ritual da disciplina. * O processo de disciplinarização das sociedades ocidentais modernas

pode ser visto como um processo que vai do espaço da quarentena, para enfrentar a peste, ao

112

DtsctPLrNA (Disciptine)

espaço do panóptico tal como o descreve Bentham. A organização do espaço da quarentena

clisciplinava o espaço da exclusão. Tratava-se de um estado de exceção que funcionava a partir da ameaça de morte (para quem abandonasse os limites da quarentena ou o lugar que lhe fosse designado).

0 panóptico, por

sua vez, é um modelo generalizável de vida, uma tecnologia

é necessário separar de todo uso específico. O panóptico é uma máquina de dissociar o ver do ser rristo; desse modo, reduz o número dos que exercem o poder ao mesmo tempo em que aumenta o número daqueles sobre os quais o poder se exerce. Automatiza-se

política que

(não é necessário o exercício atual e efêtivo da vigilância, basta o lugar do controle) e se desindiviclualiza o poder (não se sabe quem vigia). Ainda que descontínua em sua ação, a vigilância é permanente em seus efeitos: induz nos indivíduos um estado consciente e permanente de vigilância. Nesse processo de disciplinarização, deve-se assinaiar:

1

) A inversão

funcional

das disciplinas: não só evita um perigo, mas acl escenta a utilidade possível cios indivíduos. 2)

A difusâo dos mecanismos disciplinares: sua extensão e desintitucion alização.3) A estatização dos mecanismos da disciplina: a polícia. * Não só o cárcere resulta da aplicação das técnicas da disciplina, como tambem o hospital, o asilo, a escola, a lábrica.

As ciências humanas, os saberes "psi". Se a investigaçáo judicial, tal como se delineou no medievo, foi a matriz jurídico-política das ciências empíricas, a disciplina foi a matriz política das ciências humanas. Enquanto a primeira pode independentizar-se de seu contexto político, ligado às formas c1o poder, a segunda, por sua vez, está intimamente ligada a ele. "Todas as ciêucias, análises ou práticas com o radical 'psico-' tên.r seu lugar nessa mudança histórica dos procedimentos de individualização. 0 momento em que se passou dos meçanismos histórico-rituais de formação da individualidade aos mecanismos científico-disciplinares, em que o normal substituiu o ancestral e a medida tomou o lugar do estatuto, substituinclo desse moclo a individualidade do homem merncrável pela do homem calculável; esse momento em que as ciências do homem

tornaram-se possíveis

é

aquele em que foram postas em funcionamento uma nova tecnologia

do poder e outra anatomia política do corpo. E se, desde o fundo da Idade Média até hoje, 'a aventura'é o relato da individualidade,

a

passagem
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